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Síndrome da Indisciplina e da Violência Aprendidas

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Da desconsideração e da falta de respeito à violência o caminho não é longo nem demorado. Em Portugal, foi percorrido num ápice. Da política educativa à prática pedagógica, não esquecendo o fulcral nível da gestão escolar, é vastíssimo o grupo daqueles que, generosamente, têm contribuído para a celeridade deste vergonhoso retrocesso civilizacional.

Ao longo da última década, salvo raras exceções (muito pontuais), o poder político, direta e indiretamente, ora por razões economicistas, ora por razões ideológicas (ou ambas), não se limitou a desconsiderar os professores, desrespeitou-os reiteradamente e apontou-lhes, publicamente, o dedo da culpa pelo insucesso escolar. Do amplo leque, destaco algumas evidências: a constante degradação da carreira (congelamentos e conversão de escalões); a crescente precariedade laboral (nos vínculos, nas contratações…); a efetiva redução salarial; as sucessivas alterações das normas de avaliação e dos conteúdos programáticos (frequentemente no decorrer do ano letivo, sem ouvir os professores ou contra a sua opinião); o real aumento do horário semanal de trabalho (quer na escola quer em casa); a progressiva instrumentalização dos professores; a pérfida confusão entre atividades letivas e não letivas; a inibidora carga burocrática; as constantes, circunstanciadas e individualizadas justificações que é preciso fornecer (quer por motivos disciplinares quer na atribuição de níveis negativos); as frequentes e venenosas declarações sobre a necessidade de melhorar a formação dos professores (especialmente corrosivas quando feitas a propósito de resultados dos alunos). É um autêntico arraial de chicotadas que vergam, descredibilizam e desautorizam publicamente os professores, estimulando assim o recrudescer das más vontades, das desconfianças, das desobediências… do desrespeito. E quando tudo se consubstancia na barbárie contra docentes… só o granítico silêncio da tutela responde aos professores e à comunidade.

Duplamente entalados (entre Ministério da Educação e professores; entre professores e encarregados de educação) os diretores escolares (salvo raras e louváveis exceções) encostam-se invariavelmente ao lado mais forte: falam fininho para cima e grosso para baixo; dizem “não”, por defeito, para dentro e “sim”, por feitio, para fora. Comprometidos, superiormente, com determinadas metas e taxas; comprometidos com certos enlatados pedagógicos que subscreveram (por crença e/ou a troco de reforço de meios), estão normalmente dispostos a fazer o necessário para que os resultados numéricos beijem os objetivos subscritos: impõem as suas ideias em todos os órgãos e grupos disciplinares (incluindo as práticas pedagógicas), desvalorizam, ignoram ou vetam o pensamento divergente. Face à crescente falta de empenho e de respeito dos alunos e ao progressivo aumento da pressão dos encarregados de educação, não hesitam (na maior parte dos casos) em fazer ceder os ex-colegas, seja em questões disciplinares, seja no domínio da avaliação. Para a comunidade, passa a ideia (não descabida) de que os professores são os elos mais fracos, que ninguém os defende e que muito boa gente está mesmo disposta a expô-los à desautorização e à humilhação. Aos docentes, este contexto provoca intimidação, medo e… silêncios, que não são completamente injustificados. Na verdade, quando um dedo acusador entra na escola e aponta um professor, o visado, normalmente, fica só. Na verdade, quando um troglodita qualquer invade o espaço escolar para esbofetear e pontapear um professor diante dos seus alunos, o que se segue, muitas vezes, é o desfazer das verdadeiras solidariedades geradas, o estigmatizar das vozes inconformadas que apelam à reação, a apologia do sofrimento abafado, o esconjuro da má fama que a divulgação de tais atos, alegadamente, acarreta… uma discreta participação, um cinzento e mui pachorrento processo disciplinar e… toneladas de silêncio em decomposição.

