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Professores Contratados – Saltimbancos Dos Tempos Modernos

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Agora que chegamos ao final de mais um ano letivo, este texto do colega Carlos Santos valoriza e reflete o trabalho e sacrifícios de um grande número de professores que nos acompanham ao longo do ano e que são tantas vezes esquecidos, os professores contratados…

«Hoje na rua escutei de um estranho o aforismo de que “Há coisas que não há no mundo dinheiro que pague”. Foi como se tornasse audíveis os pensamentos que nos últimos dias me têm perseguido e me empurraram para este confessionário de palavras atiradas para o lugar de ninguém onde quase toda a gente mora.

Lamentavelmente hoje, no meu pensamento, não há espaço para todos os professores e o imenso trabalho e dedicação que investem no ensino. Na minha cabeça está alojada uma enorme falange de professores que não são devidamente valorizados e que desempenham um papel essencial para o ensino e para o país – os professores contratados.

Mais tempo na estrada trouxe-me muitos dissabores, mas também revelou a minha miopia. Durante todo este ano colegas contratados partilharam boleias comigo e, embora sem suspeitarem, partilharam muito mais.

Enquanto o cavalo de ferro ofegante desembestava pelo alcatrão, uma vez mais, falava-se sobre a incerteza do dia seguinte, da eventualidade do regresso ao serviço do colega que substituem empurrando-os de volta para o abismo.
“Leva-se um dia de cada vez e depois… logo se vê”, foi a frase mais repetida para camuflar a ansiedade, com a mesma eficácia com que se tenta esconder um elefante atrás de um poste. Diz-se isso como se uma loucura repetida várias vezes pudesse passar a ser aceite como uma sanidade aceitável.

Mas, na ausência de melhor solução, esta era a melhor maneira encontrada para encarar tanta insegurança sobre aquilo que poderá chegar depois de cada amanhecer. Vivia-se um dia de cada vez para tornar a vida suportável. E, não obstante o elefante no meio da sala, inesperadamente ainda fomos tendo a capacidade de nos rirmos das nossas próprias desgraças.
Depois, ignorando o rugido do corcel enfurecido, no seu interior urdia-se um silêncio sepulcral de inquietude do qual me quis libertar tentando compreender, em vão, a razão daquela dor encoberta.

Pensei… não bastando o azedume de tantos pedantes que conjuram sobre a preguiça e o aranzel de privilégios dos professores, por vezes aos colegas contratados ainda é exigido que engulam em seco quando fustigados pelas palavras nocivas que saem da boca de alguns dos seus pares perguntando-lhes se são professores ou contratados. Na realidade, são personagens constantemente compelidas para fora da história da qual fazem parte, tratados à margem como meros figurantes ou personagens secundárias.

Absortos na preocupação de saber se um dia teremos direito a uma reforma condigna, não reparámos que no seu mundo povoado por pequenas esperanças, eles já não acalentam ilusões sobre a eventualidade de um dia a virem a receber. Resignados, acreditam que lhes darão simbolicamente uma miséria ao fim de tantos anos inacabados e horários incompletos em que trabalharam só para somar tempo de serviço, acabando frequentemente por ter de pagar para poder trabalhar. Nada mais representam para o Estado do que um chorudo negócio.

Longe vai o dia em que, ao receberem o primeiro salário, se sentiram orgulhosos e reconhecidos pelo seu trabalho. Depressa o sabor amargo da exploração a que estavam sujeitos os tomou de assalto.
Povoando quartos e enchendo as estradas deste país, vêm e vão das escolas e depressa são esquecidos. Rotulados de inexperientes, sem eira nem beira do Minho, pelas Beiras ao Alentejo, passando pelo sul e ilhas, acumulam mais experiências do que qualquer um de nós, mas são incompreendidos e desconsiderados.

Perante a nossa agitação pelo cansaço do trabalho do final de um ano que almejávamos ver chegar ao fim, o que dizer sobre a angústia que estão a viver os professores contratados que pressentem não ver chegar o final do ano devido à “devolução” às escolas dos professores que estavam de baixa?
Onde nós vemos o melhor momento do ano com a aproximação do merecido descanso, eles veem cair sobre as suas cabeças a ameaça do regresso do pesadelo sob a forma de perda de tempo de serviço dispensando-os para o subsídio de desemprego. Um esquema maquiavélico montado pela tutela que, sem qualquer preocupação com a qualidade do ensino, para ir poupando dinheiro expulsa para fora do sistema colegas que deram tudo de si pelo país ao longo do ano.

