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Taxis, notícia do dia: e se a uberização fosse na educação?

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Os motoristas não seriam mais educados e o ministro não precisava de apelar a menos chumbos.

Num sistema baseado na satisfação do consumidor não haveria chumbos…..Não seria melhoria, acreditem.

taxiImaginem a conversa lá para 2025, ou antes (duas mães dentro de um robotaxi) :

“- Os meus filhos não vão à escola da cidade. Inscrevi-os na Uberescola (ainda hesitei face à alternativa da Escolafy). Têm aulas na net com um professor virtual. Posso escolher a aparência do professor, a voz, se é homem ou mulher, obeso ou em forma, e os miúdos até o classificam no fim de cada aula. Já despediram uns 3 ou 4 com as suas avaliações e os professores vivem aterrorizados com a perspetiva de terem pontos negativos e irem para a rua. Um deles levou uma “estrela negra” (dá despedimento) por ter exigido que o tratassem pelo nome. Validei a avaliação feita pelos miúdos porque o professor insistia em falar inglês …na aula de inglês. Os miúdos andam interessados neste passatempo e divertem-se (e não chateiam). Como se paga pouco à hora aos profs. é muito mais barato que a escola antiga e ainda sobra dinheiro do contrato de prestação de aulas à hora que o Estado me paga para os educar. Oferecem muito material promocional para tatuar e deram-me uma viagem à Arábia Saudita.

-Parece que os professores da escola da cidade vão fazer uma manifestação contra isso ….

-Não vai dar nada. Desde que os taxistas perderam a luta contra as plataformas de transporte na década passada (Uber e outras) que estas lutas contra a uberização nascem e, no fim, o setor onde elas acontecem fica extinto, dominado pelas plataformas. Os que lá trabalham ou uberizam ou deixam de comer. As plataformas já controlam uns 60% da economia de serviços.”

Se acham que os taxistas são grunhos (e muitos foram hoje) não vejam o mundo só a preto e branco e pensem na fúria que teriam se fosse o vosso emprego a ser destruído pelo suposto progresso (que não está na forma como se transporta mas como se rege o mercado e a relação consumidor/prestador do serviço).

E, às tantas, há de chegar o dia da total desregulação dos professores e da educação. Se os taxistas ainda podem parar o trânsito e armar o banzé de hoje, que poderão fazer os professores?

Por isso, se a Uber é mesmo moderninha e os taxistas são só grunhos, esperem pela Uber escola ou o que seja. E quando as plataformas robotizarem todos os negócios que controlarem, muita gente perceberá, tarde, que o problema não era só uma questão de consumo.

Conduzir na Arábia Saudita(Nota: quem quiser perceber a referência à Arábia Saudita na fantasia acima pode ler aqui o insuspeito Finantial Times e espantar-se como pode uma empresa de prestação de serviços de mobilidade, baseada na condição livre de automóveis, ser detida, em parte significativa, por capital de um país que proíbe as mulheres de conduzir. Talvez por serem boas clientes potenciais….ou por outra explicação menos inocente. Paradoxos da liberdade….)

Mas que têm taxistas a ver com educação? E se a uberização for estudar em casa?

Não cabe aqui realmente dar tanto destaque a notícias de táxis e de problemas de fora do setor da educação, mas talvez o assunto não seja assim tão distante e a fantasia inicial talvez possa chegar um dia. Por muito que alguns estranhem, estou pelo lado da razão dos taxistas (mesmo se acho muito mal que irracionalmente se partam carros e se façam motins).

Mas o 14 de julho de 1789 (embora do século XVIII) também foi um motim e sem ele não poderia estar aqui a escrever ….

Para os que se interessarem pelas razões da minha simpatia pelos interesses dos “grunhos” deixo um texto de um jurista canadiano,de há meses, que me ajudou a pensar o tema numa perspetiva de direitos humanos. Texto em português, registo um do Le monde Diplomatique que outros blogues também destacaram hoje.

Vão ambos contra a corrente próuber, tão popular na comunicação social, porque quem resiste é gente tão pouco simpática como os reacionários e brutos taxistas.

Sem querer fazer o paralelo direto entre taxis e escola, mas estas coisas surgem conforme vou batendo no teclado, vejam, por exemplo, a difusão das ideias de escolarização doméstica.

children-teaching-the-cat-to-read-jan-steen-1663-oil-on-panel-18inc-x-14-held-by-kunstmuseum-basel-switzerland-894x1024O DN dizia hoje que o número de crianças que não vão à escola, porque os pais os ensinam em casa, cresceu 10 vezes. Chamem-me grunho mas tenho dificuldade em achar que isto seja assim um progresso tão significativo. Ou sequer progresso. E claramente é coisa à moda do século XVIII….

Há quem ache, noutro campo, que partos em casa é melhor que partos no hospital. Não me entra tal ideia.

E na minha grunhice, não consigo largar o paralelismo.

Na reportagem especial de ontem na SIC, um miúdo sujeito a escolarização doméstica fala disso e o balanço, de quem sabe por experiência, não parece ser dos melhores. Vejam o olhar triste do pianista no vídeo a meio da peça.

A opção das aulas domésticas continua a não ser consensual (parece que não sou o único grunho). Em entrevista ao DN, a pedopsiquiatra Ana Vasconcelos defende que as crianças “gostam de estar na escola” e é lá que devem estar. “O ser social que é o humano, a partir dos 6 ou 7 anos, gosta de estar com os seus pares a maior parte do dia”, diz.

Coisas horríveis pela Grécia e o ministro anti-chumbo

Pela Grécia houve manifestações de grunhos mesmo grunhos contra a ida para a escola de crianças refugiadas. E foi preciso escoltá-las com a polícia à escola. Coisas que julgaríamos já não ser possíveis.

Para não ficar o sabor amargo, registe-se, por Braga, a Casa do Professor que vai liderar um projeto europeu de formação contínua.

O destaque maior devia ter ido, contudo, para a recomendação antichumbo do ministro da Educação, que fez a primeira página do I de hoje. Diz o jornal, tendo como fonte diretores de escola, que o Ministério da Educação quer travar o ‘chumbo’ dos alunos e facilitar as passagens de anos escolares.

“Para isso está a aplicar medidas e a dar orientações oficiosas às escolas – semelhantes às que foram transmitidas durante o governo de José Sócrates – para que a retenção dos alunos seja o último dos recursos e que seja considerada “excecional”. (…) “Resultado: há escolas onde os alunos transitam de ano escolar com sete notas negativas, como é o caso do agrupamento Poeta Joaquim Serra, no Montijo, já noticiado pelo “Público”.

Por engano de um jornalista, que confundiu duas terras da margem esquerda do Lima,  estive, em 2009, envolvido sem culpa nenhuma num desses casos noticiosos de alunos passados com 9 negativas e não gostei da sensação.

Tenho para mim que muitas ideias sobre os custos e problemas dos “chumbos” são tão consistentes como as dos partos em casa. Deve ser grunhice minha, mas o assunto fica para outro dia.

O Ministro já desmentiu a notícia? Até à hora em que se escreve este texto parece que não.Esperemos então, não faltarão oportunidades de falar disto.

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