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Pensamentos sobre os “rostos das escolas” em dia de greve

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Uma das coisas que mais me irrita no atual estado geral das escolas é a leviandade com que muita gente fala da liderança e lhe atribui poderes quase mágicos na mudança e funcionamento. O diretor ou a diretora passaram a achar (muitas vezes, com contágio aos seus apaniguados)  ser o “rosto da escola”, como dizia a lei da gestão escolar da Milu. Às vezes, é um rosto bem bexigoso e que dá face a algumas almas cavernosas e covardes.

Muitas leituras de Max Weber, fazem-me pensar que esses propaladores da liderança, na verdade, usam a palavra para disfarçar o seu discurso de dominação e de ataque manhoso, e atrás da moita, às liberdades.

A liderança nem é sequer usada num sentido democrático. Dizem liderança porque parece moderninho e evoluído porque, na verdade, queriam dizer “chefia”, que é o que a sua esperteza saloia ouve ao dizer-se a palavra. E, chefiando, não tem coluna vertebral para não ser também chefiados (ou pastoreados) pelo mesmo modelo que usam para os outros.

Dizem, como mantra,  “só estou a cumprir a lei”, sem o pudor de pensar que, até em Nuremberga, nos grandes julgamentos do Nazismo, muita gente também foi por esse caminho movediço para justificar o injustificável.

Estas ideias de liderança e do “até a mim parece que faço o mal, mas estou a cumprir a lei”, estão-se a ver muito bem nos atuais atropelos, que a suposta ordem da Dra. Pastor, para fazer reuniões de qualquer maneira, vêm produzindo nas escolas.

A Dra. Pastor inventou da sua cabeça uma lei e, pressurosos, os “líderes”, sem coluna vertebral ou com a coragem de um pinto (ou de outros animais cujo nome rima com esse), desculpam-se, sem remoques de consciência: é a lei.

E ficam bem e em paz assim. E não percebem que ficam ao nível moral de um verdugo num estado totalitário, mesmo se o resultado é obviamente de outro nível. Mas, colocados nessa situação, iriam pelo mesmo caminho. É essa a banalidade do mal de Hannah Arendt.

O mal burocrático é essencialmente parecido, mesmo se, trair ou ameaçar professores em greve, não se compara, obviamente, no resultado, ao que, no processo de decisão moral, é semelhante. O próprio nazismo também começou por pequenos passos de adesão burocrática e “porque era a lei”, antes de chegar ao expoente de mal que atingiu.

A lei (e, mais ainda, a ficcionada) não resume a moral.

A esses difusores de ideias tóxicas de liderança, muitas vezes cheios de moralismo consensualista e bondade seráfica no discurso, só me apetece lembrar gente ilustre que, sendo moralmente muito imperfeita, e até pouco recomendável, liderou, pelo exemplo de rutura e pela coragem moral. O (meio?) alcoólico e imperialista Churchill, o execrável De Gaulle, o mulherengo Kennedy, o machista Gandhi, a arrogante Thatcher e por aí fora (e só para falar de líderes políticos em ambiente democrático).

Esses, e outros, tinham muitos defeitos mas, em momentos críticos e definidores, recusaram ceder à vontade cega do consenso social (Kennedy na crise dos mísseis, por exemplo, em que o consenso era ir para a guerra), à vontade de rendição (Churchill, contra toda a lógica) ou à legalidade, que resultava em traição (De Gaulle, quando fugiu para Inglaterra para iniciar a resistência contra a ocupação alemã e contra o governo legal de Vichy).

E isso foi uma atitude moral, mesmo se ilegal (ou havendo quem a julgava assim). Quantos generais irrelevantes havia em França, em Junho de 1940? De Gaulle era irrelevante, mas deixou de o ser pela sua coragem em afrontar a legalidade construída e traidora.