Sem aviso prévio, certo dia, esses colegas simplesmente desaparecem, comprovando o papel descartável de quem é reduzido a um mero utensílio.

E eu que, na minha supina ignorância, permiti-me julgar que vos conhecia e sabia da vossa vida, na verdade, da vossa vida não sabia nada, nem coisa nenhuma.

Contratados há dez, vinte ou mais anos, numa vida de espera por algo que poderá nunca chegar, vão vivendo e sobrevivendo com as imensas regalias que noticia essa aberração voraz denominada «comunicação social» alimentada pela inveja de uma imensa massa acrítica cobardemente escudada atrás do anonimato da palavra «povo». Colegas que perdem tempo e dinheiro, a oportunidade de acompanhar de perto o crescimento dos seus filhos e qualidade de vida, mereciam mais respeito.

A sociedade é ingrata para com o trabalho dos professores, mas injusta e desumana para os que, de entre nós, continuam a ser contratados e atirados para o esquecimento.

Casados com a estrada, com a distância e o sentimento de separação, os professores contratados aceitam esta singular forma de vida por amor ao ofício de ensinar. Há muito que malas e alcatrão já fazem parte da bagagem pedagógica que os desliga dos seus lares, para irem vivendo como trapezistas na corda bamba.

Mas, em todo o caso, não era só isso que adensava o ar na boca sufocante da besta metálica onde nos encarceráramos com o propósito de finalmente sermos devolvidos a casa. Havia mais qualquer coisa que me escapava. Não me perguntem o quê, que até àquele momento eu ainda não tinha tido o discernimento para perceber.

As repostas estavam algures penduradas atrás de nuvens que povoavam um desabitado céu cor de chumbo onde moravam sonhos inalcançáveis para os meus olhos.

Durante mais uma de infinitas viagens sem fim à vista assolada pelo cansaço que nos agredia, observei o semblante meditabundo da colega que me devolveu um sorriso compungido usado como uma máscara para encobrir um profundo desassossego que lhe esvaziava a alma.

No meio de silêncios que devoravam quilómetros, arremessou o olhar para lá da janela onde a paisagem de nuvens escurecidas passava por ela e, então, olhando-a de soslaio consegui ver claramente o que nunca antes conseguira ver. Vi no canto dos seus olhos um brilho de tanto que ela tinha para dizer. Durante um instante que se tornou numa eternidade, escutei a sua voz calada dizer tudo sem proferir uma única palavra. Li naquele rosto tudo o que nesse inesquecível momento havia para sentir, para compreender.

E em silêncio, olhando pela vidraça da janela, ela disse-o com o olhar atirado para o mundo dos pensamentos e eu, pela primeira vez, consegui escutar:
–Todos os anos fui obrigada a abandonar amigos que criei e estimei e que nunca irei esquecer.

Beijei e abracei gente por esse país fora; gente por quem me afeiçoei e que não mais voltei a ver criando mais desertos no meu peito.

Na lembrança trago um enorme lençol de histórias de gente que toquei e se tornaram parte de mim.

Atraiçoei todas as crianças que se apegaram a mim e para as quais não mais voltei.

Abandonei repetidamente os braços da família que amo e que generosamente me abafam a dor da saudade com abraços perdoando-me o vazio que lhes deixei.

Digam-me como hei de explicar a um filho que não compreende este constante abandono acusando-me de gostar mais dos outros meninos do que dele, porque, sinceramente, eu não sei como o fazer?

Digam-me como posso ignorar o aperto no peito quando regresso tão tarde e me levanto tão cedo que os meus filhos nem me vêm?

Digam-me, nessa equação infernal que rege a minha vida, onde cabe o choro de filhos que fui obrigada a deixar ficar para trás sempre que fiz a mala e me desfiz do lar, me desfiz da família, me desfiz deles, me desfiz em mil bocados?

Digam-me quantas vezes uma pessoa se pode partir e voltar a colar?

