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Ser professor em Portugal: estudo de casos

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Face ao ataque despudorado do governo contra os professores decidi contrabalançar o que foi passado para a opinião pública com situações reais.

Hoje em dia a maior parte dos professores sai com a profissionalização feita, em geral como contratados, muitas vezes com horário incompleto e outras vezes concorrendo para longe de casa.

As situações são diferentes nos diversos grupos de recrutamento, isto é inglês, economia, matemática, físico-química, em função das vagas. Vou trazer exemplos do meu grupo, economia, onde tenho duas colegas contratadas com horário completo, uma vivendo a 100 Km e outra a 50 Km, e dois colegas com horários incompletos de 14 horas, um apanhou um horário residual e outro substitui uma colega em situação de doença. Estes últimos têm a residência a cerca de 20 Km. Logo neste caso, verifica-se que há quem concorra a horários completos longe de casa para ingressar nos quadros e quem opte por concorrer para mais perto sacrificando uma parte do rendimento e da reforma. Estes quatro colegas andam na faixa etária dos 40 anos com filhos. Portanto, na faixa dos 40 anos há professores sem emprego fixo impondo de uma maneira ou de outra sacrifícios às suas famílias. Também tenho uma familiar de físico-química com cerca de 40 anos e horário incompleto, também casada e uma filha. De seguida apresento a tabela de vencimentos dos professores, para perceberem quanto ganham estes colegas. Como não estão na carreira ganham pelo índice 151, ou seja, 1373,13€, o que líquido dá 1127,97€ se forem casados só um titular. Concluindo, até entrarem para os quadros os professores, ganham cerca de 1100€ líquidos e podem passar vários anos nesta situação. Os colegas com horário incompleto recebem em proporção das horas de trabalho.

Vencimentos professores com descontos corresponde a Casados 1 titular  
Escalão Índice Vencimento base ordenado líquido
  151 1 373,13 € 1 127,97 €
167 1 518,63 € 1 221,37 €
188 1 709,60 € 1 336,64 €
205 1 864,19 € 1 411,82 €
218 1 982,40 € 1 494,90 €
235 2 137,00 € 1 582,07 €
245 2 227,93 € 1 622,82 €
272 2 473,46 € 1 767,75 €
299 2 718,99 € 1 902,68 €
340 3 091,82 € 2 068,45 €
10º 370 3 364,63 € 2 208,70 €

Entrando na carreira, até ao quarto escalão precisam de 16 anos para progredirem – antes o tempo de serviço como contratados contava para a progressão, mas agora não conta -, além de aulas assistidas em 2 momentos com efeitos na avaliação, avaliação em 3 momentos e formação de cerca de 25 horas por ano, ou seja, mais 3 dias de trabalho anuais não contabilizado no horário. Quem tiver conseguido entrar para os quadros estará na casa dos 50 e poucos anos e atingirá um vencimento bruto de cerca de 2000 €, levando para casa 1500€. No final do quarto escalão têm outro obstáculo na carreira, a progressão para o 5 º escalão está sujeito a vagas a nível nacional, podendo ficar retidos anos, por efeito de este mecanismo.

Um mecanismo idêntico acontecerá na passagem do 6º para o 7º. Portanto nos casos que temos acompanhado, quando estes professores atingirem os sessenta anos, se tudo lhes correr bem, terão atingido o 7º escalão com cerca de 2500€ brutos e cerca de 1750€ líquidos. Reformando-se aos 66 estarão no 8º escalão com 2719€ brutos e levando para casa cerca de 1900€.

Concluindo, ser hoje professor em Portugal exige uma vida de muito sacrifício, como andar com a casa às costas e estar longe da família até se atingir um lugar no quadro numa primeira fase. O tempo desta fase é variável, mas a partir de casos verifiquei que há professores que aos 40 anos andam com a casa às costas ou a fazer viagens desgastantes. Depois de mais cerca de 15 anos (sem contar com o congelamento) enfrentará um número clausus nacional para progredir ao 5º escalão segundo obstáculo não dependente do professor. O mesmo acontecerá no 7º escalão. Assim, se tudo lhe correr bem em vez de se reformar no 8º escalão, descontando os seis anos e meio de congelamento ficar-se-á pelo 7º escalão, portanto penalizando a sua reforma.

Com estas dificuldades começa a haver falta de professores porque esta carreira não é motivadora, mesmo sem o congelamento.

FONTERui Ferreira
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5 COMENTÁRIOS

  1. Caro Rui, Os valores da tabela, mesmo para situações de casados com 1 só titular – situação mais favorável nas tabelas de IRS (o que não acontece para maior parte das situações) – estão inflacionados, não são verdadeiros.

  2. Olá!
    Eu tenho 45 anos, estou no 3º escalão, porque fiz mestrado pré-bolonha, e recebo 1296€ e não os
    1411,82 €.

    • Considerei uma tabela com IRS só com um titular e está incluído o subsídio de refeição. Não procurei a situação de menor IRS. Isto é meramente indicativo.

  3. Penso que se podia fazer outro estudo: os licenciados no ensino em geral e que ainda não conseguiram entrar na carreira docente e que estão com o ordenado mínimo.

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