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Resultados | Professor(a), Está A Ponderar Deixar O Ensino?

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Ficam os resultados do inquérito realizado nos dias 2 e 3 de novembro, bem como a análise exclusiva de Santana Castilho.


O Desalento dos Professores

Mais uma vez solicitado a produzir um pequeno comentário sobre o inquérito administrado aos leitores deste blogue, mais uma vez sou confrontado com resultados expressivamente conciliáveis com o que eu esperaria, considerando o conhecimento que tenho sobre o efeito das políticas educativas dos últimos 15 anos no ânimo da classe docente.

O inquérito partia da pergunta: está a ponderar deixar o Ensino?

E dava quatro hipóteses de resposta, a saber (com o registo dos resultados obtidos, relativos a 1430 respondentes):

– Não (31%, 443 votos).

– Sim, quero reformar-me/mudar de emprego, desde que mantenha o mesmo rendimento (35%, 498 votos).

– Sim, quero reformar-me/mudar de emprego e nem me importo de receber menos (28%, 403 votos).

– Sim, vou sair e depois logo se vê (6%, 86 votos).

Penso ser legítimo retirar daqui que 69% dos que responderam mostraram-se desalentados com o estado a que chegou o seu exercício profissional.

O menoscabo a que os professores têm vindo a ser votados e a humilhação a que os políticos os têm sujeitado tornou-se uma evidência, particularmente desde o ministério de Maria de Lurdes Rodrigues. São múltiplos os estudos que o atestam e vasta a literatura que o refere. O problema é que, como recentemente escrevi, morre lentamente uma sociedade que não acarinha os seus professores.

Como foi possível chegar aqui? De entre o muito que poderia dizer, permitam-me, repetindo-me, destacar dois aspectos:

– O DL 15/2007, que estabeleceu o estatuto da carreira docente dos professores do ensino não superior, foi um marco simbólico na sua proletarização e funcionalização e o início da desvalorização profissional que se seguiu. O artigo 35º desse diploma listou as funções dos professores. Quase 90% dessas funções referem-se aí a tarefas fora da sala de aula, expondo a viragem significativa de uma concepção política para a profissão docente. A análise fina dos tempos de trabalho semanal dos professores mostra que cerca de 40% desse tempo decorre fora da sala de aula. Se cruzarmos o conteúdo funcional fixado no diploma com a necessidade de participar em reuniões, para o cumprir, ficamos esmagados com o peso dessas reuniões. São residuais as situações que as dispensam. Estava dada a tónica e o tiro de partida para a construção de uma forma kafkiana de controlar tudo e todos e subjugar pelo cansaço, com tarefas sem sentido.

– Para a degradação da profissão docente muito contribuiu a impropriamente chamada avaliação do desempenho. Digo impropriamente porque, em rigor, não se foi além de classificar o desempenho, coisa bem diversa. Das alterações havidas resultaram sucessivos instrumentos, complexos e artificiais, vazios de equidade e justiça, que procuraram, tão-só, bloquear a progressão na carreira. Perversas grelhas de classificação do desempenho, que deixam o senso comum arrepiado por tipificarem tudo o que um professor não deve ser, foram vias abertas para a decadência da dignidade da profissão.

A avaliação do desempenho tornou-se um instrumento tecnocrático de gestão mercantil da Educação e expressa, entre nós, a preocupação política e económica de analisar em detalhe os custos de produção do serviço público de Educação. Esta preocupação dominante colide com a natureza axiológica de qualquer avaliação educacional e por isso sempre a rejeitei como panaceia para a melhoria da qualidade da Educação e sempre lamentei que os professores e a sociedade em geral a aceitassem como os crentes aceitam os dogmas, isto é, com reverência sacra.

Em Portugal, a avaliação do desempenho contribuiu para trocar o professor intelectualmente autónomo e politicamente comprometido, apenas, com os seus alunos e a sociedade, pelo professor/técnico, que obedece sem discutir, porque integrado numa reserva de mão-de-obra barata e não eficazmente reivindicativa.

Que fazer, para sair daqui?

O meu desalento assemelha-se ao desalento que este inquérito expressa. Receio que tenhamos, como classe, que nos afundar muito mais ainda para que, finalmente, deixemos de votar nos próprios carrascos.

Porquê tanto pessimismo? Porque, se por um lado se reproduzem movimentos de contestação (Chile, Líbano, Catalunha, Argentina, e Hong Kong, entre outros) à arbitrariedade política e às ditaduras económicas globalizantes, por outro, e entre nós, celebra-se como coisa única e com sonolento orgulho nacional uma Web Summit, que o Estado (o mesmo Estado que fecha urgências pediátricas e rouba o tempo de serviço dos seus professores) subsidia anualmente com mais de 11 milhões de euros do nosso dinheiro. Onze milhões, ano a ano, durante dez anos, para Paddy Cosgrave (cujos lucros cresceram exponencialmente desde que veio para Lisboa), que nem sequer paga a quem trabalha na WebSummit (alegremente, vêm de todo o mundo, suportando viagens e alojamento, os “voluntários” que o servem).

Chegará o dia em que nos levantaremos do chão e derrubaremos as muitas obediências doutrinárias. O meu sentimento é que vai demorar.

Santana Castilho

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2 COMENTÁRIOS

  1. SC preciso como um relógio suiço como sempre. A alienação política é um traço contemporâneo. Se o século XX foi o século do povo, o século XXI é o século da populaça. A websubmmit é pão e circo.

  2. Concordo plenamente com a análise. Toca nas questões de fundo, naquelas que por má vontade, incapacidade ou ignorância há pouca disponibilidade para discutir.
    Sempre fomos um povo deslumbrado, vivendo entre a grandeza e a miséria. Pena é que o estoicismo, de que por vezes somos capazes, não sirva também para realizar mudanças profundas. Talvez por isso as nossas crises sejam tão cíclicas e, quase sempre, pelas mesmas razões.
    Há uma pesada herança histórica, expulsada a inteligência, partindo os mais aventureiros e corajosos, a cultura do silêncio instalou-se como forma de sobrevivência, valorizando mais o jeito do que a competência!
    A última crise levou-nos, mais uma vez, um boa parte da massa crítica. É o nosso fado? Como não acredito no destino, prefiro pensar que não, ainda que a batalha seja muito longa e de fim imprevisível…

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