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Sou fã…

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Sempre que no blogue do Arlindo é publicado um texto da colega Diana Souza, paro tudo. Ficou a olhar para aquele monitor e já sei que vou entrar numa viagem que vai mexer qualquer coisa cá dentro… Certamente que será do vosso agrado.

AS 60 SOMBRAS DA MINHA DOCÊNCIA

Começou o tempo das despedidas.

Organizam-se os dossiês, fazem-se vigilâncias, recriam-se turmas, concluem-se relatórios, avaliam-se atividades, inventariam-se materiais, renovam-se matrículas, reúne-se com pais…

Confesso, há um compasso de tristeza nas paredes vazias de livros de ponto, nos corredores mortiços e estagnados de bafo morno.

2Sob os meus passos dobra-se o entrecortado silêncio e sinto o corpo moído. Do calor ácido que se vive dentro destas paredes, da exaustão que as horas contadas provocam, do interminável compasso de espera.

Os rostos cruzam-se brevemente, mas noto, também nos que me rodeiam, a exaustão do fim. Uma ou outra notícia de jornal fala já no início do ano que vem, nos “novos” programas que entram agora em vigor, nos concursos que arrancam outra vez, porém, a única coisa que desejo é que se calem todos, que me deixem em paz, exaurida que fiquei destes corredores curvos.

Ao contrário do que imaginei, não sinto uma alegria desenfreada por partir deste espaço. Apenas um vazio opulento e extremado.

Ao olhar para esta gigantesca casa, esta máquina trituradora de pessoas, só me ocorre o contraste com uma outra onde estive recentemente numa formação. Escola antiga, remodelada, a tecnologia ao dispor de quem entra, os cursos profissionais realmente vocacionados para o mundo que os espera. O seminário, internacional, era composto por professores que iam percorrendo workshops à sua escolha. Quem os recebia e conduzia? Alunos como os meus, mas sem bonés de pala, sem arrotos, sem o cabo das tormentas exposto ao mundo.

Perguntei à responsável do centro, como tinham conseguido tal feito. Respondeu-me que lançara o desafio em turmas diferentes de várias escolas daquele concelho. Turmas profissionais, vocacionais, de eletrotecnia, hotelaria, turismo. E, assim, condensados numa escola que não era a sua, tinham ficado responsáveis por auxiliar a organização do centro de formação.

Dava gosto vê-los poisar os aperitivos com um sorriso recatado, esclarecer a localização de salas como se se estivesse dentro de um respeitável museu, ajudar os formandos e os formadores quando o computador se revelava mais teimoso e inteligente que os dois juntos, servir o almoço, disfarçando a inexperiência e o decalque fino do suor nas mãos nervosas.

O meu espanto adveio do facto de, subitamente, perceber que tudo aquilo fazia sentido, para nós, para eles. O que não faz sentido nenhum é a escola, os pais, tudo o resto não perceberem isso, assumindo, simplesmente, que a sala de aula tem de estar cheia e nós temos de gramar com aquele peso todo às costas…

Não me inibi de dar os parabéns àqueles jovens e à diretora do Centro de Formação (AlmadaForma), pela eficácia do seu gesto que criou tão inusitadas pontes. Os próprios professores estavam estupefactos com o empenho que um convite tão simples suscitou. Pensei apenas que, numa escola assim, eu podia ser feliz. Bastaria o sonho de alguém, bastariam gestos, bastariam as pessoas para tudo mudar.

Aqui. Aqui o mundo é apenas redondo e de uma bestialidade quadrada.

Abraço rapidamente dois ou três colegas que soçobraram no desânimo de dias pusilânimes. Como na encruzilhada de uma estrada, aqui nos separamos.

Do passado sigo despida de saudades. Vá para onde for, a bagagem pesada fica à beira desta estrada.

Quem sabe, no ano que vem, conseguirei, de facto, ser uma professora a sério…

Diana Souza (2015). “As 60 sombras da minha docência”. http://www.arlindovsky.net/, 9 de julho

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