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Será que tem jeito?

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escritaNos últimos dias foram divulgados números reveladores (SAEB/Prova Brasil que avalia os conhecimentos dos alunos do 3º, 5º, 7º e 9º anos e ENEM-2015, que tira um raio-X do desempenho dos alunos postulantes a vagas nas universidades), mostrando o cenário pavoroso em que se encontra a educação brasileira. Os dados da Prova Brasil, aplicada de forma censitária aos alunos matriculados nos anos finais de cada uma das etapas do ensino fundamental (5º e 9º anos) e de forma amostral ao final do ensino médio (fazendo parte do Saeb), nos mostram que os alunos de 5o ano começam a esboçar uma trajetória mais consistente: ao invés de, como vinha sistematicamente ocorrendo de 2005 a 2013, apenas as escolas com melhores notas conseguirem melhorar seus resultados, as piores também “descolaram” do fundo do poço e começaram a melhorar. Mas não nos enganemos, quase todas as escolas vão muito mal e todas as redes públicas de ensino também. A única rede que mostra um avanço expressivo, com quase todas as escolas obtendo já no 5º ano a nota esperada para o 9º, é a rede cearense de Sobral, um modelo nacional de destaque.

As planilhas por escola que trazem os dados do ENEM mostram que a elite da elite dos alunos brasileiros, ou seja, aqueles que permaneceram estudando até o final do da educação básica sabem muito pouco em relação ao que deveriam ter aprendido (apesar de ainda não termos um documento curricular que nos diga o que seria, contamos apenas com os descritores das provas e com uma certa “tradição” de ensino – cada vez mais rala, diga-se de passagem). Uma forma fácil de se perceber isso é analisar as notas das redações. Se os alunos, após a maratona de 13 anos de escola, não conseguem escrever uma redação argumentativa sobre um tema da atualidade, como é que vão conseguir levar até o fim o ensino superior?

computadoresOs dados do censo do ensino superior mostram que quase a metade dos alunos desistiram do curso superior em 2014. A crise econômica e os cortes no FIES (sistema de financiamento estudantil) tanto têm impacto na entrada de novos alunos, que diminuiu no último ano, como na sua permanência no curso, mas muitos alunos desistem também ao perceber que o curso não “se paga”, ou seja, que cursar o ensino superior não necessariamente garantirá um emprego que, pelo menos, amortize o investimento. Alguns desistem também por não acompanhar as exigências acadêmicas que a sua carreira universitária lhes faz. O melhor instrumento individual de desempenho no ensino superior é justamente a capacidade do aluno de produzir uma redação argumentativa.

Assim, o MEC traz dois elementos de política pública para mitigar as mazelas desenhadas pelos dados: a proposta de reforma do ensino médio e o novo manual de redação do ENEM. A reforma ainda precisa ser melhor explicada, compreendida e debatida, e, na nossa opinião, alterada para poder ser votada e principalmente abraçada pelos profissionais brasileiros da educação. Como bem sabe qualquer profissional da educação, o sistema educacional brasileiro produz este estado de coisas (revelados nos resultados dos exames) por motivos ideológicos intrínsecos a um país essencialmente de esquerda, que pretendemos discutir depois.

A outra boa notícia é o manual de redação, ainda mais detalhado que os anteriores. É importante lembrarmos que alunos mais vulneráveis normalmente só conseguem contar com professores igualmente vulneráveis do ponto de vista de sua formação e de sua capacidade de ensinar. Desenvolver a capacidade de fazer boas redações exige ao mesmo tempo um empenho de escrita diária e um professor com disponibilidade de corrigir os erros e de apresentar opções para sua solução. Sabemos que nem um nem outro são hábitos consolidados nas escolas brasileiras, como consequência, redações que alcancem a nota máxima também o são.

Vamos lembrar que passamos alguns anos relativizando a importância da gramática. Ela nem foi incluída na primeira versão da Base Nacional Comum (BNCC), por incrível que possa parecer. Os examinadores das provas do ENEM, assim como os das provas nas universidades e os recrutadores do mercado de trabalho valorizam sim a norma formal ou culta da língua. Negar isso no público e cobrar no privado é uma forma de exacerbar a desigualdade. E bem sabemos, emprestando da neurociência, que quem fala errado, escreve errado e pensa errado!

Quanto mais os alunos brasileiros se apropriarem desse manual de redação e de todos os outros que se podem achar na internet, assim como criar o hábito de escrever sobre um tema atual diariamente, mesmo que sem ninguém para corrigir, mais rápido as notas das redações sobem e com elas a capacidade de argumentar dos brasileiros. Mas, ao mesmo tempo, temos que usar esta mesma capacidade de expor ideias para cobrar das autoridades que garantam a todos os estudantes do Brasil professores que trabalhem e corrijam as redações dos alunos “da mão para a boca”, isto é, semanalmente. Parece-nos que isto não ocorre.

