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Teletrabalho E Cuidar Dos Filhos: “Deixem-nos Adaptarmo-nos”, Pedem Os Pais

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Ainda o anúncio sobre o encerramento das escolas estava a ser digerido e logo os pais começaram a ver os nervos afectados com os pings, os dings e os toings que assinalavam a necessidade de “baixarem” nos seus computadores e telemóveis as aplicações e as plataformas electrónicas necessárias para trabalharem remotamente, por um lado, e para que os filhos continuem ligados à escola, por outro, mantendo horários e esquemas de trabalho. “A mim só me apetecia gritar ‘parem’. Deixem-nos adaptar-nos aos novos hábitos e angústias, antes de começarem a exigir que mantenhamos o ritmo de trabalho e de estudo, como se nada estivesse a acontecer”, desabafa Sofia Ferreira, psicóloga de formação a trabalhar como funcionária pública.

Mãe de duas crianças, com nove e cinco anos de idade, a trabalhar em casa juntamente com o marido, Sofia ainda não conseguiu fazer o upload da plataforma que a professora da filha mais velha escolheu para dialogar com os alunos, quanto mais começar a trabalhar. “Senti-me atolada com apps e chats e textos explicativos sobre como gerir as tarefas, rotinas e horários, como se tudo tivesse que estar normal quando tudo está diferente. Parem! A nossa cabeça ainda está a gerir os medos e as angústias que esta situação nos cria. É preciso fazer a catarse disto tudo”, prossegue Sofia, para acrescentar que, com a vida subitamente reduzida ao entorno doméstico, querer manter a normalidade pode até ser contraproducente. “Estarmos fechados em casa e só podermos sair à rua com máscara e a quatro metros de distância dos outros não é normal. A situação não é normal. E isto estourou há menos de uma semana. Portanto, dêem-nos tempo para que nos adaptemos”, reforça, num apelo dirigido a escolas e entidades patronais.

De facto, responder a e-mails e chamadas do trabalho, respondendo pelo meio a perguntas sobre trigonometria ou sobre os constituintes de um rio, ao mesmo tempo que se asseguram refeições e os cuidados da casa, tem funcionado como um convite à insanidade doméstica para muitos pais. Na casa de Luísa Moura, uma professora universitária de 37 anos, fechada em casa em teletrabalho juntamente com o marido e dois filhos, um com nove e outro com quase quatro anos, o caos está sempre à espreita. “É a loucura. O que me safa é a minha varanda”, conta. “Como professora, estou a preparar-me e a preparar as ferramentas para poder dar aulas à distância, até porque os alunos não vão querer perder o ano. Mas nada disto é fácil, até porque o meu filho mais novo está sempre a pedir atenção. Não quer ficar sozinho, sente saudades dos avós e, ainda por cima, está na altura dos medos. Se conseguir que fique meia hora a brincar sozinho no quarto com legos é uma vitória”, descreve.

Resultado prático: a televisão ganhou omnipresença. “Muitas vezes, os ecrãs são a única maneira de os entreter. Não dá para querer manter as regras anteriores”, assume. Entre os trabalhos da escola da filha mais velha e a necessidade de atenção do mais novo, juntamente com as refeições e o esforço para manter a casa “minimamente decente”, as solicitações laborais têm ficado para trás. “Nada, zero. Não consigo.” E a parafernália de conselhos sobre como manter as regras e a ordem no meio do caos contribuem para que se sinta ainda mais culpada. “Sinto-me sempre em défice. Como mãe e como profissional”, acrescenta Luísa Moura.

Ecrãs sem livre trânsito

O jornal The New York Times escrevia, no início da semana, um artigo dirigido aos pais intitulado “Limitem-se a dar-lhes os ecrãs (por agora)”. Ao PÚBLICO, o pediatra Mário Cordeiro não vai tão longe. “Há que dosear os ecrãs, mesmo que com uma latitude maior do que no quotidiano normal”, prescreve. “Se se compreende que os ecrãs tenham de estar mais presentes, não se pode, neste aspecto, criar um ‘novo normal’, em que se faz tábua rasa das regras anteriores e se passa um livre-trânsito para o uso e abuso dos ecrãs, porque depois será difícil fazer marcha atrás”, avisa, para aconselhar os progenitores a diversificarem as actividades. “Mesmo em frente a um ecrã pode-se ir alternando entre jogos, pesquisa, visitas a museus, conhecimento geral, música, etc.”, lembra, para sugerir que um esquema com o programa do dia pode evitar a repetição monocórdica dos dias que, inevitavelmente, “acabará por cansar e trazer frustração e, claro, birras e litigância”.

