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Sobre os comportamentos e a disciplina escolar

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IMG_20151015_134612Este é um apontamento que oscila entre artigo de opinião e o trabalho que tenho desenvolvido há já 10 anos a esta parte sobre os comportamentos e a disciplina escolar.

Primeiro ponto, prefiro claramente a designação de disciplina à de indisciplina. Esta última implica a quebra das regras estabelecidas (estejam elas, ou não, assumidas e sejam, ou não, claras aos intervenientes). Pressupõe um momento de rutura nos equilíbrios e funções estabelecidas entre os intervenientes (saibam-se quais são ou não). Decorre de uma situação de tensão, individual ou coletiva, que naquele momento se evidencia. Pelo contrário, o conceito de disciplina escolar remete para uma dimensão tanto de socialização como de subjetivação. Ou seja, remete para o aprender a viver e a conviver no seio de grupos, a saber as regras da vivência do coletivo, a saber gerir momentos e situações de tensão e, nesse contexto, a saber ceder ou a negociar momentos de dúvida. Enquanto processo de subjetivação, remete para a interiorização de processos, para a apreensão individual e particular das regras e das normas de convivencialidade.

Ao contrário de alguns, não separo os dois processos. Pelo contrário, considero, à semelhança de outros, que socialização e subjetivação são o verso e o reverso de uma mesma moeda. Tanto um como outro passam pela escola e pela relação que em contexto escolar se desenvolve. Fazem parte intrínseca da cultura escolar e de todos os seus processos (curricular, pedagógico, lúdico, social, entre outros). Mas não se retringem à escola, distendem-se por todos os contextos coletivos onde se (con)vive.

Neste sentido, olho as situações da alteração dos comportamentos escolares, enquanto indicador de outras situações ou circunstâncias. Encaro a alteração dos comportamentos (a dita indisciplina) como a febre, não é um mal em si, mas sintoma da alteração e do desequilíbrio de órgãos ou sistemas.

A partir desta perspetiva e depois de uma semana do pior enquanto diretor de turma de um grupo que tem casos (alunos) problemáticos, destaco uma ideia que me é cara e que tenho procurado desenvolver. Entre os muitos elementos que estão na base da ideia que a indisciplina tem crescido no sistema passa, pelo que tenho podido compreender, pela crescente dissociação entre processos de socialização e de subjetivação. Os primeiros decorrem dos contextos do aluno (escola, família, amigos, associações). O segundo assenta predominantemente no papel das diferentes disciplinas, na ação que a ciência tem no contexto do coletivo.

Por incrível que possa parecer a alguns, o crescente incentivo e apelo à autonomia do aluno, ao empreendedorismo individual, à guerra não declarada pelos rankings e resultados escolares tem conduzido a uma crescente separação e compartimentação destes processos. Esta separação dá origem a manifestações por vezes não compreendidas pelos intervenientes mediante a crescente tensão no seio das escolas. As estratégias que passam pela constituição de turmas e grupos de nível onde estão os mesmos e iguais, a constituição de ninhos onde estão os que têm a mesma prescrição ou problemas, as tutorias individuais que são, o mais das vezes, diferenciadoras de pessoas e contextos, o reforço da carga disciplinar na esmagadora maior parte das vezes de português e matemática e quando não mesmo o apoio ao estudo que é para todos mas calha apenas alguns, estão na base da crescente tensão que ninguém compreende de onde vem, de reações inesperadas por parte de alunos e encarregados de educação envolvidos (ou não envolvidos).

Por incrível que possa parecer a muitos há soluções que no tempo presente dão mais problemas do que aqueles que pretensamente quereriam enfrentar ou resolver.

Autor do blogue coisas das aulas

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