Mas o rio corre e sempre correu, mesmo quando parecia não haver mais água para o alimentar. Um rio que nasce nestes olhos de saudade, de dor e de esperança tornou-me agricultora nas terras férteis que atravessei derramando lágrimas de bem-querer que fizeram germinar todas as pequenas flores que abracei e encheram o meu jardim.

Sem ser pastora, rodeei-me de rebanhos que me seguiram até ao cimo de montes de onde tudo se podia ver.

Tornei-me nómada num mundo de lugares que me desejavam e me rejeitavam num ápice prostituindo a pureza e a inocência das verdades nas quais eu ainda acreditava.

Do reflexo desta lágrima que escorre triste pela encosta deste monte, olham-me todas as criaturas do mundo que eu pude conhecer e que agora me vieram ver do já longo livro de memórias dos sítios por onde passei.

Na boca faltam-me as palavras para dizer tudo aquilo que sinto de tanto que haveria para dizer.
Não há no mundo dinheiro que pague a saudade que se instalou aqui;
não há no mundo dinheiro que apague a dor de tanta ausência que senti;
não há no mundo dinheiro que traga de volta tudo aquilo que eu perdi;
não há no mundo ideia de tudo aquilo que fiz, os sacrifícios que aceitei, as lágrimas que nos olhos dos que amo eu derramei, só para poder abraçar a profissão que escolhi;
não há no mundo interesse pela minha vida, porque ela não cabe no circo mediático em redor do qual se juntam todos os que não me querem ver;
não há no mundo ideia, porque eles não entendem, não sabem, nem imaginam que não há dinheiro no mundo que pague tudo isto que só eu sei.

Cristalizado a olhá-la, quase desejei que aquele instante de clareza nunca acabasse. Uma eternidade que se sentou a meu lado, permitindo-me observar o seu silêncio falar muito mais do a sua boca alguma vez pudesse proferir. O tempo congelou nesse momento em que me senti um inútil ao encontrar tantas lágrimas nos olhos como falta de palavras na boca. Apetecia-me dizer-lhe que agora eu compreendia toda essa dor. Movi os lábios, mas embargou-se-me a voz e fui incapaz de emitir um único som.

Aquela colega, mulher, esposa, mãe, refugiara-se algures num lugar tão seu que eu não tive coragem de ir bater à sua porta para lhe dizer que agora eu já a conseguia ver.

Enquanto o olhar furtivo dela ficara lá fora perdido no último refúgio do mundo, repleto de memórias e sonhos escondidos num céu triste que se derramava sobre nós, eu tivera o raro privilégio de lhe conseguir ler as feições da alma. Pergunto-me como foi possível que durante tanto tempo eu estivesse cego ao ponto de deixar que aquela mulher fosse invisível aos meus olhos?
“Ser invisível” é o fado que o professor contratado tão bem conhece neste meio, não só pelo desinteresse em tentarmos descobrir o que o outro ser humano sente, mas também pela nossa incapacidade de vestirmos a sua pele.

Por fim, quando o mundo se evaporou no meio das trevas, tão derrotada pelo cansaço como nós, a besta fumegante finalmente parou vomitando-nos de volta aos nossos lares. Havia de desfilar um cortejo de dias até eu reconhecer a minha incapacidade de colocar em palavras todas aquelas emoções. Suponho que isso nunca venha a ser possível.

Só consigo dizer que era impossível terminar o ano sem manifestar a minha mais profunda admiração pelo trabalho que os meus colegas de boleias e todos os professores contratados “invisíveis” prestam, cuja dívida para com eles este país jamais conseguirá saldar… porque “Há coisas que não há no mundo dinheiro que pague”.

Numa altura em que a importância dos professores e do serviço que prestam em situações, tantas vezes tão difíceis, se resume a uma simples equação de cifrões conotada com despesa, esta frase nunca fez tanto sentido. Só é pena haver tanta cegueira à nossa volta.

A minha vida profissional sempre na estrada tem sido difícil, mas o que dizer destas vidas?…
Um grande abraço a todos vós, caros colegas contratados, e os desejos das maiores felicidades para um futuro que desejo longe dos quartos e das estradas, mas perto dos que moram no vosso peito… que a gente vai-se vendo por aí.
Até sempre!»

Carlos Santos

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