Para Mafalda Estudante, “a pior parte” desta pandemia “tem sido conjugar o teletrabalho com os trabalhos escolares dos filhos. “Só temos um computador em casa e, para eles fazerem os trabalhos, eu tenho de interromper o meu. Os professores estão a enviar os trabalhos por e-mail e, só para História, o meu filho mais novo, que tem dez anos, são dez páginas de perguntas para responder esta semana”, declarou, para acrescentar que, na turma do mais velho, com 13 anos, “a professora de Ciências enviou uma ficha para substituir o teste que estava marcado e comunicou que, se não entregarem na segunda-feira, serão penalizados”. Conclusão: “Estão só a criar mais stress desnecessário, nesta altura em que já estamos todos encurralados”.

sobrecarga de trabalhos escolares e a impossibilidade de os fazer com a celeridade desejada tem feito tocar o telefone da Confederação Nacional das Associações de Pais. O presidente, Jorge Ascensão, recorda a este propósito que o objectivo não é que os pais se substituam aos professores. “Quando os pais estão em teletrabalho, não conseguem acompanhar o trabalho escolar dos filhos. Alguns estão obrigados a cumprir um horário como se estivessem na empresa e, por outro lado, nem todos os pais estão aptos a acompanhar todas as matérias”, lembra. Num cenário ideal, “os professores têm de estar disponíveis para irem esclarecendo as dúvidas dos alunos, tal como aconteceria se estivessem na sala de aula”.

Paulo Morais garante que é possível. Mas também este professor de Matemática, 45 anos, a trabalhar a partir de casa com dois filhos, um de nove anos e outro de seis, reconhece que o balanço do primeiro dia não foi positivo. “Eram tantas as solicitações que eu próprio me senti emocionalmente desequilibrado.” O truque foi convocar os filhos para a discussão sobre a organização do dia-a-dia. “Transformámos a sala na nossa ‘base de operações’. Cada um ficou com a sua área de trabalho, eu na cabeceira da mesa e um de cada lado. E criámos um placard com post its em que estão definidos os horários e as tarefas de cada um, sendo que eles foram parte colaborativa na definição das tarefas”, descreve. Na planificação desta família, discriminam-se as tarefas de cada um (“Enquanto eu lavo a loiça, um dos miúdos seca-a e o outro arruma-a”), tempo de trabalho, de recreio e até para desporto. “Temos uma bicicleta estática, onde fazemos as aulas de educação física, mas também praticamos ioga ou karaté”, descreve Paulo Morais, para acrescentar que, ao final da tarde, cada um faz um desenho sobre o respectivo dia.

Ainda assim, terça-feira passada chegou ao fim sem conseguirem cumprir o que tinha sido planeado. “Estávamos todos muito mal dispostos. Quando olhámos para trás, percebemos que o tempo dedicado à televisão tinha sido muito, ainda por cima estavam sempre a falar do novo coronavírus, e decidimos que, no dia seguinte, tudo o que fossem ecrãs e redes sociais estariam desligados, a não ser para trabalhar. Até a Playstation foi desligada.”

A ideia, portanto, é ir gerindo a insanidade. Conseguir impedir que a avalanche noticiosa da covid-19, o Disney Júnior e as birras se tornem, de repente, na banda sonora doméstica. E aprender a lidar com ferramentas como a Google Classroom, a Jitsi Meet ou outra ainda mais “xpto” que permitem aos filhos manter-se em contacto com os colegas da turma. “Estamos, pais e professores, a aprender a funcionar nesta nova realidade. O objectivo é irmos tentando conciliar tudo, sabendo que não é fácil para ninguém”, apela Jorge Ascensão. Sofia Ferreira garante que há-de lá chegar. Mas a seu tempo. “Querer impedir que os miúdos não sujem a casa e não se agarrem aos ecrãs, obrigando-os a trabalhar como se nada estivesse a acontecer, é como querer tirá-los da piscina no primeiro dia de férias. Não vale a pena.”

Fonte: Público

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