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Síndrome da personalidade vincada

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criança reizinhoQuando a senhora chegou, estavam já várias pessoas na sala de espera. Disse um “boa tarde” baixo, mas cristalino e olhou em volta, à procura de um lugar vazio num dos sofás robustos e sóbrios, forrados a veludo verde-escuro. Vestia um tailleur beige irrepreensível, que combinava na perfeição com as madeixas de um louro acinzentado que lhe repousavam, imóveis, sobre os ombros. Pela mão, trazia uma coisinha pequenina de caracóis castanhos e enormes olhos pestanudos.

“É só um momento, minha senhora, o Sr. Doutor já vai recebê-la”, informou a recepcionista com cortesia. A senhora assentiu em silêncio, sentou-se na beira de um dos sofás, baixou o olhar e disse: “Sebastião, sente-se aqui.” Pegou ao acaso numa das revistas da mesinha e começou a folheá-la com ar enfastiado e indiferente.

O Sebastião, que aguentara sentado não mais de trinta segundos, levantou-se, abandonou a PSP com descaso na dobra do sofá e – como que possuído por uma força oriunda de poderes do oculto – pintou a manta.

O Sebastião pulou em cima dos sofás (mesmo dos que já estavam ocupados por outras pessoas) ao melhor estilo olímpico, fez equilibrismo nas costas dos cadeirões, saltando de um para outro e daí para cima da mesa e vice-versa, viajou de reposteiro em reposteiro, qual Tarzan perseguido por uma praga de pulgas, abriu e fechou as gavetas da secretária da recepção com a delicadeza de um rinoceronte, atendeu e desligou o telefone as vezes que muito bem lhe apeteceu, gritou como um bezerro desmamado quando entalou o dedo numa gaveta do arquivo (ainda está por apurar se a recepcionista terá sido totalmente alheia a este infeliz acontecimento), cantou a plenos pulmões, mal se esqueceu do incidente digital, cuspiu na senhora antipática que não o deixou mexer nos óculos – e ainda distribuiu, democrática e persistentemente, pontapés por tudo o que mexia e não mexia naquela abençoada sala de espera.

A mãe do Sebastião regressava, de quando em vez, daquele mundinho secreto só dela, para murmurar: “Sebastião, esteja quieto”, “Sebastião, oiça, isso não me parece bem”, “Sebastião, isso não são modos”…

E só entendeu dirigir, magnânima, algumas palavras à plateia catatónica, quando a PSP voou, certeira, das mãozinhas gorduchas do Sebastião, para embater em cheio nas pernas do senhor pálido e ansioso que se sentava, encolhidíssimo, no canto mais recôndito da sala.

“Ai este meu filho… é uma criança muito especial”, suspirou. “É muito temperamental, tem um carácter muito forte, uma personalidade vincadíssima! Émuito obstinado, ninguém consegue convencê-lo a fazer o que não quer!”, declarou, num misto de resignação e orgulho.

E quando, instantes depois, estando o querido Sebastião em “Godzilla mode” a esmigalhar lápis de cera à força de patadas com as delicadas botinhas ortopédicas, a recepcionista chegou com a bendita libertação: “O Sr. Doutor vai recebê-la agora”, a senhora adentrou, elegante e segura, levando a cria pela mão, deixando a plateia estarrecida, de olhar perdido no vazio, numa tentativa desesperada de estabilizar a pressão arterial.

MC

Imagem retirada de: psicoterapiacomportamentalinfantil.blogspot.com

Estendal

4 COMMENTS

  1. E o problema maior é que os progenitores acreditam mesmo no que dizem… Como é possível que tenham bastado duas gerações para se perder a capacidade de educar?

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