Início Editorial Sejam bem-vindos ao fantástico mundo dos Cursos Profissionais

Sejam bem-vindos ao fantástico mundo dos Cursos Profissionais

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Na semana passada no relatório da OCDE, constou que o ensino Profissional ajudou a melhorar as taxas de conclusão do ensino secundário. Até pode parecer um belo conto de fadas e que o ensino profissional veio resolver o problema do abandono no ensino secundário, porém, faltou colocar uma questão. O ensino profissional é mais fácil que o ensino regular?

Concordo inteiramente com os dados da sondagem realizada pelo ComRegras, onde 55% dos votantes (1397) dizem que sim, que o ensino profissional é mais fácil que o ensino regular. Esta constatação não se baseia apenas numa sensação abstrata, existem factos que o provam, mas já lá vamos.

Coloco desde já de parte as escolas profissionais, o que escrevo baseia-se nas escolas ditas normais e que incluem na sua oferta formativa vários cursos profissionais.

Sou da opinião que os cursos profissionais não estão formatados para as escolas tradicionais. O sistema de módulos não coincide com os momentos de avaliação, a carga letiva não coincide com o calendário escolar e a burocracia é tal que até algumas escolas obrigam a reuniões mensais sem que constem do horário docente.

Compreendo que para as escolas usufruírem dos dinheiros do POCH, este é o modelo que tem de ser aplicado, compreendo também que perder alunos dos cursos profissionais é uma chatice para as finanças escolares… Para os professores, os cursos profissionais significam duas coisas, mais trabalho e alunos complicados.

Um exemplo paradigmático da sua burocracia é o controlo de faltas, milhares de alunos são obrigados a frequentar 90% dos milhares de módulos lecionados, tenham ou não motivos justificados para faltarem. Caso excedam o limite de faltas, os alunos são obrigados a recuperar essas aulas, fora do contexto de turma, ou seja, fora da aula. Para o efeito,  realizam umas atividades que pouco contribuem para a aprendizagem do aluno, já que o professor nem sequer está presente… Mas também temos: planificações por módulos; cronogramas; termos; a obrigatoriedade de colocar os logótipos do POCH da comunidade europeia e outros que tal em todos os documentos criados; o arquivamento de TODOS os materiais num dossier, com cópia inclusive de um dos testes realizados, devidamente corrigido e avaliado, mais a respetiva ficha de autoavaliação. Caprichos e complicações…

Mas há mais, um professor quando falta é obrigado a repor essa aula, fazendo trabalho extraordinário não remunerado, mas o cúmulo é quando chega um professor a substituir um colega e percebe que tem dezenas de aulas em atraso…

Entrar nos cursos profissionais é entrar num mundo novo onde as evidências reinam e a palavra do professor vale zero. Um professor no ensino profissional tem de provar tudo, tem de mostrar tudo e tem de aturar tudo…

E digo aturar pois os alunos não são de primeira água, são alunos que apresentam problemas de comportamento e dificuldades de aprendizagem. Nas escolas diz-se à boca cheia, “são alunos dos cursos”, o preconceito existe mas existem motivos para tal. Todos sabemos que reprovar um aluno do ensino profissional, seja por falta de conhecimentos, comportamento ou assiduidade,  não é assim tão linear.

E para provar que os Cursos Profissionais são mais fáceis, deixo três exemplos:

1.º Nos cursos profissionais existem provas de recuperação quando o aluno não tem sucesso. Isso existe no ensino regular?

2.º Os critérios de avaliação dão um particular destaque às atitudes e valores (chegam aos 40%). Isto prova que existem mais problemas disciplinares e que a escola tenta combatê-los incentivando o bom comportamento. Os alunos que se portam bem, veem as suas notas subirem a patamares não consentâneos com o seu desempenho cognitivo.

3.º Os currículos são muito mais acessíveis do que os currículos do Ensino Regular.

Isto são factos, não são opiniões, os cursos profissionais são importantes, mas precisam de levar uma volta. Podemos pintar o mundo de cor-de-rosa, mas a realidade de quem anda no terreno todos os dias mostra um mundo bem mais cinzento…

O ensino profissional reduz o abandono escolar, sim! Mas convém esclarecer como isso é feito e não atirarem areia para os olhos das pessoas.

Fiquem com os resultados da sondagem.

Alexandre Henriques

 

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20 COMENTÁRIOS

  1. Na nossa escola, um pouco mais de metade dos alunos frequenta cursos profissionais.
    Uma das motivações para tal é a maior facilidade de conclusão do secundário.
    Com a escolaridade obrigatória de 12 anos, deveria haver, como já houve, uma via ainda mais fácil.

