Home Rubricas Sentidos e sentimentos

Sentidos e sentimentos

340
2

Não represento nada nem ninguém que não seja a minha pessoa, o que penso por aquilo que vejo. Isto para nesta escrita de hoje destacar um qualquer sentido ou sentimentos que perpassam pela escola. Já pensei que fosse apenas pela minha escola. Depois comecei por pensar que se circunscrevia a esta minha região. Falei com colegas, troquei teclas com aqueles que conheço e que estão espalhados um pouco por todo o país. Percebo que aquilo que sinto não sou eu apenas a sentir e não é só pela minha escola, nem sequer por esta minha região.

Sinto que há sentimentos que se afirmam e que marcam contextos, realidades, situações. Não consigo traduzir de forma clara, mas direi que é algo entre o desalento e o desencanto, entrecortado por um certo cansaço que não passa mesmo depois de uma pausa, menos ainda depois de um sempre curto fim de semana. São sentimentos onde dou conta do modo como soçobramos perante a realidade, nos sentimos esmagados pelo quotidiano. É um qualquer estado de espírito que nos consome a paciência, esgota os últimos fios de tolerância, veda sentimentos de empatia e faz com que nos isolemos mais ainda.

Sinto, e há já algum tempo, sentimentos de cansaço, de impaciência, de desalento e de  desencanto que fazem com que consideremos, como último reduto, a sala de aula. Esta surge, nas retóricas de muitos docentes, como o último espaço onde se sente algum privilégio, reconhecimento, alegria, prazer. Mas é também aí, na sala de aula, que acabamos por repercutir estados de espírito, tensões, ansiedade. Angustias.

Será, estou quase certo, fruto das medidas de políticas que têm criado elementos de stresse, cansaço e desalento – a redução de benefícios de carreira, o aumento do número de turmas, o aumento do número de alunos por turma, os casos e situações cada vez mais complexos no seio de cada turma (desde os comportamentos às situações pessoais que decorrem da crise social). Invariavelmente surgem fruto da incapacidade de resolvermos tudo o que se nos depara em contexto letivo e profissional. Cada vez mais assoberbados por solicitações – tantas e tantas parvas como nunca.

Agravou-se também por via das agregação que desbaratam culturas, isolou elementos antes unidos. Situação caricata esta, das agregações que, ao juntar diferentes realidades escolares e educativas, separou culturas, pessoas, isolou outras e tem desencadeados os mais diversos fenómenos de rejeição e oposição.

Queremos estabilidade. Que as políticas educativas estabilizem e proporcionem algum descanso aos professores. Gostaríamos que a paz, o sossego e que a tranquilidade regressasse. Gostaríamos, de igual modo, que se retomasse um tempo que ficou, inexoravelmente, para trás. Contudo, estou certo que os tempos irão continuar algo intranquilos, para ser simpático. Que o que passou não mais regressa.

A solução, a alternativa a este estado de situação só é possível localmente. Desde que localmente se identifiquem e promovam formas de cooperação, que aliviem o trabalho coletivo. Formas e medidas que façam com que possamos partilhar soluções (e não os problemas).

Estou certo que não existirá poção mágica que ultrapasse, resolva, de um dia para o outro a situação em que nos encontramos. Mas terá de ser o local, os mais diretamente interessados em reencontrar novos equilíbrios, novos pontos de consenso. Inclusivamente em romper com situações que hoje causam mal estar e desalento. É ao local que compete isso e não a medidas de política que tardam em se afirmar.

Manuel Dinis P. Cabeça

Coisas das aulas

16 de janeiro, 2017

2 COMMENTS

  1. A escola é o local de aprendizagem. A aprendizagem não é homogénea nos alunos.
    Assim, a escola nunca foi um local de “paz, o sossego” e “tranquilidade”. Nem nas aulas, nem na administração, nem nas reuniões de professores, nem na associação de pais, nem na associação de estudantes.
    As aulas das diversas disciplinas sempre avaliaram, causando separação entre os que sabem e os que não sabem, entre os que têm resultado positivo e os outros, entre os que encontram algo e os que se sentem deslocados. E, em muitas disciplinas, o aluno sente as aulas como um desafio em que se determinará um tipo de futuro (profissional, social, …).
    A única certeza do professor é que tem de ajustar o seu ensino em cada aula. Dia-a-dia, a certeza é o esforço intelectual e psicológico para ensinar e, talvez, cativar para aprender.
    Entretanto, podemos solicitar aos responsáveis políticos para nos facilitar as burocracias: 1º Contratar técnicos para tarefas agora feitas por professores; 2º Dar um software de gestão de alunos eficiente; 3º Promover a partilha entre professores numa base de dados bem recheada; 4º Fornecer a escola de ferramentas legais (como as que qualquer empresa usufruiu – saúde no trabalho, local para trabalhar, especialização, progressão, horário de trabalho,…); 5º Fazer agir os outros sectores governamentais que criam condições de aprendizagem nos alunos (Min. Justiça, Min. Saúde;…).
    Até lá, os professores têm de suportar as mil e uma tarefas, apesar de poderem ter de reconhecer que não são eficazes nem eficientes.

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here