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Retalho da vida de um professor

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«Retalho da vida de um professor (título por Elisabete Ferradini)

Ora bem: induziram-me a estudar muito (e bem!), porque assim conseguiria realizar o trabalho que mais gosto de fazer (ensinar); induziram-me a trabalhar muito (e bem!), porque assim conseguiria ser promovida, ter um salário melhor e boas perspectivas de “carreira?”; induziram-me a comprar casa e carro, porque assim estaria a pagar algo que futuramente seria meu e da família que considerei poder criar e sustentar; induziram-me, induziram-me e induziram-me… Levaram-me a crer que contabilizar tempo era o mesmo que contabilizar dinheiro, por isso não me fez espécie criar dívidas para poder ora pagar duas casas ora gasolina em dezenas de kms só para poder ir trabalhar. Entretanto, entrou a dita austeridade: encetaram vários cortes no meu salário (os primeiros prémios da excelência do meu trabalho, decretada nas aulas assistidas…), eliminaram o abono de família dos meus filhos, congelaram o meu tempo de serviço, e querem eliminá-lo (nove anos, quatro meses, e dois dias) para nunca mais o ver nos registos ( simplesmente, e apesar de ter dado no duro, oficialmente, não trabalhei durante esse período), retiraram-me o subsídio de férias e de natal algures no tempo – pois há contas que já não precisam de ser pagas: o empréstimo da casa; os seguros de vida e predial associados à casa; o imi correspondente a um palacete quando, na verdade, moro numa caixa de fósforos; o empréstimo do carro, o seguro do carro; as dívidas que entretanto criei só para exercer a profissão de sonho com as expectativas que me deram. A aguardar, impávida e serena, possíveis execuções fiscais( e outras!) que não vou conseguir pagar… Os filhos quase a caminho da universidade: e nem direito tenho a apoios porque o salário virtual (bruto) é astronómico (dizem…) Levem tudo! Sempre fui mãos largas… Aqui ninguém exige retroactivos, ainda (e até deveríamos). Apenas justiça: valorização do empenho nas inúmeras actividades, não só as obrigatórias, mas também as pseudo-obrigatórias (extra-curriculares); do sacrifício familiar (distanciamento físico, e por vezes emocional – quantas vezes o nosso cérebro não desliga dos problemas que envolvem os alunos, dos actos de indisciplina: queremos estar bem para a nossa família e não há como… ). Não se trata de queixume, trata-se de ver as coisas como elas são. Ser professor é uma escolha, certo; mas também (e principalmente) é ser escolhido, pelos nossos alunos (como podemos abandoná-los? ): serviço público. Acima de tudo não podemos defraudar as novas gerações: quem trabalha tem o dever de seguir as regras, mas os empregadores têm a obrigação de as respeitar. Não se apaga quase uma década de trabalho. Muito acontece em dez anos, e ninguém decide de repente fazer de conta que não os viveu. Até pode decidir: mas eles estão cá na mesma. No caso dos professores, basta ouvir um “Olá, Setora!” na rua e não reconhecer o adulto de 24 anos que foi nosso aluno aos 14.

(desabafo de uma professora – ainda posso?)»

Texto de Conceição Sousa

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