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Só Quero Ser Professora Daquilo Que Sei!

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De novo este ministério a querer que sejamos aquilo que não somos.
Vou falar-vos de alguns documentos com que nos vão brindando, a nós, Professores curriculares.
1 – Documento Medidas Universais
Acomodações
1.1 –Localização do aluno na sala de aula ( temos lá trinta…) – três propostas mais uma;
1.2 – Apresentação do conteúdo, tarefas, fichas de trabalho – segue-se um sem fim de pistas: visuais; orientações específicas; exemplos; apontamentos impressos (alguns para evitar que os alunos copiem do quadro); sugestões de segmentações; apresentações; diferentes abordagens; escrita no quadro; verificações de compreensão ; tempos extra ; ensino prévio de novo vocabulário; demonstrações; ensino diferenciado ; primazia à oralidade; diferente tamanho de letra; repetição ; nova organização; pausas; assinalar pela positiva; mnemónicas; métodos de estudo ; novas gestões de tempo ; exemplos da vida real ; competências de comunicação; novos trabalhos de casa ; utilização semanal de instrumentos de registo de comportamento. – MAS CADA TURMA TEM 30 ALUNOS! SERÁ QUE NÃO SABEM?!
1.3 – Testes – permitir consulta/ escolhas múltiplas / respostas curtas – e outros facili… que tal …
-Respostas por gravador (de quem? O meu telemóvel? Ao mesmo tempo que os outros estão na sala? Ou noutra aula com o Professor de Ensino Especial?); testes mais curtos ; tempo extra ( meu? De quem? Quem fica mais tempo? O Professor de Ensino Especial? ) ; Testes noutra sala ( com quem? Noutra hora? Com o Professor de Ensino Especial?); Testes noutra hora ( chamam-lhe “flexibilização”, mas na hora de quem? Do Professor de Ensino Especial? ) ; realizar a leitura do teste (e os outros alunos que fazem? Ou é com o Professor de Ensino Especial?); permitir o uso de calculadora (e os outros?)
Outras medidas universais
E surgem mais cinco… e ainda se pedem as operacionalizações de tudo isto! Mas de quem é a responsabilidade para fazer tudo isto? Imaginem só, do Diretor de Turma que é quem assina!
E eu que pensava que o Diretor de Turma era um Professor de uma disciplina do currículo do aluno… Vamos ser sérios!
Os Professores têm uma carga horária de 22 horas lectivas. Numa disciplina como a minha, Inglês, cada turma tem 3 tempos semanais de 50 minutos, logo o Professor terá de ter 7 turmas para ter o horário completo. Sobra 1 hora, normalmente ocupada com apoios próprios da disciplina. Como as turmas têm 28/30 alunos, o Professor terá, pelo menos, 196 alunos. Sim,196 alunos! O Professor tem de ter, pelo menos, 10 horas de trabalho individual que serve para preparar as aulas, os materiais, instrumentos de avaliação e sua correção, etc.,etc. As aulas não nascem do nada! Necessitam de muito trabalho antes, durante e depois. E ainda há as reuniões e reuniões e reuniões. E os documentos e documentos e documentos relacionados com o nosso grupo disciplinar e departamento e as horas não letivas, os projectos, os clubes, os apoios e…e…e…
Se o Professor for Diretor de Turma terá menos 28/30 alunos, ou seja, por volta de 168 alunos. Quanto tempo terá para dedicar a cada aluno? Façam o favor de fazer as contas!
Depois ainda vêm-nos com estes documentos de preenchimento infindável, a fazer de nós – meros Professores – técnicos de Educação Especial. Não, não somos especialistas. Não, não podemos ignorar todos os outros alunos da sala, para nos concentrarmos em tantas especificidades que querem delineemos para um aluno, ao qual nem sabemos diagnosticar esta, ou aquela, faceta diferente, e nos pedem que receitemos e apliquemos as medidas/mezinhas adequadas. E se falharmos a diagnosticar e a aplicar a milagrosa solução? Seremos culpados!
2 – Peguei depois noutro documento com o título ” Diferenciação Pedagógica” dedicado a cada Professor. Um verdadeiro tratado para quem quiser estudar esta questão, na perspetiva do aluno com supostas dificuldades. NÃO SOU EU! EU SÓ QUERO ENSINAR INGLÊS e só posso dedicar 5 minutos por semana, a cada aluno – isso se as minhas aulas fossem feitas de diálogo com cada um dos alunos, em cada aula.
Neste tratado (baseado noutras publicações cuja bibliografia me dispensarão de citar…)temos nem mais, nem menos, do que 41 (quarenta e uma) sugestões de trabalho, sobre os seguintes domínios: Conteúdos(10);Processos de aprendizagem (12);Produções dos alunos (10);Estruturação do trabalho em aula (9) – OS DEUSES DEVEM DE ESTAR LOUCOS! – escolher textos de acordo com…; disponibilizar material, fornecer referenciais; explorar…; simplificar e esclarecer …; encorajar …; proporcionar …; consolidar …; propor …; apresentar as informações em diferentes formatos ou suportes; estabelecer actividades …; manter um determinado ritmo de aprendizagem …; pôr questões …; resolver problemas … e muito, muito, muito mais…CHEGA! BASTA!
Tudo isto não se coaduna com a escola real, com o número de turmas por Professor, com o número de alunos por Professor. Os Professores curriculares NÃO SÃO Professores do Ensino Especial. A grande maioria dos alunos nas salas de aula não podem ser ignorados ou postos de parte. A maior parte dos alunos não merece ser tratada como minoria. Eles são a maioria, não podem simplesmente ser ignorados, devido ao politicamente correcto do momento.
Os Diretores de Turma são Professores curriculares. Não são especialistas, senão das suas disciplinas. Pelo menos eu, não sou! O seu a seu dono!
Às equipas de Ensino Especial compete o diagnóstico, a prescrição, o acompanhamento e a eventual solução dos problemas que estes alunos têm. Não tenho formação, qualificações, disponibilidade física e/ou mental para essas funções. Mais ainda, NÃO QUERO ter! Nem quero correr o risco de errar e falhar naquilo que NÃO SEI, nem quero saber.
SÓ QUERO SER PROFESSORA DAQUILO QUE SEI!

