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Tem a Palavra Fátima Brás | Porquê?

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Ter a palavra no ComRegras é opinar sobre um assunto, denunciar um acontecimento, um espaço de partilha ou até mesmo de desabafo. Não me cabe a mim julgar ou opinar sobre o seu conteúdo, cabe-me sim dar a possibilidade a quem quer e precisa de ser ouvido. Tem a palavra Fátima Brás.

porquê

Desde que me lembro de mim, que gosto de fazer tudo com a maior perfeição de que sou capaz. Isto acaba por ser um defeito, que me penaliza a mim própria. Sempre a melhor aluna da turma, sempre pronta a “compilar” trabalhos de grupo, sempre a oferecer-me para isto e para aquilo.

Com as vivências que me acolheram, sem as pedir nem esperar por elas, foi ficando cada vez mais vincada essa maneira de ser- ou se faz bem, ou não vale a pena. Poucas pessoas entendem este meu feitio. Não viveram três anos numa ala de pediatria oncológica, não acompanharam o sofrimento de tantas crianças, os seus gritos que ecoavam na noite, os gemidos da dor que nos ferem por dentro, não viram partir parte de si próprios e por isso não entendem. Não podem entender. Não quero sequer que sintam na profundidade do ser (não só como uma frase que sai, normalmente acompanhada por um “Não te rales! A vida é curta.”) o real da brevidade da vida e de que cada segundo deve ser gasto em algo útil e solidário.

Tudo seria fácil, se se respeitasse a visão dos outros, se se reconhecesse o lapso e não se andasse a tapar o Sol com a peneira, a consertar erros com erros, a envolver outros em tramoias e mentiras, enredando todos ao redor, formando nós de cumplicidade que já não se desatam sem rasgar “o tecido”.

E assim chego ao ponto em que o relacionamento que tenho com alguns colegas ligados à direção de Agrupamento é difícil, causador de aborrecimento. Porquê? Porque acho que, quando analiso algo e concluo que não pode, não deve ser assim, que é prejudicial para alguém, não me coibo de o dizer, de o apontar, perante quem tem responsabilidades no assunto. Mas não. Não é como penso. Não é como afirmo. Como é que os outros não veem o que eu vejo? E quando veem, quando aprovam, não exigem respeito pela sua decisão?

Ao longo dos anos, os atritos com a gestão do Agrupamento acentuaram-se e cada vez mais, eu tenho recorrido a esclarecimentos a nível dos departamentos do Ministério responsáveis pelas orientações dadas- é o Plano Curricular de Turma que deve ser simplificado e virado para as medidas de acompanhamento dos alunos- não sei o que digo; é o Conselho de Docentes de Estabelecimento que se pode criar para Avaliação e facilitar a vida a todos nós, evitando deslocações- não pode; é a Ficha de Avaliação Docente(em formato excel)cuja soma não corresponde ao intervalo de 1 a 10, porque quem não tem aulas assistidas não pode ter mais do que 8,9 (assim se falseiam os resultados e 60% de (2+2) são 2,136 em vez de serem 2,4)- armo-me em esperta; são as Coordenadoras de Departamento nomeadas entre docentes abaixo do 4.º escalão da carreira e eu que minto e digo calúnias, não sou solidária e mereço um processo disciplinar…escrito num “esclarecimento” do Diretor lido perante todo o Departamento!!!
Isto é o que me recordo a titulo de exemplo.

Nunca. Nunca tenho razão. Quando vêm as respostas “superiores”, aí…Aí a incómoda” tinha razão. E há lá coisa melhor para “combater” estes incómodos do que inventar uns boatos, ditos a meia voz, à saída de reuniões, no bar, em cantos e recantos?? É como um fósforo que ateia a fogueira espalhada silenciosamente numa comunidade. Quando o visado se apercebe, não a pode já apagar. Vai para casa, enquanto acusado de louco. E espera. E desespera até que o fogo amaine, que o vento se canse de atear a chama.

Enquanto isso, perde dinheiro, saúde…Vê a família sofrer com o seu choro, os desabafos, a instabilidade de quem está preso sem ter cometido qualquer crime. Quem tem o dever de garantir condições de trabalho, de proteger a saúde dos funcionários, de os valorizar conforme o seu esforço e empenho, delicia-se com a “ausência dos incómodos”. Então tudo corre bem. Há quem mande e quem obedeça, sem contestar.

Houve até uma ocasião em que se respondeu por mim à queixa de uma encarregada de educação. Aquele direito fundamental que é a audição e a defesa em caso de acusação, que os assassinos, os pedófilos, os violadores…têm, eu não tive. É culpada e pronto. Havia uma participação à Escola Segura, com testemunhas do ocorrido e havia um relato com fotos, elaborado por mim. Consultar para quê?? Basta dizer que sim, que foi para casa doente e apresentou demissão. Tudo conveniente à lei do menor esforço.

Na sequência desse processo, estive, de março de 2010 a outubro de 2011, em casa. Voltei a lecionar até ao início do ano escolar de 2014/2015, tendo sido colocada na Biblioteca da Sede de Agrupamento, usufruindo de ano de isenção da componente letiva ao abrigo do Artigo 79.º do ECD, por ter completado 33 anos de serviço. Em qualquer destes locais, o meu trabalho foi reconhecido por colegas e pais como sendo de qualidade e grande empenho. Fui avaliada com 9,1 (Excelente, que por decisão da Comissão de Avaliação, teve a menção de Muito Bom).

