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Retrato De Famílias Que A Sociedade Esquece

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«Amanhã começarão as aulas em muitas escolas e será um dia de reencontros, de sorrisos e de desejar um bom ano letivo para todos.

Mas não é dessa evidência – que está iluminada no grande palco à vista de todos – que me disponho a falar. Importam-me os bastidores que só “alguns” conhecem, “poucos” se interessam e de que “ninguém” fala. Um lugar oculto onde não há reencontros, mas despedidas; não há regressos, mas partidas; não há alegria, mas angústia.
Embora amanhã o centro das atenções seja o recomeço envolto numa maravilhosa paz podre, é hoje que tudo realmente acontece; é hoje que muitos daqueles que escolheram ser professores se veem obrigados a se despedirem dos cônjuges, dos filhos, dos familiares e dos amigos, deixando ficar para trás uma cidade, uma casa, uma família e toda uma vida.

Um último olhar na despedida reveste-se numa súplica impossível – um momento infinito de espera em que todos os relógios param, os corações deixam de bater e o ar se torna demasiado denso para se respirar, unicamente à espera de ouvir algo que ainda os impeça de partir. Aguardando por uma mão que os puxe e leve a fugir dali para um lugar inventado onde ninguém os possa encontrar.
Mas neste duelo injusto entre o que se quer e o que se pode, vence sempre a crueza da realidade, a única possível, impossível de obviar.

E assim, à medida que a viagem começa a afastar a imagem daqueles olhares de incompreensão que imobilizaram a lágrima até ao último instante e se vai perdendo num ponto no vazio até se tornar apenas numa recordação à qual se agarram, abate-se sobre eles um pungente sentimento que ainda não houve dicionário que encontrasse vocábulo para classificar, nem equação matemática que conseguisse quantificar. Aquele meio de transporte transforma-se num sarcófago onde choram essa dor que não conseguem combater.
Na véspera do dia em que se acendem os holofotes, armados de coragem pelo meio da penumbra rompida por uma melancólica luminária de saudade silenciosa que ilumina o seu caminho, é quando e como começa o ano letivo para tantos professores.

Mas amanhã é o dia, já se sabe…
Amanhã os tabloides colocarão debaixo das luzes da ribalta os políticos que estarão numa escola a celebrar a abertura de mais um ano letivo espargindo um discurso fraudulento com cheiro a naftalina do que considerarão ser o melhor começo de sempre.
Amanhã muitos pais, transbordantes de satisfação, irão levar os seus filhos à escola.
Amanhã muitos serão os felizes papás que terão o prazer de acompanhar a sua prole no primeiro dia de aulas estando ao seu lado.
Amanhã, ao final da tarde, muitos serão os pais que irão saborear com deleite o relato do primeiro dia de escola partilhado pelos seus filhos.
Amanhã ao entardecer muitos serão os maridos ou esposas que irão conversar sobre o seu dia.

Há amanhãs assim, mas não para aqueles que estão a sentir o sabor agridoce de ter emprego demasiado longe de casa, deixando-os na dúvida se estão a cumprir o sonho de uma vida ou o castigo de ficar anos afastados do seu mundo.
Amanhã, de coração estilhaçado, esses não irão certamente levar os seus filhos à escola, nem os acompanhar no seu primeiro dia de aulas, nem privar com eles o fim do dia, nem a companhia do cônjuge.
Esses, aos olhos de uma comunidade que os esqueceu, evidentemente não serão notícia, não serão pais nem maridos ou esposas, pois os professores desceram à escala de uma «coisa» sem família nem vida própria.

«Coisas» que sofrem a dor de terem de se sujeitar a ter as suas famílias destroçadas, vidas separadas, sonhos adiados, corações amargurados.
Filhos que, quando não podem ser acrescentados à infausta mala de viagem, ficam condenados a crescerem à distância. Cônjuges afogados em saudade e o desejo de que a semana termine logo, que o período acabe rápido, que o ano passe depressa, numa vida que se vai gastando atrás de uma estabilidade que parece nunca mais chegar, transformando professores em pessoas envelhecidas e vencidas por uma existência que lhes vai sendo roubada em vida. Esta é a verdadeira essência da existência desses professores que amanhã não estarão debaixo dos holofotes do mediatismo conjurado pela hipocrisia de um povo umbiguista.