Se fosse para cumprir a lei, Salgueiro Maia não tinha saído de Santarém na noite de 24 de Abril. Cumprir-se a lei faria dele um prisioneiro e nunca seria quem foi. Quem cumpria e fazia a lei, nesse dia, era a PIDE e o Brigadeiro Junqueira.

A Dra. Pastor não é a lei, nem a faz. E, por isso, não me venham dizer que a comparação é abusiva porque “até estamos num Estado de Direito”. Se estivéssemos num Estado de Direito, ninguém faria valer, até ao limite do caricato, como o que não é, o texto que a Dra. Pastor regurgitou.

Bem sei que sou muito novo e com pouca experiência, apesar dos meus 46 anos.

E, por isso, ler biografias históricas seria, como é para mim, um bom caminho de melhoria para muitos e muitas líderes de pacotilha (que, estas coisas perversas, não têm género e tanto atacam as Marias, como os Josés). Talvez percebessem qualquer coisa mais do que é a dialética da vida e da história.

Ou lembrarem-se do seu Camões da escolaridade básica (Canto III). Os versos falam de um Fernando medieval, mas podiam falar de Antónios, Mários, Alexandras, Conceições, Luís ou Tiagos de hoje. Valem pelo sentido, mesmo para o presente.

“Do justo e duro Pedro nasce o brando,

(Vede da natureza o desconcerto!)

Remisso, e sem cuidado algum, Fernando,

Que todo o Reino pôs em muito aperto:

Que, vindo o Castelhano devastando

As terras sem defesa, esteve perto

De destruir-se o Reino totalmente;

Que um fraco Rei faz fraca a forte gente.

8 COMMENTS

  1. Sem dúvida. A maioria dos diretores (as) acham-se chefes das escolas.
    E mandam, gabam-se que cumprem a lei. (mesmo que seja de legalidade duvidosa)
    Ainda por cima o modelo de gestão está organizado para que perpetuem na chefia eternamente, a maioria dos elementos do conselho geral são propostos por eles próprios (nos bastidores), não vá haver o azar de…
    Dar aulas para eles é um estatuto menor.
    Os professores ao concorrerem além de se preocuparem com a localização e a distancia do agrupamento fazem-no na mesma proporção de quem é o diretor (a) ou seja quem manda.
    Muito mal anda o ensino por este caminho.
    A minha esperança seria que a nova geração de docentes lutasse contra este “status quo”, mas como sabemos eles não conseguem ingressar na carreira, e assim se vai mantendo a situação, que, ainda assim pelo que se vê, convêm a alguns.

  2. Fiz greve e, tanto quanto sei, fui a única. Também os soldados de Hitler disseram que se limitaram a cumprir ordens… estranho, pensava que a Inspeção servia para o cumprimento da lei e não para o cumprimento de ilegalidades. voltou a PIDE?

    • EXCELENTE ARTIGO. MUITO ESPIRITUOSO…

      Fiz greve a todos os Conselhos de Turma (convocados após a nota informativa enviada pela Diretora-Geral dos Estabelecimentos Escolares no dia 20 de julho) e todos eles se realizaram apesar de estarem alguns docentes em greve… O vice diretor assinou a nota informativa que anexou às convocatórias de 23 e de 24 ,e, assim, com muitos atropelos à democracia e esquecendo os trabalhadores que lutaram e deram a vida pela conquista do direito à GREVE…lá foram acontecendo os “Pseudo Conselhos de Turma”…ainda que muitos colegas tenham alertado para a ilegalidade da sua realização…

      UMA VERGONHA!!!!!!

      Laura Coito (Agrupamento de Escolas de Amares)

  3. Não foram apenas os directores que, feitos paus-mandados dos burocratas do ME, puseram a nu a farsa da autonomia e da representatividade que se tem andado a construir em torno da administração educativa.
    Os inspectores enviados para policiar as escolas e os directores mais recalcitrantes demonstraram igualmente que a propalada isenção e independência da IGEC não passa de uma mentira…

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