    Já agora, não há mais reuniões nessas turmas do que nas outras.

  2. Subscrevo tudo, Alexandre.
    E muito teria a dizer sobre isto mas estou cansada.

    Sublinho a enorme burocracia, totalmente desadequada. E reforço a importância destes cursos nas escolas ditas profissionais.

    Não tem nada a ver.

  3. Sendo o resultado de uma sondagem, posso sugerir que fizesse uma sobre como se mobilizaram ou se têm mobilizado as escolas para debater a proposta de alteração ao 3/2008?
    Cumprimentos.

  4. “Mas há mais, um professor quando falta é obrigado a repor essa aula, fazendo trabalho extraordinário não remunerado, mas o cúmulo é quando chega um professor a substituir um colega e percebe que tem dezenas de aulas em atraso…”

    O que sucede habitualmente nessa situação?

    • Ou a escola atribui horas específicas para a recuperação ou o professor é obrigado a fazer horas extraordinárias. Depende sempre da sensibilidade de quem manda…

  5. Testes, testes e mais testes. Não és tu, adepto de toda uma outra configuração do sistema de ensino? Por que se avaliam todos os módulos por teste?

    Nas escolas profissionais ainda são mais acessíveis.

    Quanto à retirada dos cursos profissionais das escolas públicas regulares (só há 16 públicas exclusivamente profissionais), sabendo que existem 65000 alunos nestes cursos, estamos a falar de menos 3250 turmas (supondo que cada uma têm 20 alunos em média), absorvendo cada turma, no mínimo, 2 professores. Assuma-se o despedimento de 6500 professores (cálculo por baixo). Já agora extingam-se os EFA e as formações modelares (como se reivindicada no tempo da ministra Lurdes e que o Crato cumpriu) e despedem-se mais uns 5000.

    • Sou defensor de uma abertura a metodologias de ensino diferenciadas, que rasguem as secantes aulas expositivas, sou defensor de outras formas de avaliação, que tirem as palas de quem considera os testes a única forma de avaliar. Não sou, nunca fui (e escrevi sobre isso) e nunca serei, um defensor da burocracia, pormenores,”mariquices” e facilitismo dos cursos profissionais.

  6. Teria mais sentido perguntar, será o ensino particular mais fácil? Aqui sim poderia comparar dois sistemas de ensino relativamente próximos e com sistemas de avaliação semelhantes. Há tanta recuperação ao longo do ano numa turma do regular como numa do profissional.
    Não significa que tudo esteja bem no profissional, mas o post mais parece uma caricatura dos processos de ensino num curso profissional. Se um professor falta, repõe as aulas porque sabe que ao contrário do regular tem um número definido de aulas para lecionar. Se o faz durante a semana acrescentando horas ao seu horário e ao dos alunos não o deve. Faz não se pode dizer que tem de fazer horas extraordinárias uma vez que está ao serviço até ao inicio das férias. Isto para não falar das inúmeras situações em que o docente termina as aulas antes do final do ensino regular.
    A avaliação modular não é de agora e não se encerra no ensino profissional. Não é nem mais fácil, nem mais difícil. Se bem que a ache mais flexível nas formas de avaliação, é mais exigente nos timings de aprendizagem.
    Hoje em dia quem faz comparações com “avaliações só baseadas em testes” anda bem longe da realidade. Das escolas que conheço nenhuma delas o faz.
    Argumenta que as escolas não estão preparadas para o ensino profissional. Não concordo. Cada vez mais acho que existe, ainda, um conjunto de colegas que não são adequados para o ensino profissional. Talvez por ainda sonharem com uma escola ordenada á volta de uma sistema de ensino mais dogmático e com currículos standardizados, mas ao mesmo tempo moldados à conveniência de cada um.

    • Totalmente de acordo, @antonio Mendes Silveira. A generalização que é feita em relação aos alunos das turmas dos cursos profissionais quanto ao seu grau de conhecimentos e indisciplina é muito negativa. Muitos optam por esses cursos pela oportunidade de no 12° ano poderem já ter um contacto com o lado prático do curso e a perspectiva de estágio/emprego.