Durante o referido ano letivo, para além do trabalho na Biblioteca, louvado pela respetiva Coordenadora, investi na minha formação. Realizei duas Ações, pagas por mim própria:

-Prevenção da Indisciplina no Centro de Formação de Mafra, classificada com 9,4 valores- Excelente;

– Aplicação do Modelo CAF à Avaliação das Escolas, pela Universidade Aberta, com 9,9 valores- Excelente.

É nestes momentos que me vêm ao pensamento os deveres profissionais próprios da docência e me questiono qual deles se aplica na prática:

“…a) Orientar o exercício das suas funções pelos princípios do rigor, da isenção, da justiça e da equidade;

  1. b) Orientar o exercício das suas funções por critérios de qualidade, procurando o seu permanente aperfeiçoamento e tendo como objectivo a excelência;
  2. c) Colaborar com todos os intervenientes no processo educativo, favorecendo a criação de laços de cooperação e o desenvolvimento de relações de respeito e reconhecimento mútuo, em especial entre docentes, alunos, encarregados de educação e pessoal não docente;
  3. d) Actualizar e aperfeiçoar os seus conhecimentos, capacidades e competências, numa perspectiva de aprendizagem ao longo da vida, de desenvolvimento pessoal e profissional e de aperfeiçoamento do seu desempenho;
  4. e) Participar de forma empenhada nas várias modalidades de formação que frequente, designadamente nas promovidas pela Administração, e usar as competências adquiridas na sua prática profissional;
  5. f) Zelar pela qualidade e pelo enriquecimento dos recursos didáctico -pedagógicos utilizados, numa perspectiva de abertura à inovação;
  6. g) Desenvolver a reflexão sobre a sua prática pedagógica, proceder à auto-avaliação e participar nas actividades de avaliação da escola;
  7. h) Conhecer, respeitar e cumprir as disposições normativas sobre educação, cooperando com a administração educativa na prossecução dos objectivos decorrentes da política educativa, no interesse dos alunos e da sociedade.

                                             (Retirado do Artigo 10.º do Estatuto da Carreira Docente)

No presente ano letivo, como recompensa do meu esforço, depois de todos os outros docentes do agrupamento (continua-se a afirmar que se cumpriu o Regulamento Interno- “…em caso de alteração da titularidade de turmas, na atribuição das mesmas, deverá cumprir-se a maior graduação profissional…” – e que não tenho que me sentiu lesada) foi-me atribuída uma turma mista de 1.º e 4.º anos, de 26 alunos, com 19 alunos de 1.º ano (sete eram condicionais, com 6 anos por completar) e 7 alunos de 4.º ano, havendo uma NEE confirmada, uma outra ainda não sinalizada para a educação especial (no 4.º ano) e outros alunos sem qualquer autonomia, já com repetências em anos anteriores. Apesar de uma pequena remodelação, ensaiei várias estratégias, que pouco resultaram:

– trabalhar com o 1.º ano e o 4.º ao mesmo tempo- impossível;

– ocupar os alunos do 4.º ano e trabalhar com o grupo de 1.º ano– impossível, por falta de autonomia dos alunos mais velhos, um sem saber ler e outros sem capacidade de compreensão das questões, nem de expressão escrita;

– trabalhar com os alunos de 1.º ano– possível apenas com “abandono” dos alunos de 4.º, incapazes de levar a cabo qualquer tarefa sem as explicações e o acompanhamento imprescindíveis.

Como é evidente, esta última solução não foi do meu agrado e tentei “correr” de um grupo para o outro. Ao sétimo dia, do 36.º ano de serviço, tive que me ausentar por doença, quase perdendo os sentidos na própria escola. Liguei para a DGEstE, expus a situação, pedi ajuda. Queria resolver a questão de forma benéfica aos alunos, com a colaboração das colegas e da coordenadora de estabelecimento. Precisava apenas de autorização para tentarmos. Como a direção não fora sensível a qualquer argumento, porque a turma fora constituída e aprovada de forma legal, a 10 de Novembro, reuni com o Senhor Delegado Regional, esperando orientação para criar uma dinâmica adaptada às crianças e prevista na lei (nada de estranho que não se aplique noutras escolas) e me permitisse fazer um trabalho minimamente digno

Fui aconselhada a trabalhar com a turma conforme estava constituída ou então, a permanecer em casa. Assim fiz. Fui operada várias vezes. Fiz uma reabilitação oral.

No início de Abril, tratamento terminado, em fase de adaptação e cicatrização, o médico declarou isso mesmo e informei superiormente que estava apta a retomar a atividade. Não. Não podia, porque não era explícito que poderia retomar a atividade letiva. Questionei. A atividade docente é letiva e não letiva. Se o médico declarara que não me era possível “falar durante períodos longos de tempo, sob risco de hemorragia”, poderia de certo, exercer trabalho no âmbito da “extensa componente não letiva de estabelecimento”, que inclui até acompanhamento de alunos e apoio pedagógico. As respostas chegaram, da DGEstE e da Secretaria de Estado. Deveria aguardar Junta Médica.

Neste momento, ainda aguardo Junta Médica, que não funciona, segundo me informaram. Sou só mais uma docente, dos muitos nesta situação. Enquanto isso, nas Escolas, o pessoal é insuficiente para as necessidades de serviço.

Mafra, 26 de Maio de 2016.

Prof. Fátima Ventura Brás

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