Home Vários Respire

Respire

121
0

Aproxima-se o fim de mais um período letivo. O chegar ao fim implica para muitos um respirar de alívio, ufa que está quase, chiça que já acabou. Não é por não se gostar, nem por se estar farto da coisa, por muito que possa parecer incrível, ou contraditório, a muitos. É mesmo porque chega ao fim, porque acaba.

As relações nas escolas, em particular as relações de ensino aprendizagem, aquelas que acontecem privilegiadamente em sala de aula, andam tensas, desgastantes, cansativas. Há mais de uma década a esta parte que o trabalho do professor mudou. E mudou muito, por muito incrível que possa parecer aos civis (àqueles que apenas se limitam a opinar de fora sobre a escola). Por via de políticas educativas registaram-se significativas alterações no trabalho dos professores, organização, objetivos, funções. Com essa alteração, mudaram, por arrasto e como consequência,  comportamentos, relações, modos de ação escolar.

As relações escolares estão muito, mas mesmo muito dependentes da dinâmica, do estado de espírito, da disponibilidade e abertura que qualquer docente concebe, permite, atribuí. É a partir do professor que se instituem dinâmicas de trabalho e de sala de aula. É a partir daquilo que o docente faz ou mostra que se definem gostos, se criam empatias, se promove a disponibilidade tanto para aprender como para ensinar..

Mas têm sido muitos os factores que se intrometeram e condicionaram a disponibilidade de professores. Primeiro grande rombo a diferenciação entre titulares e não titulares, que criou uma clivagem entre professores. Depois a avaliação docente, que promoveu uma espécie de competição entre quem fazia mais e quem era melhor. As agregações foram outro elemento que misturam culturas e sentidos de escola. Ao que se junta o progressivo envelhecimento da classe docente. Não sirvo de exemplo para quase ninguém, mas dou nota da minha impaciência, dos níveis mais baixos de tolerância, de brincar menos com as coisas sérias da escola. A tudo isto se aliam padrões de comportamentos infanto-juvenis diferentes (mais fluídos, menor formalização, regras mais diluídas ou mais intuídas que definidas). Relações familiares que se se reconfiguram, que se instituem e imiscuem por entre filhos, os meus, os teus, os nossos. Perante este conjunto temos as condições reunidas para que se desencadeiem aquilo que este espaço tem dado conta: aumento dos níveis de tensão e conflitualidade, aumento do número de participações disciplinares, aumento do número de ocorrências disciplinares. Acresce que a literatura académica, de igual modo, tem dado destaque quer à recorrência da indisciplina, quer aos fatores de burnout docente.

A notícia que serviu de mote ao texto dá conta de esquemas e estratagemas para colmatar o crescendo de tensão nas escolas. Respire que isso passa. Respire, contenha a respiração, conte até ao milhão e vai ver que isso passa.

Mas não passa. Ou passa momentaneamente. Perante os fatores e as condições que promovem situações de indisciplina, não basta respirar.

Em final de período letivo regista-se, por um lado, um abaixamento das tensões, por outro, um acréscimo de situações de difícil controlo (docente e mesmo parental). Mas e até final do ano, a tensão irá aligeirar para, em setembro, regressar, como se nada tivesse acontecido.

Manuel Dinis P. Cabeça

27 de março, 2017

Coisas das aulas

 

Quando a respiração marca o ritmo da escola

(JN – Alexandra Inácio)

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here