No fundo da cadeia alimentar está aquele que deveria ser uma sólida referência para os alunos e o braço direito dos encarregados de educação. Isolado, entalado por todos (frequentemente pelos próprios alunos), reage da forma mais inadequada: teme, aceita, cala, age frequentemente contra os seus princípios e ideias, e vai deixando cair, um atrás do outro, quase todos os baluartes do respeito (dentro e fora da sala de aula), muitos baluartes da exigência académica, muitos baluartes da consciência, do orgulho e do amor-próprio. Só isso justifica que o número de participações e de sanções disciplinares não seja verdadeiramente aterrador. Os professores estão em modo de sobrevivência, mas a ruir por dentro, o que é terrivelmente preocupante, esmagador, visto que todos nós ensinamos muito mais o que somos do que o que sabemos.

É neste estranho campo que os alunos medram e aprendem a ser. Sem as devidas e benéficas cumplicidades entre os adultos, sem firmes referências de postura e de autoridade, sem claros e bem definidos limites, sem rigorosa exigência, sem verdadeiras consequências… alimentam a boçalidade, o despropósito, a desconsideração, o desrespeito, o sentimento de impunidade, a falta de ambição… E vão criando os seus próprios códigos de conduta, as suas próprias (i)moralidades, as suas próprias intransigências, as suas autolegitimadas insubordinações… Nesta seara negligenciada (que, dizem, prepara para a vida), é muito natural que o joio vença o trigo, que a indisciplina, a violência e mesmo a criminalidade se normalizem e se vão tornando progressivamente banais.

Esta espiral involutiva só poderá conhecer reversão quando as REFERÊNCIAS se libertarem do medo e decidirem, efetivamente, ocupar o lugar que é seu POR DIREITO E POR DEVER.

 

Luís Costa

8 COMMENTS

  1. Excelente post, Luís Costa! Com a tua licença e a do Alexandre, levo-o para o meu blogue. Bom ler-te de novo, meu amigo!
    Beijo enorme!

  2. Excelente texto!
    É a situação caótica e real que vivemos na escolas portuguesas, por todo o país.
    Resta saber quando veremos a luz ao fundo do túnel ?
    Quando irá parar de crescer o desrespeito e desautorização dos docentes?
    Quem será capaz de reverter esta situação desastrosa?

  3. Os meus agradecimentos, em primeiro lugar, à Maria, ao Duilio, à Anabela e à Ângela, pelas palavras que decidiram dedicar-me. É sempre gratificante receber o vosso sentir. Agradeço também a todos aqueles que dedicaram alguns minutos do seu tempo à leitura do meu desabafo e a quem teve a generosidade de lhe dar asas.

  4. bem vindos ao mundo real!!!!!! trabalho há já 25 anos e desde o primeiro minuto foi assim, no sector privado. e só tinha carreira se o meu “chefe” assim quisesse. e trabalha mais que 40 horas semanais (e não as vossas coitadinhas 35). e sempre levei trabalho para casa. e nunca me pude dar ao luxo de não ser avaliada. e com motivação ou sem ela, nunca escolhi de mostrar cara feia ao meus clientes. talvez se os professores fossem para professores por gostarem de ensinar e vissem as crianças como clientes que só querem (muitas vezes) um sorriso acolhedor, talvez os pais/encarregados de educação estivessem ao vosso lado contra o bicho papão do Estado. aliados seriamos todos mais fortes. quando os professores perceberem que o “bonito” passado não volta e que é preciso reconquistar o respeito e o apoio dos pais/encarregados de educação, talvez o ensino melhore e possamos testemunhar o que já dizia o filósofo Pitágoras “ensina as crianças para não precisares de castigar os adultos”:

    • Quando um pai entra escola dentro, não diz ai nem ui e espeta dois socos num professor, não se trata de conquistar os pais ou não, trata-se de falta de civismo! Lamento a sua situação profissional, que eu saiba o setor privado não é exemplo para ninguém, por isso muitos querem entrar no público. É preciso melhorar as condições profissionais e não nivelar por baixo, nem se sentir mais “confortável” com o mal dos outros.

  5. Está cheia de razão, senhora do nome comprido, e eu dou-lhe a minha!
    Vê-se que a crónica lhe causou fornicoques e que é danada para a brincadeira. Contudo, não me apetece jogar consigo ao Público vs Privado. Vai ter de brincar sozinha!

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