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Segunda-feira

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sombraOs olhos abriram-se de repente, como uma mola pontual. Percorreram o espaço mergulhado na penumbra com familiaridade, fixando-se por instantes no recorte azulado da janela, por onde entrava, oblíqua, a luz do candeeiro da rua. Os dígitos luminosos do relógio marcavam as seis e quarenta e cinco. Encolheu-se com um gemido desanimado, arrastando os cobertores até ao nariz. Ao seu lado, um vulto difuso respirava pesadamente e emanava um calorzinho aconchegante e irresistível.

“Mãe”, sussurrou e insistiu, abanando-a com suavidade, “mãe, já está na hora de levantar”. Um gemido descontente e ininteligível impeliu-a a continuar, agora com alguma impaciência. “Estás a ouvir, mãe? Está na hora de ir para a escola! Tens de levar-me à escola, mãe, acorda lá!”

Um grunhido zangado acompanhou uma reviravolta impetuosa do corpo ao seu lado. Algures naquele movimento de rotação, o rosto da mãe soergueu-se ligeiramente e ralhou murmúrios incompreensíveis, voltando a afundar-se pesadamente na almofada. “Chegaste muito tarde, não foi?”, questionou abespinhada. “Nem te ouvi chegar, deviam ser umas lindas horas”, continuou, como se fora ela a mãe, a admoestar a filha prevaricadora, de novo mergulhada no peso letárgico do sono.

Contrariou o ímpeto de se enroscar e voltar a dormir, afastou os cobertores e, num impulso de grandiosa bravura, saltitou, descalça e arrepiada, a caminho da casa de banho. Olhou para a banheira mas recuou como um autómato, logo que se lembrou que ainda não havia gás. A água gelada da torneira golpeou-lhe as faces e arrepanhou-lhe a pele. Com as mãos arroxeadas do frio, tacteou a cadeira velha de palhinha, procurando na montanha desengonçada de roupas a camisola azul escura de que tanto gostava. Vestiu-se rapidamente na penumbra e pegou na mochila da escola. O seu olhar vagueou pela cozinha minúscula, à procura de mantimentos. Do pacote de leite aberto no frigorífico volteava um cheiro acre e nauseante que a agoniou. Uma caixa plástica com massa cozida fazia companhia ao leite na imensidão gelada e vazia das prateleiras. Encolheu os ombros, resignada, e abandonou a demanda.

Voltou ao quarto para resgatar da mesa-de-cabeceira um pacote de bolachas quase vazio e seguiu, apressada. Estacou à porta e hesitou, rodando sobre si própria. Abeirou-se da cama, onde a mãe dormia, o cabelo escuro derramado na almofada, o rosto branco de panda, a maquilhagem escura esborratada à volta dos olhos. Debruçou-se sobre ela com cuidado e puxou meigamente os cobertores, aconchegando-a com desvelo. Depois saiu rapidamente de casa e o vento gélido da madrugada vergastou-lhe a cara e as mãos e impôs-lhe passo de corrida, rua fora, até à outra ponta do bairro.

MC

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