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Sala Dos Espelhos

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A chegada a um lugar novo é sempre motivo de euforia, espanto ou até de descontrolo. É verdade chegámos a um lugar novo, inesperado, e em simultâneo tão conhecido… a nossa mente.

Nem sempre o que queremos é aquilo que nos é entregue. Na maioria das vezes tivemos que trabalhar arduamente para algo que considerámos ser o correto. A vida devolve-nos aquilo pelo qual nos esforçamos. Somos livres nas escolhas, mas jamais somos livres agora, quando a saúde do próximo e a nossa foi colocada em risco. Respeitamos, escolhemos respeitar e resguardamo-nos para que tudo fique a salvo. Choca perceber que quem nos pede resguardo se demonstre desleal à proposta. Mas apesar de quem nos orienta o caminho cívico faltar ao exemplo uma coisa temos a agradecer: permitiram que entrássemos na nossa sala dos espelhos. Aquela sala que jamais quereríamos entrar de livre e espontânea vontade. A sala onde apenas estamos nós e só nós perante inúmeros espelhos que refletem imagens repetidas daquilo que somos. Dia após dia essa imagem cansa porque não estamos habituados a (re)conhecê-la. Sabemos futilmente quem é, mas fugimos do seu interior. Jamais queremos perder o nosso precioso tempo laboral a reconhecer este Eu que constantemente nos acompanha, que transporta os nossos fantasmas, memórias, tristezas e alegrias. Mas o que é facto é que agora de forma forçada tivemos que ficar isolados do mundo com uma companhia apenas… o Eu. Turbilhão de emoções em constante rodopio de furacão traz de volta pensamentos aparentemente resolvidos. Traz de volta momentos marcantes, mas que aos olhos do nosso ego são infelizes. E agora nesta sala de espelhos que é o nosso isolamento forçado, onde só nós e a nossa mente cabem debatemo-nos com momentos que preferíamos ter excluído da nossa existência. Mas facto é que este confronto mais tarde ou mais cedo iria acontecer. Agora apenas nos foi permitido um retiro para entrar nessa sala. Quer a pandemia, quer os governantes podem tirar-nos o sustento, o convívio, mas oferecem-nos a possibilidade de transformação através de sentimentos na maior parte das vezes duros. Assistir ao momento da partida de tanta e tanta gente faz-me pensar o porquê de tal atrocidade do universo? Correta… incorreta… não me cabe a mim nem a nenhum de nós decidir o que opinar perante tal passo universalmente vivido. Mas de certa forma faz-me pensar se o exemplo que vem de cima é o mais marcante ou se eu por considerar que respeitei regras, entrei na minha sala dos espelhos, confrontei-me semanas com o meu Eu estarei mais correta do que aqueles que pretendem celebrar momentos, importantes da história, mas que os fazem cair no mesmo erro cíclico de viver no passado ou no futuro e jamais no momento presente. O momento presente é doloroso, penoso, pesado por tantas e tantas mortes em simultâneo. É verdade que a doença sempre existiu em diferentes formas, mas esta que leva à paragem de vidas, circunstâncias, momentos é para a nossa geração inédita. Que jamais se repita. No entanto foi um momento de paragem, ou melhor é ou continuará a ser um momento de paragem no tempo para que a transformação em nós ocorra. Nesta sala de espelhos encontro-me e volto a encontrar-me e farto-me de mim porque vejo os erros que só aos outros apontava e agora também os reconheço em mim. Se os corrijo? Não sei. Mas uma coisa é certa, nunca mais voltaremos a ser os mesmos depois de entrar nesta sala de espelhos, onde a nossa mente prevalece, o nosso ego e o nosso Eu. Momentos como este jamais se voltarão a repetir, em tristeza para muitos e em desconhecimento para outros, porque desaproveitar esta estadia no centro do nosso Eu, em confronto com a nossa realidade familiar, dia após dia pode ser algo que passe a definir o caminho que aí vem. Se tenho medo de sair, da sala dos espelhos, agora que entrei? Sim tenho. A ameaça externa é superior aquilo que internamente tenho, mas se consegui enfrentar a sala dos espelhos de mim própria também conseguirei enfrentar a ameaça que de fora se avizinha. Agora senhores governantes, respeitem quem decidiu entrar na sala dos espelhos, sofrer confrontos internos, redescobrir emoções, ser despedido, passar fome e contenham-se nos festejos que com isso só nos fazem desacreditar em quem pretensamente nos guia. Fiquem também vocês na vossa sala dos espelhos porque provavelmente nem se deram conta que também deveriam por lá passar.

 

Vera Silva

2 COMMENTS

  1. A Democracia e a liberdade não são conquistas adquiridas. É preciso lutar por elas todos os dias e estar atento. Todos os dias o perigo espreita. Morreu muita gente em nome destas conquistas. É preciso relembrar isto. Compete ao Estado educar os cidadãos neste sentido. Nunca é demais marcar uma data que terminou com 48 anos de atraso e subdesenvolvimento a todos os níveis. Desde que se cumpram as indicações das autoridades sanitárias e desde que não haja aglomerações nem aproximações de pessoas. É dignificar a nossa História e sublinhar que não voltaremos atrás, não deixaremos. Claro sem pompa e circunstância porque estamos de luto.

  2. Lamento, mas jamais posso concordar quando uma cerimónia fúnebre não permite uma despedida e um luto em presença. Pelo que me parece que esta celebração da democracia (duma data que respeito e me orgulho) é anti-democrática.

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