  7. Ainda há outro problema! São contratados técnicos especializados à balda, sem experiência docente, com 40 anos de serviço !!!!???? Sou licenciada em primeiro ciclo, fiz formação na área de restauração, tenho 5 anos de tempo de serviço letivo nesta área e é o cúmulo nas contratações ! Declarações falsas, tempos de serviço completamente exorbitantes……etc
    Somos contratados para dar formação, portanto o limite máximo de horas letivas seriam 35 horas, no entanto, para limitar os horários só nos é permitido 28 como os docentes.
    O tempo de serviço não é válido para efeitos de concurso nacional, vale apenas para as ofertas de escola. Somos obrigados a ir às reuniões de departamento, são nos atribuídos cargos de direçãode turma ou diretores de cursos. Em restauração há durante o ano letivo no mínimo uma atividade por semana e os técnicos trabalham o dobro dos restantes colegas e são obrigados a realizar as atividades.
    Os técnicos especializados são ” paus mandados de todos” na escola . Se se impuserem não têm colocação no ano letivo seguinte.
    É urgente denúnciar estas situações e mudar o ensino profissional!!!!

  8. Faltou ainda dizer que muitas escolas profissionais exercem a sua atividade à custa do trabalho ‘voluntário’ dos professores, pois receber salário a tempo e horas é por vezes uma miragem. Ainda estou à espera dos meus 8 salários em atraso deste ano… quem verifica estas situações? e se fizer queixa… no ano seguinte fico de fora. Mas pensando bem… já que não recebo salário… ando lá a fazer o quê?

  9. Estou a frequentar um curso profissional e tenho alguns comentários a fazer.
    A meu ver, os cursos profissionais são mais facilitados, mas não são só para alunos problemáticos ou só para reduzir o abandono escolar, estou num curso profissional pelo facto de ser mais especializado numa área, tinha capacidades para estar num regular mas preferi começar já a estudar para que quero seguir, visto que os cursos regulares não nos dão a chance para tal. Pretendo prosseguir estudos na Universidade e neste ponto é que quero destacar a dificuldade que é, visto que é necessário fazer os exames de português e a disciplina solicitada pelo curso pretendido na Universidade, ou seja, ter de ter apoio extracurricular porque existem muitas matérias que não sao faladas nos cursos profissionais.
    Nao me arrependo ter entrado para o curso e tenho a dizer que a minha turma não é nada problemática, é claro que parte só quer acabar o 12° ano, mas existe também, tal como eu, alunos que querem prosseguir estudos e até somos uma turma bastante educada e sem queixas referente ao comportamento.
    É fácil tirar um 10, também são dadas várias chances para tal, mas também é preciso estudar para atingir um 20 (mesmo que não chegue nem aos calcanhares do que um aluno de ensino regular tenha que estudar para a nota máxima).

  10. O facilitismo é tal – são factos – que os alunos já sabem quais são os professores que avaliem ” melhor”, ou seja, acontece serem avaliados por professores que, apesar de lecionarem a mesma Disciplina, não foram eles que lecionaram nessa Turma determinado módulo, mas sim, outro professor menos “facilitista”. Há casos de alunos que entregam o Teste em “branco” ou que têm notas muito baixas e se não conseguem concluir os módulos são avaliados por outros professores (conforme já disse) que não lecionaram determinados módulos nas turmas desses alunos.
    Há casos de alunos que numa determinada Disciplina passam o tempo a dormir, a desenhar…, não concluem os módulos mas noutras Disciplinas têm sempre ou quase sempre positivas, e por vezes, altas. Há casos de alunos que dizem ” Eu não percebo nada”, mas têm positivas em Português, Matemática, etc.
    O que interessa é passar… Interessa é o sucesso estatístico e nada mais. Muitas vezes, os professores são “pressionados” quer pela Direção quer por colegas para passar os alunos. Não interessa saber se o aluno sabe, se estudou, etc. Interessa é que passem; o que conta é o sucesso estatístico. Assim se engana a sociedade…
    Claro que existem bons alunos, mas são de facto uma minoria.

  11. Nem falo, porque realmente o que interessa é o sucesso estatístico. Há alunos que dizem ” Eu nada sei, não percebo nada”. Nas pautas praticamente têm as mesmas notas daqueles que realmente estudam.. Há “pressão” sobre os professores menos “facilitistas”… é raríssimo os alunos terem “negativas”. Há professores com 100% de sucesso.
    É uma maravilha! Eu diria um milagre. Nem falo…
    Já agora, quando alguém faz Greve tem que lecionar essas aulas na mesma…, mas no Ensino Regular não. Mas Greve não é sinónimo de Falta, pois não?
    Tenho outras histórias para contar…, mas nem falo. Posso ser descoberto por alguém da minha escola que leia. Aqui não! Teria que ser em privado. Há alunos que são avaliados por colegas que não lecionaram nessa Turma um determinado módulo. Enfim, acho que vou ter problemas. Que venham eles…, mas aqui não adianto mais.

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