Início Editorial Será Que A Escola Pública Cumpre O Seu Papel De Elevador Social?

Será Que A Escola Pública Cumpre O Seu Papel De Elevador Social?

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É legitimo todos nós querermos que o Estado, através da Escola Pública, nos dê uma oferta educativa de qualidade!

Isto é verdade para a maioria das pessoas, mesmo para aqueles que se veem obrigados a recorrer ao ensino privado, por considerarem que a oferta pública não corresponde às suas espetativas.

Preferia não recorrer aos estudos da OCDE, mas queria focar-me no que fala sobre a mobilidade social em vários países, incluindo Portugal. Este estudo indica-nos o que, provavelmente, muitos de nós já deve ter reparado, que: a mobilidade social em Portugal é inexistente. Os filhos dos mais carenciados estão destinado a ser para sempre carenciados e os filhos dos mais abastados estão destinado a ser sempre abastados.

Bem sei que corrigir esta desigualdade social não é tarefa fácil, até porque tendo poucos recursos económicos terá sempre menos possibilidade de ajudar os seus filhos a serem bem sucedidos do que uma pessoa com maiores recursos económicos.

É aqui que  Escola deve entrar, deve dar resposta, deve ser o mecanismo ao serviço do estado para que “ricos” e “pobres” tenham iguais oportunidades de utilizar as suas capacidades para construir uma carreira.

Mas também é aqui que acho que a Escola Pública não está a conseguir fazer o seu papel, pois, o mesmo estudo, indica que o fator preponderante para o sucesso profissional em Portugal não é a educação nem as capacidades pessoais, mas sim a herança.

O papel da Escola Pública deve ser, em primeiro lugar, o de proporcionar aos seus alunos a possibilidade de ali, na escola, deixando as diferenças económicas à porta, estarem em igualdade de circunstâncias com os mais abastados. Mas é mais que evidente que isso não acontece.

A Escola teria a obrigação de funcionar como ascensor social, mas não acontece!

E não acontece, porquê?

  • Pelo enorme desinvestimento que se tem feito ao longo dos últimos 30 anos;
  • Por falta de autonomia.

Uma das maiores fatias orçamentais devia ser destinada para a Educação, pois é a base de uma sociedade moderna, todas as transformações sociais nascem nas Escolas, sem essa concretização, tudo o que eu disser a seguir poderá parecer utópico.

A educação é a ferramenta mais poderosa que podemos usar para mudar o mundo.

Quanto à autonomia, que já falei em Que Municipalização?   , queria apenas dar alguns exemplos de como facilitaria na concretização desta Escola Pública de qualidade para todos.

No caso da escola perceber que no contexto daquela escola é preciso adaptar de alguma forma os programas escolares, ajustando-os assim à necessidade dos alunos. O que pode fazer? Pouco, muito pouco, mesmo com a flexibilização, pois no final todos terão os mesmos exames, logo os ajustes serão residuais!

No caso da escola saber que a maior parte dos seus alunos quando sai da escola não tem apoio familiar, ficando sozinhos em casa sem quem os ajude a estudar, para criar um programa de apoio ao estudo, o que pode fazer? Pouco ou nada!

No caso da escola perceber que beneficiaria com a redução de alunos por turma, o que pode fazer? Nada!

Pensemos no caso de uma criança viver numa zona onde a escola funciona mal, devido à falta de autonomia e adaptação ao meio, o que podem fazer esses pais, que alternativa públicas teriam?

Na realidade os pais têm poucas hipóteses, para não dizer nenhumas, de escolher a escola para os seus filhos, será que devem viver onde há “boas” escolas? Não poderemos exigir que qualquer escola pública, com dinheiros públicos, tenha de ser de excelência?

Bem sabemos que, nós, os professores também pouco podemos fazer relativamente à escola. Mesmo que sobrevivamos intactos aos concursos consigamos manter-nos na mesma escola, vivemos submetidos, tal como a direcção da escola, à vontade da 24 de julho.

E é a este ponto que quero chegar, nele entra a diferença entre poder ou não poder optar.

Quem tem mais posses pode escolher a escola porque, não havendo oferta pública, pode enviar os filhos para um colégio privado.

Quem tem menos posses está totalmente submetido ao do ensino público, que pode até cumprir com as espetativas, mas também pode não acontecer, sem possibilidade de prestar qualquer outro apoio aos seus filhos, que sejam explicações, centros de estudos ou assim.

Só vejo uma solução, para tornar a Escola Pública num ascensor social real, num dissipador de diferenças sociais e económicas, é dando-lhes autonomia, quer à escola quer aos professores.

Entregar real autonomia aos professores e às comunidades, para que criem escolas com projetos educativos adaptados à realidade local.

Urge acabar com este modelo de Escola Pública onde as comunidades pouco interessam, onde as realidades locais pouco têm a dizer, onde o poder é central.

Temos de acreditar que o melhor é uma Escola Pública onde o Ministério da Educação  saiba dar autonomia responsável e para regular todo e qualquer pormenor, desfasado muitas vezes da realidade!

O debate sobre a Escola Pública acaba sempre marcado pelas queixas dos e contra os professores, com um objetivo claro de a destruir a imagem da escola e dos próprios professores. Ora, o problema é o próprio modelo, que urge ser substituído.

Caso contrário os abastados continuarão a educar os seus filhos como querem, em escolas privadas, e os menos abastados continuarão sujeitos aos caprichos da 24 de julho e serão precisas várias gerações para a ascensão social!

Além de que esta situação desequilibra, havendo cada vez mais escolas TEIP, o núcleo escolar, criando em muitos casos verdadeiras “escolas refugo”, de onde todos fogem, professores e alunos que podem, e por outro lado nas “escolas de elite” o desequilibro também acontece, colocando quem lá anda numa redoma irreal! Ou seja é “mau” para todos!

Para mim a qualidade da Escola Pública só se conseguirá quando a autonomia chegar, verdadeiramente, quando esta se tornar apetecível por todos por forma a que em qualquer escola coabitem todos, de todas as classes sócio-económicas!

P.S. – Há 25 anos era muito mais assim!

 

Alberto Veronesi

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