Início Editorial Telemóvel nas escolas: a esferográfica do século XXI?

Telemóvel nas escolas: a esferográfica do século XXI?

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Ser professor de História tem muitas vezes o problema de que ao olhar o passado vem inspiração para ideias malucas. O passado é às vezes um território estrangeiro, como alguém dizia.

Ideia maluca de hoje: será que a proibição dos telemóveis nas escolas parecerá daqui a uns anos algo como a proibição das esferográficas que vigorou em algumas escolas no passado?

Anúncio de esferográficas (Argentina)
Anúncio de esferográficas quando eram novidade

Rimo-nos do que Friedrich Nietzsche terá dito sobre a possível invenção da caneta de tinta permanente (sem tinteiro): “Se deixarem de existir as pequenas pausas para molhar a caneta no tinteiro, para recarregar a caneta e para secar a tinta, quando então se desenvolverão as ideias?”

Quando o húngaro (emigrado depois na Argentina) Biró inventou a esferográfica, esta foi impopular entre os professores pois alegadamente estragava as caligrafias. Dá vontade de rir…. Pois.

Mas imaginemos que andamos no tempo mais 70 anos: não seremos nós, de hoje, os “ridículos”, com a obsessão de proibir telemóveis e não de educar para o uso social alargado deles (e num tempo em que até já há projetos para integrar a função telemóvel em próteses no corpo humano).

Para verem como será a reação daqui a anos, experimentem mostrar uma foto do vosso primeiro telemóvel aos vossos alunos. Quando o fiz com este Motorola dos 90, que precisava de mala própria, acharam-me um cavernícola….(e quando lhes expliquei que era do serviço onde trabalhava e que eu não tinha um olharam para mim com pena).Motorola2950

No caso da esferográfica, a sua popularidade venceu o hábito de ter tinteiros nas carteiras dos alunos (e não precisei, por exemplo, de ir ao Museu Pedagógico de Lamego para ver isso, mesmo valendo muito a pena, porque a minha escola, em 1980, ainda tinha relíquias dessas com buracos no tampo para o objeto, então já inúteis).

E quem se preocupa hoje com a magna questão das caligrafias estragadas por esferográficas?

O telemóvel que quase não é para telefonar ou enviar mensagens, mas para registar imagens e divulgá-las em redes sociais, está no círculo mais interior da vida dos jovens.

Tanto que alguns deles não entendem as razões profundíssimas para haver segredo de voto, nessa coisa séria que são as eleições, e fotografam o voto para o chapar nas redes sociais.

No dia que passei numa mesa de voto, realmente fez-me espécie o tempo que alguns jovens eleitores demoravam a marcar a cruzinha, para depois saírem da cabine ainda a dobrar o voto….

No Reino Unido dá cadeia e, mesmo que por cá haja algum vazio da lei, não deixa por isso de ser disparatado….e ridículo (mas quem foi jovem e não fez coisas ridículas que atire a primeira pedra).

Essa centralidade do objeto telemóvel (semelhante à que já teve o objeto automóvel) coloca problemas engraçados às escolas que não podem ficar pelo varrer simplista para debaixo do tapete: está proibido, não existe.

A lei portuguesa tem esta solução equilibrada (talvez verborraica) no Artigo 10º do Estatuto do aluno (que também é de Ética escolar por causa de uma muito infeliz iniciativa do governo PSD/PP).

Nessas normas das alíneas r), s) e t) figuram deveres dos alunos e delas resulta que a utilização do telemóvel não está proibida, absoluta e liminarmente, mas sim apenas dependente de autorização. Mas a autorização não é dos pais mas sim da escola e dos professores.

Muitos pais colocam problemas às escolas com desconhecimento da lei: o facto de serem donos do telemóvel não lhes dá o direito legal de questionarem a autoridade dos professores (e das escolas) que, com fundamento indubitável, não autorizam telemóveis nas suas salas de aula ou noutros espaços.

E é precisamente porque, entre outras coisas, proíbe telemóveis e poderia entrar em choque com direitos fundamentais, como a propriedade e a privacidade, que o Estatuto do Aluno é uma lei feita na Assembleia da República pelos deputados e não um mero despacho-normativo de um membro do governo ou um “código de conduta” como alguém alucinadamente propunha num programa eleitoral.

A lei não prevê sanções específicas mas aplica-se o regime disciplinar geral para quando os alunos não cumprem os seus deveres.

E o facto de serem donos do telemóvel não dá aos pais o direito de discutir o que a escola fizer para preservar a regra proibitiva. Poder-se autorizar, em alguns casos, não quer dizer que não haja uma proibição de princípio.

Mas talvez se devesse debater com mais profundidade os assuntos “telemóveis”, “informática” e “redes sociais” e não tentar suster a avalanche com ilusões de que nada se passa e que basta proibir. E mesmo reconhecendo que o aparelho afecta o desempenho escolar mas que também é difícil vencê-lo.

Por razões de trabalho tenho andado a ler alguns regulamentos internos de escolas. Alguns caem na ilusão ilegal de que os telemóveis estão sempre proibidos (não estão, por exemplo, nos recreios) e outros nem falam disso. Mas sendo problema grave devia falar-se mais dele.

Mas já há inúmeros exemplos de boa reflexão sobre usar telemóveis, outros equipamentos e as redes sociais no contexto escolar.

Até em Portugal já há alguma reflexão de qualidade sobre telemóveis em escolas.

E já agora porque não usar as aulas de cidadania para por os alunos a debater isso?

Um bom debate, com abertura, e acho que os professores iam ter a grata surpresa de ver como os alunos seriam bem sensatos nisto.

E afinal a escola não é a própria vida? E não fazem os telemóveis parte da vida que eles vão viver?

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