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Tão difícil alguém assumir um “erro”.

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errar-humanoEstamos a viver um tempo em que a vontade de nada respeitar, é o mais alto desígnio de todos e de cada um de nós. Desde que nos convenha, em tudo fazer o que nos apetece, a começar na condução automóvel e na forma como colocamos o “eu” umas dez vezes antes do “tu”, é assustadora.

Para além de que vivemos um tempo em que todos achamos, desde a Pessoa mais Importante deste País à menos, que “isto não vai bem”, mas é sempre e só culpa do “outro”. Aqui, o “eu” é tão forte e tão excepcional que em nada tem culpa. Faz sempre tudo bem, tem sempre razão. Daí palavras como “desculpe” já estarem quase a não existir nos dicionários, não se usam!

Os outros, os tu e vocês, é que são culpados das confusões, das trapalhadas. De tudo o que seja incorrecto. Eu, nunca.

E quando todos se apercebem- nos apercebemos – que existem “culpados” e que todos ajudamos a que tal aconteça, por acção ou omissão, muda-se de conversa, destrocam-se os argumentos, ou arranja-se um “alvo” predilecto, por norma o que está a “levar” na ocasião e é culpado- nunca provado, de tudo.

E como nunca é “provado-culpado”, e como aparece sempre mais uma confusão, todos nos instalamos no mais adequado, que é sempre e só “eu não tenho culpa, tu é que tens. Ponto.

Ainda estará para vir o dia em que alguém, no mais pequeno detalhe ou em algo de muita relevância, e conforme o caso de forma privada ou pública, assuma que se sente culpado.

E, como estamos num tempo que tudo de menos conveniente vai acontecendo, a cada dia que passa, e todos por certo temos a “tal” acção ou a tal omissão “nisso”, alguém teria – mas não tem – que ser culpado! Mas nunca, nunca.

É sempre do outro, do anterior, do que ia ali a passar, e essa condição de egoísmo, de passa culpa, de fazer mal mas assumir que está bem feito está de tal forma uniformizada, que se torna assustadora.

Todos sentimos que imensas situações estão erradas, neste nosso País, para já não falarmos na Europa e não só, mas estamos a falar de nós! Mas nunca se imaginaria aparecer ao “vivo e a cores” alguém a assumir, pelo menos uma ínfima parcela de culpa. Nunca! “Eu sou exemplar, “eu” só faço coisas bem feitas, o azar é ter sempre à minha volta os incapazes, os malcriados, os indisciplinados.

Nunca vemos, por exemplo, uma mãe assumir que educa mal o filho, e se já tem a hombridade de assumir que ele – filhote, coitadinho – é um pouco selvagem a culpa é do marido, dos avós, do ambiente da escola, nunca própria.

Não vemos um governante dizer, errei. Não vemos ninguém assumir que como humano, se engane, erre e que por isso “algo” funcionou menos bem, e vai ter que ser alterado o trajecto.

Não vemos numa empresa um responsável máximo numa situação de complicação, dar a mão à palmatória quando errou, nunca são todos intocáveis.

Somos sempre nós, o “eu” o dono e senhor do saber e da razão. E nunca podemos se quer achar, que tivemos culpa. Que não era o caminho, que nos enganámos. E dormimos bem com “isto” de só o outro ser culpado e nós sempre inocentes ou inocentados. Seja!

Augusto Küttner de Magalhães

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