 

3 COMMENTS

  1. Eu também! Concordo com tudo o que foi referido pela colega de Inglês. Como só tenho 2 tempos semanais com cada turma (leciono História ao 3º ciclo) já perdi a conta do número de alunos que tenho. Além disso, sou professora de Ci9dadania, Oficina do Saber, Diretora de Turma e ainda tenho 4 horas para substituição de colegas ausentes ou não colocados. É de dar em maluca.

  2. Bem sei que as nossas condições de trabalho não são as melhores, que temos muitos alunos, burocracia, etc. Mas nós somos professores de todos os alunos, com as diferenças que eles têm, cabe-nos potenciar as suas competências, sem deixar nenhum para trás. Cada um deles tem os mesmos diretos, temos de fomentar a equidade. E não digam que isso é treta, que é o Bla Bla Bla da inclusão. Ninguém é professor só de inglês. Eu, pelo menos, não sou. Não podemos dizer que não temos formação nem queremos ter. Temos de a procurar. E os professores da educação especial têm de nos orientar e apoiar neste processo. Se todos nos unirmos e esforçarmos, conseguimos que todos os alunos aprendam. Aqui não há que beneficiar a maioria dos alunos. Todos têm de aprender e ponto, seja lá de que maneira for. Nós não somos debiloides, quando escolhemos ser professores, escolhemos trabalhar com pessoas e elas podem ter dificuldades, deficiências. A vida é assim. Não é opção pôr o aluno de lado e dizer que não temos formação. Aquele único aluno tem os mesmos direitos que os outros. Tem direito à equidade. Somos seres passíveis de aprendizagem, como todos os alunos.l, por isso há que deitar mãos à obra e unir esforços. Longe vão os tempos em que tirávamos o cursinho e estava feito. Todos somos professores de todos.

    • Concordo com ambas as opiniões. No entanto, para começar, há legislação que reduz o número de alunos por turma sempre que há alunos com dificuldades de aprendizagem, mas raramente é cumprida. Depois, tanto o Ministério, como as Direções das escolas e alguns dos nosso colegas nos pedem para ser super-homens ou supermulheres, coisa que não somos!!!!

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