Ah, as invasões, oops, as ocupações escolares!

grupo

Num ambiente diferente deste em que o sistema educacional brasileiro foi embretado e assaltado, Paulo Freire não seria escolhido como patrono da Educação nacional, nem professores assumiriam como expressão de seu status profissional o título de trabalhadores em Educação. Já naufragávamos nessas águas, em 2004, quando substancioso relatório da UNESCO intitulado “Perfil dos professores brasileiros”, constatou que 72% dos nossos trabalhadores em educação assumiam como sua principal função “formar cidadãos conscientes”. Apenas 9% priorizavam “proporcionar conhecimentos básicos” e não mais de 8% sublinhavam a importância de “formar para o trabalho”. Noutro item da mesma pesquisa, 64,5% dos professores tinha consciência, em grau alto e muito alto, de exercer um “papel político”. Infelizmente, não se requer nova investigação para saber que de lá para cá, ao longo dos últimos 12 anos, também nisso a situação só se agravou.

O Edital que em 2014 abriu o processo de inscrição e seleção de livros didáticos a serem utilizados em 2016 (PNLD 2016) determinava que as obras que tratassem das Ciências Humanas e da Natureza deveriam, entre vários outros quesitos, visar à formação de “cidadãos do século 21”, prontos para “lutar pela construção de uma sociedade mais justa, solidária, sem preconceitos e estereótipos”. Lutar tem presença obrigatória em todos os objetivos pedagógicos nacionais. Então, poderíamos andar mais por estas “lutas”, analisando os engajamentos dos sindicatos de professores, a exibição e a ocultação de livros didáticos no mundo acadêmico, os compadrios ideológicos na seleção para cursos de mestrado e doutorado e por aí afora. No entanto, é sobre os estudantes brasileiros que andam por aí, invadindo escolas, que desejo escrever. Eles são os alvos vulneráveis desse sistemático ataque ideológico.

A sociedade brasileira acabou de reproduzir nas urnas o que, intensamente, manifestou antes nas ruas do país. E para onde se voltam os derrotados? A quem buscam para recompor seus efetivos de pessoal e seu mercado ideológico? Insidiosamente, valem-se da crise que geraram e promovem consumo ao seu catálogo de rótulos: neoliberalismo, desmonte, sucateamento, precarização, fascismo, golpe. E, com isso, mobilizam nossos valorosos estudantes, investidos (ou seria travestidos?) no papel de massa de manobra, para invadirem milhares escolas.

Numa lista de 65 países, os colegiais brasileiros na faixa etária dos invasores, isto é, 15 anos, ocupam o 55º lugar no ranking de leitura, 58º no de matemática e 59º no de ciências. Malgrado tão fraco desempenho, apesar de submetidos aos métodos pedagógicos e programas em vigor, bem como a esses professores militantes, nunca foram vistos reclamando contra isso! Em compensação, suporá o leitor, se vão mal em português, matemática e ciências, a cidadania há de estar em muito boa forma. Lamento decepcioná-lo: quando a roubalheira promovida pelos corruptos chegou ao conhecimento de todos, os atuais invasores de escolas e seus tutores, se saíam às ruas, era para uma revolta de marionetes, denunciando um suposto golpe, chamando bandidos de heróis e condenando o juiz. No Brasil, o bandido quer prender o magistrado. Cidadania? Pois sim!

Não mais do que um punhado de alunos participa das invasões. Centenas de milhares ficaram prejudicados com a postergação de suas provas para o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio). É a democracia de tagarelice e a cidadania chapada, em que a minoria faz o que não deve e a maioria não faz o que deve. Afinal, o PCdoB (Partido Comunista do Brasil) obteve, nesta última eleição, votos correspondentes a 1,1% do eleitorado brasileiro (e nunca foi maior do que isso), mas comanda e se regala na UNE (União Nacional do Estudantes) desde que eu era criança. E agora tome assento, leitor: a Defensoria Pública da União acaba de editar uma cartilha intitulada “Garantia de direitos em ocupações de instituições de ensino”, explicitando “os direitos fundamentais que são exercidos e que devem ser respeitados no contexto das atuais mobilizações: a liberdade de expressão, a liberdade de reunião e a liberdade de associação (…) e o princípio constitucional da gestão democrática do ensino público”. Te mete! O ensino está entregue a quem mesmo? A Republica foi entregue às mãos erradas. Basta ver os resultados.

Fontes:

  1. Os dados e as soluções: o desenho está melhorando por Ilona Becskeházyem 10 de outubro de 2016
  2. Esses moços, pobres moços por Percival Puggina.
  3. divulgação dos dados do Saeb/ Prova Brasil
  4. A divulgação dos dados gerais do ENEM e, em particular, dos dados por escola 
  5. A apresentação da Medida Provisória de reforma do ensino médioe
  6. A apresentação do manual de redação do ENEM 2016
  7. A divulgação dos dados do censo de educação superior 2015 pelo MEC

Joseval Estigaribia

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