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“Tanto me faz se tiram apontamentos num guardanapo, no caderno, no tablet, no portátil ou no telemóvel” – “A sério professor?”

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apontamentos-telemoveisAcho que foi a primeira vez que os alunos ouviram tal coisa. A reação generalizada e genuína levam-me a essa conclusão.

Este ano dou aulas teóricas, pois leciono um curso profissional de Técnico de Desporto. São alunos de diferentes proveniências: ensino regular; ensino vocacional; PIEF; repetentes; e não repetentes. Vinte e oito jovens, cada um com a sua personalidade, ambições, objetivos e dificuldades.

A conversa sobre a transcrição dos conteúdos surgiu quando uma aluna disse a um colega com disgrafia, “para que é que estás a escrever se depois não percebes nada do que escreveste…”. A frase meio provocatória não deixou de fazer algum sentido e levou-nos a uma conversa sobre a liberdade/autonomia dos alunos e seus deveres.

Nos meus tempos de faculdade, a minha professora de natação disse-me um dia que nunca devia ir para uma aula sem planeá-la, nem que fosse num guardanapo. Ora nem mais cara professora!

Tal com os professores, os alunos devem ser responsáveis e titulares da forma como “preparam” as suas aulas, como tiram os seus apontamentos. Esta ideia dos professores controlarem cadernos, chegando ao ponto de avaliar os ditos, como se fizesse sentido avaliar o estilo/organização de cada um, para mim é algo que não faz qualquer sentido. Devemos sim aconselhar e orientar, mas se um aluno entender a sua “confusão”, quem sou eu para dizer que os seus apontamentos estão incorretos ou que estão confusos?

Esta falta de autonomia, esta falta de liberdade que é retirada aos alunos, mostra a falta de confiança que neles depositamos, criando barreiras propícias à saturação, ao tédio e consequente indisciplina.

A reação dos meus alunos foi muito interessante, ficaram fascinados com a ideia de poderem tirar apontamentos com o portátil ou telemóvel, claro que como qualquer criança que tem um brinquedo novo, houve logo quem se excedesse, ditando as minhas palavras para o telemóvel… Deu para darmos umas belas risadas, tal não era o “papagaio” que tinha ao fundo da sala. E esta foi a dica perfeita para a 2ª parte da conversa.

“A vossa liberdade traz-vos responsabilidades acrescidas”

“É uma questão de confiança, não se pode aceitar um presente e depois desrespeitar quem vos deu. Temos de confiar uns nos outros!” E assim foi e assim tem sido…

Numa outra aula, ao projetar um quadro, um aluno chamou-me ao lugar e fez questão de me mostrar o que tinha feito, tinha tirado uma fotografia ao dito, colocando-a junto aos seus apontamentos, tudo com o seu telemóvel. Vi que precisava de aprovação, tinha receio de ter ido longe de mais. Mas que mal tem??? Está organizado, está agradável à vista e é extremamente prático para estudar. “Muito bem meu caro, muito bem!”

Quando se fala que a escola está estagnada é porque existem dogmas que teimam em persistir. É imperativo incluir no ensino o que atrai os alunos, a escola tradicional não consegue competir com o que se passa fora das salas de aula. Ou aceitamos a evolução como um processo natural ou estamos a condenar a escola a algo enfadonho, triste, cinzento, desligado da realidade.

Permitam-me o conselho. Pensem fora da caixa, saiam da vossa zona de conforto, testem os vossos limites, expandam os vossos horizontes e quem sabe se não ficarão surpreendidos com o retorno dos vossos alunos.

40 Usos de Telemóveis nas Salas de Aula

Professora lusodescendente no Canadá reconhecida por métodos inovadores no ensino a crianças com dificuldades

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