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Srs. Diretores, ouçam os professores de fora!

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saber_ouvirEntre o corpo docente existe um termo carinhoso para os professores que  “habitam” nas salas de professores e que todos os anos permanecem nos seus lugares. O termo é mobília. Não o considero insultuoso desde que não venha associado a muito pó ou material contraplacado de má qualidade. Tenho a certeza que existe muita mobília de qualidade, que deve e gosta de se manter conservada, mesmo que possam surgir alguns fungos de vez em quando… No meu caso, com 10 anos de casa, já me comparo a uma mesa de cabeceira, mas com design moderno s.f.f.

Esta mobília é muitas vezes o guarda-roupa dos diretores, do qual vão buscar fatos que servem para diferentes ocasiões. O problema é quando os fatos são sempre os mesmos e com o passar do tempo deixam de servir, sendo necessário inovar a indumentária, até para acompanhar o sinal dos tempos.

Para não pensarem que este artigo é uma mera crítica a terceiros, faço desde já a minha mea culpa, assumindo que a minha estagnação geográfica, embora desejada, dificultou uma perceção do que é padrão e consequentemente do que é razoável. Questiono-me frequentemente se as vicissitudes da minha realidade são a exceção ou a prática comum por essas escolas fora, e aqui incluo tudo, desde a comida do bar, à indisciplina dos alunos, os modelos/estratégias de sala de aula, etc…

Esta clausura pode afetar também os diretores dos agrupamentos, amarrados – por opção certamente – a uma cadeira que tem uma vista estática e que recebem os conselhos do seu circulo de confiança.

Mas a realidade está mesmo ali, por baixo dos seus narizes… Os professores que vêm de fora, normalmente QZP e contratados, são conhecedores profundos da realidade educativa de inúmeras escolas. Agora que estamos no final do ano, faz todo o sentido perguntar a esses mesmos professores o que correu bem, o que correu mal e que experiências passadas podiam ser integradas na atual escola. E se estão a pensar na recolha de informação pelos canais tradicionais como por exemplo a avaliação interna, esqueçam lá isso. Estar cara a cara, numa conversa até informal, centrando a discussão no essencial, é bem mais útil que questionários google ou atas de departamento.

O problema é que este capital de conhecimento é sistematicamente desperdiçado (perceção minha), pois quem vem de fora não provou – por mera falta de tempo em muitos casos – ser merecedor de ocupar o lugar de uma “mesinha de cabeceira” ou uma “cómoda colorida” 😉

A título pessoal, lembro-me do dia enquanto membro da assembleia de escola, ter proposto “n” medidas fresquinhas da experiência adquirida em outras escolas, e apesar de devidamente registadas, serviram apenas para ocupar tempo e espaço numa ata. Uns meses mais tarde, com surpresa, ouvi uma das medidas apresentadas por mim ser anunciada com pompa e circunstância por um… “armário”…

As opiniões, as ideias, as propostas, não devem contar mais ou menos consoante o estatuto adquirido do seu proponente. Estas deviam ser ouvidas por igual e aplicadas sem pudor, desde que batam certo com a realidade escolar.

A partilha e solidariedade entre pares é algo que precisa de ser aprofundado, dando oportunidades e reconhecendo o valor a quem o tem, independentemente da sua ligação à escola.

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8 COMENTÁRIOS

  1. Concordando com o escrito quero acrescentar o facto de algumas escolas não terem ” andamento” para que algo se possa melhorar, ou seja, para além de certas limitações, tipicamente portuguesas, têm medo, incapacidade para a melhoria e etc. Aliás, até deveriam ressarcir a comunidade local.

  2. Subscrevo totalmente o que acabo de ler. A escola precisa de ser “refrescada” continuamente, pois chegam anualmente ao ensino milhares de crianças frescas, que logo “murcham” pelo pó e calor acumulados por quem lá está anos e anos a repetir as mesmas ideias/métodos, esgotados pela idade, pelo cansaço e muitas vezes pela desmotivação. As crianças e os jovens merecem mais e melhor. Venham de lá essas ideias, eu por mim já perdi alguma capacidade para inovar, já lá vão 37 anos de serviço!… Ufa! Reformem-me. Força QZP e Contratados dêem o vosso melhor enquanto podem, mesmo que seja um “armário, mesa de cabeceira” ou seja lá quem for a levar avante os vossos refrescos mentais.

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