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A senhora idosa que não queria atravessar a estrada.

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Este é um texto sobre condescendência.

Vou começar este texto com uma breve imagem (verídica). A Julieta (nome fictício) tem síndrome de Morquio, uma rara deficiência imunológica de caráter genético caraterizado por nanismo, alterações esqueléticas que lhe dificultam a mobilidade. A Julieta tem de subir e descer muitas vezes escadas com a mochila e leva bastante tempo para fazer o percurso. Tem consciência das suas limitações, mas uma personalidade forte que a faz querer ser muito autónoma.

Existem dois tipos de intervenções e Julieta conhece uma de sobra: Aquela onde as pessoas correm a ajudar Julieta carregando-lhe a mala e dando-lhe a mão enquanto dizem Pois isto é muito difícil para ti, tu não consegues”. E aquela em que em que alguém passa por Julieta, faz-lhe uma festa na cabeça e diz Bora Julieta, força nessas pernas, vamos fazer uma corrida! enquanto pisca o olho e vai conversando descontraidamente à medida que desce as escadas lado a lado. Vamos tentar então adivinhar qual destas intervenções é que faz soltar um sorriso espontâneo a Julieta? Sim, a segunda intervenção.

Sou, naturalmente, apologista de ajudar quem precisa, estar presente quando necessário, respeitar as limitações de cada um e adaptar a minha intervenção ao perfil de funcionalidade. Não sou defensora, em nenhum momento, de consolidar este sentimento limitativo, relembrando sempre as dificuldades porque passam, não deixar fazer o que considero mais difícil porque assumo que não consegue. Penso sempre nesta imagem como o percurso de educação de um filho. A diferença entre o querer proteger de tudo e o estar ao lado a apoiar o caminho e amparar sempre que preciso.

A condescendência é um sentimento terrível faz-me sempre recordar o texto de António Lobo Antunes: “Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.”

A condescendência não permite fazer evoluir, responde apenas a uma necessidade pessoal, um sentimento altruísta. É muito comum, dentro das necessidades educativas especiais, encontrarmos a expressão “Coitadinhos”, “Vamos ajuda-los a fazer”; “Agora que é natal podíamos fazer um teatrinho com todos para mostrar o que sabem fazer”. Todas estas expressões associadas a uma assunção de que temos de fazer praticamente tudo por eles porque não conseguem, crivam o rótulo de inábil colocando-os dentro de uma categoria na sociedade, dos menos capazes, dos inferiores.

O meu percurso foi desde o início com crianças e jovens com Necessidades Educativas Especiais em todos os níveis. Desde os comprometimentos motores e cognitivos severos aos mais ligeiros. Foi claro desde o início que a evolução passava por “caminhar lado a lado” amparando; respeitando as suas diferenças que se traduz em olhar para as potencialidades admitindo as suas fragilidades. Insistir, persistir e bater com a mão na mesa se necessário, mas em nenhum momento cair na espiral do “coitadinho”. O humor é uma ferramenta essencial neste processo evolutivo. Sou assumidamente fã do humor como processo de construção e desconstrução.

E com humor me despeço recordando a história da senhora idosa com dificuldade em falar parada na paragem do autocarro, perto da passadeira. Um escuteiro vê-a e assumindo que a senhora quer atravessar a estrada lança-se numa atitude altruísta, numa assunção só dele e sem tentar perceber o que a senhora tentava dizer leva-a pelo braço sorridente ao longo da passadeira até à outra margem. A senhora, já no lado oposto ao que precisa, pragueja contra o escuteiro pois terá agora de voltar ao sítio inicial e entretanto já perdeu o autocarro que era o último daquele dia.

Metaforicamente é isto que a condescendência faz – perder autocarros.

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