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Submeter

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As horas porejam devagar e o frescor relativo da noite alivia a canícula parada e asfixiante do estio beirão. Mais um par de horas e a aldeia acordará para as tarefas do cultivo que só a frescura da madrugada consente.

Os olhos ardem-lhe e lacrimejam, enleando as letras e os números num bailado difuso à luz artificial do monitor. Na mesa, dúzias de folhas soltas deslizam ao sabor dos pequenos assobios da brisa que entra branda pela janela aberta.

A palavra SUBMETER continua a bailar-lhe diante dos olhos, mas o indicador permanece, nervoso e rígido, a pairar sobre a tecla. Adia um pouco mais o inevitável para rever os passos um a um. A fadiga, porém, atropela a concentração e desnorteia-lhe o pensamento. Dá por si a deitar outras contas à vida. Pensa na sua família: homens e mulheres do campo, numerosos, rudes, encorpados e fortes. Pensa nos pais, trabalhadores invencíveis – agora velhos e doentes. Pensa nos avós, tios e primos, na forma una, quase militar, como se movimentavam em bloco para enfrentar as durezas da vida ou comungar das alegrias e festejos.

Foi a primeira da sua família a concluir «os estudos». Os pais, guardadores de ovelhas desde os primeiros passos, não viram a escola senão por fora, a caminho da missa. Os tios mais novos foram mais ditosos e conseguiram uma breve incursão no mundo das letras, mas nenhum singrou para além da quarta classe.

A mãe levou-a à escola no primeiro dia, resoluta e briosa, depositando-lhe na mão que a segurava uma certeza inabalável da absoluta relevância daquele caminho. Não contavam, no entanto, com aquele devir: à medida que os anos passavam e ela se revelava a aluna excelente que sempre foi, o olhar dos seus pais nunca deixou de espelhar um profundo assombro, como se não discorressem razões para tal dádiva despropositada num lar tão asinino.

O seu futuro encheu-se de possibilidades, mas a escolha estava feita, desde aquele primeiro dia em que a mão da sua mãe, cosida na sua, lhe mostrou o caminho da escola: queria ser professora. Apaixonou-se, entretanto, pela Matemática e o seu brilhante percurso académico colocou perante si outras grandezas. Todavia, acabou por conjugar as duas paixões primeiras num percurso que sabia não ser fácil.

Este que terminou foi o seu décimo quinto ano como professora contratada de Matemática. Já trabalhou em mais de uma vintena de escolas, várias em simultâneo – algumas em cidades diferentes. Já ensinou meninos do quinto ao décimo segundo ano, já viveu em várias regiões do país, a muitos quilómetros da sua casa.

No ano lectivo passado viveu a situação mais angustiante da sua vida de ‘caracoleta’, como diz o pai. No espaço de quarenta e oito horas foi colocada numa escola a seiscentos quilómetros da sua aldeia, viajou para lá com o coração carregado de ansiedade, aceitou o lugar, arranjou alojamento, pagou caução, viu a colocação naquela escola anulada por erro dos serviços centrais, chorou, perdeu o dinheiro, voltou para casa, chorou mais, ficou colocada em mais três escolas diferentes, todas distantes entre si, perdeu a calma, perdeu a fé, fez muita força para manter a dignidade. Já em Outubro, foi colocada num agrupamento de escolas de uma cidade a cento e quarenta quilómetros de casa, para onde se deslocou todos os dias úteis do ano, para cumprir um horário com mais furos que a peneira velha da sua avó, esquecida em desuso no alçado do velho fogão de lenha. Levantou-se todos os dias às cinco da manhã, para iniciar as aulas às oito e quinze. Durante cerca de dez meses, viveu para a sua vida profissional. Leccionou a várias turmas dos sétimo, oitavo e nono anos, em duas escolas diferentes do mesmo agrupamento. Cada turma tinha cerca de trinta alunos. Planificou, coordenou, elaborou instrumentos de avaliação, aplicou-os, corrigiu-os, preparou exames, deu aulas suplementares, corrigiu exames, vigiou exames, avaliou, assistiu a reuniões, redigiu actas, produziu relatórios, dinamizou actividades, participou em projectos.

Nada disto a cansa tanto como ouvir pessoas do seu país a dizer que só vai para professor quem não conseguiu ser mais nada. Que os cursos de professores são o fundilho das carreiras académicas e que, por conseguinte, não vem mal ao mundo que sejam sujeitos a esta terapêutica. E a prova mais óbvia de que estão mesmo a pedir aquilo que lhes acontece é que são tratados desta maneira pelos governantes do seu país e continuam a submeter-se a tais humilhações: se fossem pessoas capazes, já teriam partido para futuros mais risonhos.

Nada a exaure mais do que a impreparação técnica de quem congemina processos tortuosos, caóticos e surrealistas de colocação de professores; a desconfiança maliciosa dos líderes do seu país, que a tratam como uma meliante perniciosa sempre à espera de uma oportunidade de lesar a sociedade com falsas declarações e erros ortográficos. Nada a esvazia mais do que a obscena crueldade de estar, às três da madrugada de uma soberba noite de Verão, a submeter inutilidades degradantes num processo de complexidade insana que lhe permitirá (talvez) voltar a exercer a profissão que (ainda) ama.

MC

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