Um evento de alegria para muitos irá ser o momento mais pesaroso do ano para quem se vê obrigado a deixar a sua vida para trás, atrás de um ganha-pão – que depois de deduzidas as despesas, muitas vezes nem ao salário mínimo chega – e do sonho de “ensinar” que se começa a tornar num pesadelo.

No curso que tiraram para desempenhar esta profissão ensinaram-lhes quase tudo, mas ninguém os preparou para este sentimento de perda.
Não existia um manual de instruções para ensinar como explicar a um filho o motivo da mãe/pai o abandonar.
Ninguém lhe indicou que palavras usar para dizer ao cônjuge para ser paciente e esperar, afiançando-lhe que o amor não irá acabar.
Para este mar de sentimentos e solidões – que é mais do que podem suportar – não há cursos, manuais, ensinamentos, nem nada no mundo que os pudesse ter preparado.
Como se pode, então, exigir tanto de um ser humano que foi amputado da sua estabilidade emocional?
Onde está a tão apregoada qualidade de vida para todos?
Como pode a classe política em campanha eleitoral publicitar o direito à família e incentivos à natalidade se a estes profissionais tudo isso lhes é negado?

Não me parece que alguém saiba da ânsia destes professores para que o trabalho seja tal e os alunos tão absorventes que, vencidos pela fadiga, não tenham tempo para pensarem nem se aperceberem do sentimento de perda que levaram na maleta de viagem.
Mas o mais invulgar e único de entre as profissões, é que, apesar de todos estes sacrifícios sem nenhuma ajuda de custo, os professores não desistam em continuar a desempenhar a sua profissão com a dedicação que se conhece.
Estas são algumas das muitas regalias daqueles que a sociedade se encarregou de classificar como “os privilegiados”.

Eu gostaria de acreditar que amanhã os pais reconhecessem que diante deles poderá estar um professor que prescindiu de muito para garantir que o melhor de si será dado ao seu filho.
Seria bom que amanhã, antes mesmo de o ano letivo começar – e não apenas no final do ano – os pais vos olhassem nos olhos e tivessem a cortesia de vos dizer “Obrigado”.

Mas, mesmo que os pais não o digam, mesmo que nem os colegas vos vejam, mesmo que a sociedade não vos reconheça o esforço, nem ninguém se lembre de vós, eu, que até trouxe a algibeira cheia de palavras que não chegam para vos fazer justiça, dou-vos tudo o que sinto.
Olho e vejo tanto que ensinastes; vejo a vida que partilhastes; vejo o mundo que mostraste a tantos seres ávidos de aprender; vejo que mesmo [email protected] em mil bocados, [email protected] de morte e [email protected] de nada, privastes de tudo para dar tudo aos filhos dos outros sem exigir nada em troca.
Os vossos lábios cerrados dizem palavras sentidas ainda por inventar.
As vossas mãos vazias lembram daqueles que agora não podem tocar.
Os vossos olhos tristes revelam aqueles que deixaram de poder ver.

Que o rio para onde correm todos os riachos de desgosto se transforme no sítio onde morrerão as lágrimas do rosto, quando as vossas despedidas vos trouxerem muitos regressos a casa repletos pelos abraços que completam o vosso Retrato de Família.»

Texto do colega Carlos Santos

(08-09-2019)

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1 COMENTÁRIO

  1. Apenas quero deixar o meu Obrigada e Boa Sorte para todos os Professores em Geral.
    A minha Solidariedade para com todos os professores que passam tudo o que é referido no artigo. OBRIGADA a TODOS os PROFESSORES PORTUGUESES!
    CORAGEM!

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