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Santana Castilho pede a Tiago Rodrigues para ter vergonha

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E eu subscrevo! Quanto ao resto do texto, enfio a carapuça na parte que me toca, mas convém não esquecer que também foram tomadas medidas bastante positivas.


Tenha vergonha!

“A lucidez é um sorriso triste”
Mário Pinto de Andrade

Toca-me a pouca sorte de ter que estar atento ao breviário de cordel que Tiago Brandão Rodrigues vai escrevendo. Na Gulbenkian, durante uma conferência internacional, referiu-se ao plano que teve o computador Magalhães por estrela, classificando como errada a decisão que lhe pôs fim e criou, assim o disse, “um défice oculto nas competências de muitos dos nossos alunos”. Longe do país na altura dos factos e arredado dos problemas da Educação como sempre esteve e continua, o ministro debitou vacuidades sobre o que desconhece.

Assim o deixaria, talhando a sua simplória “escola-alfaiate”, não fora a mentira que propalou à margem da conferência, quando teve o topete de garantir que a carreira dos docentes não será prejudicada em relação aos demais funcionários públicos. Como se permitiu afirmar que no Orçamento do Estado para 2018, o mesmo que reserva 211 milhões de euros para o descongelamento das carreiras dos funcionários públicos e mais de mil milhões para continuarmos a pagar as falências do BES, Banif e BPN, “não há nenhuma excepcionalidade em relação aos professores”? Como se permitiu fazer tal afirmação, sabendo que aos professores foram roubados cerca de dez anos de trabalho? Quem assim demanda sem pudor a “lã” alheia tem que ser tosquiado na praça pública com o vocativo que a indignação não consegue calar: tenha vergonha!

Para onde quer que nos viremos desde 2005, resta sempre a menorização dos professores e a visão instrumental da Educação. Pouco, demasiado pouco, para desenvolver o país e humanizar o Estado. Mas enquanto nos ministérios de Lurdes e Crato sempre fui acompanhado nas críticas por muitos analistas e por manifestações relevantes dos professores, tudo mudou, a partir de 26 de Novembro de 2015, data em que a esquerda assumiu o poder.

Sobre Educação, as primeiras 55 propostas de intervenção, a que António Costa chamou “o primeiro capítulo do programa de Governo”, eram um repositório de banalidades. Analisei-as nesta coluna em 6 de Maio de 2015. O programa eleitoral limitou-se a recuperar tristes conceitos de Maria de Lurdes Rodrigues e a expressar pouca consideração pelos professores portugueses. Critiquei-o em artigos de 12 de Agosto e de 9 de Setembro desse ano. E se dúvidas tivesse quanto à desvalorização da complexidade dos problemas do sistema de ensino por parte de António Costa, dissiparam-se por completo quando nomeou para a pasta um jovem de 38 anos, que viveu no estrangeiro desde os 23, sem nunca ter escrito uma linha ou expressado publicamente uma ideia sobre Educação. Ora, apesar de ter evidenciado o seu ímpeto revanchista e a sua impreparação bem cedo, a verdade é que professores e sindicatos assistiram aos seus erros e à sua errância com uma complacência surpreendente, enquanto eu, quase isoladamente, os fui denunciando de modo sistemático e fundamentado. Parecem, finalmente, acordados. Bem-vindos à realidade!

Quando se escreve sobre o que aconteceu, depois de amadurecida reflexão, acaba-se acrescentando algo ao analisado. É isto a crítica. Mas se até em ciência as verdades são sempre provisórias, que dizer das “verdades” que a análise crítica propõe? Todavia, quando o tempo confirma que tínhamos razão ao interpretar o que ia acontecendo, temos legitimidade para sorrir. Ainda que seja triste o sorriso com que lemos a balança da razão.

E agora, depois da greve, o que vai acontecer? Continuaremos tolhidos pelas mentiras e pelo medo? Como mudar isto se a maioria se move na defesa dos seus interesses, sem perceber que os defenderiam melhor se defendessem os interesses de todos os professores, sejam eles do privado ou do público, novos e velhos, do básico ou do secundário, dos quadros ou contratados? O que me é caro nesta utopia de união é a certeza de que dela depende a defesa duradoura dos interesses dos alunos.

