Home Rubricas Segundas-feiras…sim ou não?

Segundas-feiras…sim ou não?

436
2

Segunda-feira. Começar a semana com muito amor para dar e uma dose bem cheia de paciência.

Não sei porque elas escolhem sempre as Segundas-feiras para testar a minha sanidade emocional e mental. As marmitas estão prontas a pôr na lancheira, é só fazer um rabo-de-cavalo, levar uma taça de cereais com leite a boca, ao mesmo tempo que se pega nas chaves de casa. A madrugada de Segunda-feira vai de patins, emaranhada na desorganização.

Eu vou a pé para o trabalho, demoro 20 minutos e assim dá-me tempo de preparar-me mentalmente para o que aí vem.

Cheguei. Toquei a campainha, pela janela já consigo ver que o Domingo vai longe.

O pai abriu a porta com um sorriso [pelo menos é bom a disfarçar a aflição]. Entrei na sala, pousei minha mala e descalcei-me. Disse um bom dia bem redondo para furar a bolha de gritos e choro em que ambas estavam. Mas não deu.  É como uma espécie de habitat. A casa que escolhem às segundas-feiras. A mãe não estava muito aflita não. Disse-me:

– Bom dia. Como foi o fim-de-semana? Ainda bem que ainda não és mãe, para estares fresca e pronta para uma Segunda-feira, porque eu não estou. Já está tudo pronto para saírem, marmitas, chapéus e sapatos junto às  escadas.

Dei um risinho e ela desviou o olhar para as suas unhas, enquanto as pintava de rosa bem vivo, e os pés esticados no sofá. O pai, estava entretido no ipad e no telemóvel, e aquele barulho turbulento dentro da bolha, passava ao lado.

Uma não me ligava nenhuma, grudada na Frozen. A outra olhava-me de lado, de braços cruzados mandando-me embora, sem eu chegar perto. Tentei vesti-la mil e uma vez, e ela sempre se despia. Jogava as crocks contra a parede e deitava-se no chão a fazer birra. Suspirei umas quatro vezes, chamei-a à razão. Queria vestir a roupa que ela queria, e não o que a mãe tinha deixado para vestir. Queria calçar meias com sandálias. Queria usar um chapéu por cima do outro porque gostava dos dois padrões. Tentei reformular os seus pedidos. Nada resultou. Nem o último recurso, a chantagem emocional, usada pelo pai fizeram efeito:

-Se te vestires, o pai dá-te um chocolate.

Por fim, desliguei-me delas e desta Segunda-feira, e o meu desprezo começou a colher frutos. Calcei os meus sapatos, disse ‘’Até logo’’, em direção à entrada. Correram atrás de mim, e lá conseguimos por o pé fora de casa e da bolha também (pensei eu).

Foi só o tempo de fechar a porta, que se envolveram nessa bolha de novo, gritando, chorando, batendo contra as paredes. Perguntei o que se passava calmamente, mas não conseguia entender no meio do choro. Ignorei. Fui em frente. Depois, lá seguiram o meu passo, como cordeirinhos atrás do pastor.

A mais nova perguntou:

-Sandra, o que estás a fazer?

Continuei andando calmamente, mas respondi:

– Caminhando. (quando queria ter respondido: clonando a paciência, para que esta nunca se acabe)

A meio do caminho, começaram a brigar de novo, porque uma queria abraçar a outra e ela não queria. Jogam-se no chão. Dão pontapés. Parei. Segurei as duas pelas mãos. Desci ao nível delas e já falei em tom serio:

– Acabou. Vou contar até três. Sofia tu és a mais velha, tens que te portar como tal. E tu Alice, não irrites tua irmã. Agora vamos, porque senão o sol vai embora mais depressa do que pensam e já não podem brincar.

Arrastaram o passo com ar enfadonho, de braços cruzados. Chegámos ao parque, estiquei a toalha e espalhei meia dúzia de brinquedos. Com tanta oferta, tinham as duas a mesma procura. Lá começam de novo a lembrar-me que é Segunda-feira. Depois vem o disco riscado:

– Quero a minha mãe, quero a minha mãe!

Os nervos começam a tomar conta de mim. E ainda há quem ache que é um trabalho fácil. Não às Segundas-feiras.

A próxima briga foi por causa do almoço, na escolha dos pratos de plástico. Só tinha um prato azul e um prato amarelo. Alice entendeu que queria rosa. Onde eu ia inventar um prato rosa agora? Mas não. Não se tem que inventar. Temos também que nos impor e não deixar que imponham a sua vontade de forma frustrada e mimada. Apoio a liberdade de escolha, mas desde que não venha acompanhada de birra e berros. Educar não é dizer que sim a tudo. Mas sim dizer que não quando é preciso e justificar o não.

De volta a casa, enquanto mexe no telemóvel, a mãe diz-me:

– Odeio Segundas-feiras. Fazem-me sentir culpada.

– Porquê? – perguntei.

– Porque encho-as de presentes e doces, quando a minha capacidade de dizer não está no limite. Acho que serei sempre assim, por sentir-me culpada de trabalhar e não lhes dar atenção suficiente. Prefiro fazer tudo o que elas querem, a ouvi-las chorar.

Fiquei em silêncio. A verdade é que não lhes falta nada, quando lhes falta tudo. Às vezes é preciso dar menos e estar mais, para serem mais e terem menos.

Não se pode culpabilizar por trabalhar. Costumo dizer que o problema não é a frequência com que a presença física dos pais acontece, mas sim o aproveitamento do tempo em que se tem essa presença física.

Dei-lhes o jantar às 5 horas da tarde. Banho às 5 e meia. Pijama posto, cabelo penteado, prontinhas para a cama. Ainda há tempo para uma série da Mia e um copo de leite. Os pais deixam seus telemóveis e abrem uma garrafa de vinho. Sentam-se no sofá com um prato de queijos e o seu copo de vinho. Suspiram e dizem:

– Só meia hora porque já está na hora de ir para a cama. Que dia!

– Obrigada Sandra. Até amanhã.

Eu bem que bebia um copo de vinho também, todas as Segundas-feiras!!!

2 COMMENTS

  1. Lindo Sandra! Ficaria lendo mil contos, se tivesse. Uma escrita rápida, sem rodeios ao mesmo tempo que situa o leitor no ambiente. E o humor discreto na medida certa!

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here