3 COMMENTS

  1. Muito bom. Perspicaz, quando observa que o programa do governo não fazia mais do que retomar o programa de Lurdes Rodrigues, com muitas da mesmas personagens, e táticas: menorização do papel dos professores; passar a ideia que a escola e os ”zecos” são anacrónicos, incompetentes e avessos à mudança; a escola é do século passado; os professores têm uma necessidade premente de formação; os resultados académicos são fracos; as metodologias obsoletas… O relatório das provas de aferição foi a carta de alforria para justificar todos os dislates que se possam seguir para justificar as mudanças imprescindíveis e necessárias… Grave é muitos bateram e batem palmas!
    P.S. O elogio ao programa ”Magalhães” , para mim, diz muito de como serão os próximos episódios desta novela educativa… Parece-me que , depois do que se sabe sobre algumas ”parcerias” desses tempos ditosos, da famosa festa da Parque Escolar, não podemos garantir bons augúrios…

  2. “Onde podem chegar as superstições convenientemente financiadas?”. Esta pergunta é feita pelo ensaísta espanhol Antonio Altarriba num artigo intitulado Corrupción intelectual, publicado há pouco dias no jornal online El Correo.

    A pergunta tem tudo a ver com as mudanças no currículo escolar: afastam-se disciplinas consagradas e, nas que restam, afastam-se saberes consagrados; em contrapartida, introduzem-se “disciplinas” ou componentes avulsas que doutrinam em vez de ensinarem, que deseducam em vez de educarem.

    Diz ele, a linhas tantas:
    Existe outra corrupção menos conhecida, mas igualmente devastadora, que especula com o (…) conhecimento (…) fomentada por certos ‘lobbies’ empresariais.
    Soube-se, há uns anos, que a indústria petrolífera pagou a cientistas para relativizarem os efeitos das mudanças climáticas. A indústria do açúcar fez outro tanto (…). Não cessam as denúncias das pressões das farmacêuticas (…). Torna-se evidente a fragilidade das certezas científicas e como numa sociedade aparentemente avançada, a verdade (ou a opinião mais generalizada, o que vem a ser o mesmo) se compra e, pior, se vende.
    Assim acabamos por acreditar não em quem tem um discurso mais coerente, mas em quem fala mais alto. Vemos como o criacionismo, uma teoria totalmente acientífica, ganha adeptos até alcançar os 46% nos Estados Unidos.
    O próprio edifício que é o conhecimento apresenta deficiências denunciadas pela comunidade científica. No presente 80% das publicações estão controladas por uma oligarquia de meia dúzia de editoras (…) que cobram aos investigadores para publicarem os seus trabalhos. Um artigo numa revista de primeiro quartil (categoria máxima) custa entre 4.000 e 6.000 dólares. E apesar das garantias que oferecem os seus comités de redacção e equipas avaliadoras, uma recente auditoria detectou plágio e problemas nas conclusões em 20% das publicações (…).
    A concentração de esforços em revistas indexadas ou em campos de investigação preferenciais demonstra maior interesse pelos benefícios curriculares do que pelas vantagens científicas. Se a eles juntarmos o endurecimento dos critérios e a complicação dos protocolos para obter uma avaliação positiva, desembocamos na desistência dos investigadores que são cada vez mais frequentes.
    Esta situação alimenta-se de um caldo de cultura, no qual (…) se identifica conhecimento com capacidade de integração na estrutura produtiva. As universidades têm sido obrigadas a guiar-se por índices de empregabilidade e os estudantes incentivados a seguir cursos que têm saídas no mercado de trabalho.
    Já não se ensinam saberes, mas sim competências laborais. A debilitação e o desprestigio das artes e das humanidades responde a estes indícios de ‘inutilidade’ que pesam sobre elas. Esquecemo-nos da Filosofia, exemplo de saber desinteressado, não só como fonte de conhecimento mas também como base de princípios que devem guiar os outros conhecimentos.
    Chegámos a um ponto em que se torna ingénuo sustentar que o saber deve estar ao serviço das pessoas, e não em favor de benefícios empresariais. O plágio, os desvios da investigação, as oligarquias editoriais, a rigidez da avaliação sustentam um ensino que opta (…) pelo “corta e cola”. São muitos os estudantes que entendem a aprendizagem como selecção de respostas extraídas de um imenso banco de dados, sem que nisso intervenha um processamento pessoal.
    Nestas circunstâncias, a destituição intelectual vê-se cada vez mais próxima. Prosperam as tecnologias rentáveis, mas tornamo-nos incapazes de analisar para entender o que somos e o que fazemos. Sem liberdade e, pior ainda, sem critério para a recuperar.
    Retirado do blogue ” De Rerum Natura”.

  3. …a resposta é fácil: esse ministro nunca trabalhou na vida… como professor! não sabe o que é trabalhar na dor, na solidão, na doença, no medo, na angústia, sem o amor daqueles que ama e o que custa mais… trabalhar no luto e ainda fazer os inocentes felizes!

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