Home Rubricas (Resist) ir

(Resist) ir

68
0

imageSobre a colcha branca agrupam-se montinhos de roupas. Algumas camisolas dobradas em quadrado, cuecas embrulhadas em forma de envelope, as meias perfeitamente enroladas em pares, três pares de calças esticadas à cabeceira, algumas camisolas de lã, três cachecóis e dois gorros. Várias camisas irrepreensivelmente engomadas repousam com leveza aos pés da cama e a parka cinzenta de forro duplo contrasta acintosa com o calor intenso que escorre da varanda aberta e alaga o quarto.

O rapaz conta baixinho, conferindo uma lista imaginária plasmada nas paredes nuas do quarto. Lá de fora chegam as vozes pequeninas das irmãs que brincam na sala. Os seus risos misturam-se com os barulhos da rua. Reconhece a voz cantada da ‘m’na’ São, minhota de pelo na venta, que assoma à ombreira da mercearia, a descompor os garotos que lhe passam à porta e lhe levam mãos cheias de cerejas antes de cortar para a travessa do meio. Ouve a voz cansada do pai a saudar a menina Isabelinha, ‘boa tarde menina’, ‘boa tarde, Sr. Faustino, está com muito bom ar hoje’, replica ela, a bondade a velar o rigor.

Uma súbita vontade de gritar impulsiona-lhe do fundo da garganta um gigantesco, infinito NÃO. Não quer ir, não quer arrumar na mala os montinhos de roupa que tão cuidadosamente organizou, não quer sair do seu quarto de varanda rasgada para o bairro que o viu nascer, de prédios velhos com estendais coloridos, manifestações tão cruas das suas pessoas.

Tenta chamar a si a razoabilidade que teima em fugir-lhe, porque toda a gente sabe que a razoabilidade é a melhor maneira de aniquilar os gritos. Pensa no seu curso que inflou de brio e esperança o olhar dos pais, pensa nos estágios ‘profissionais’ (o primeiro não remunerado, os seguintes pagos pelo estado), as empresas onde trabalhou: a primeira, onde ainda lhe são devidos os salários dos últimos meses, depois o hotel onde lhe era exigida disponibilidade total, a qualquer hora do dia ou da noite, turnos consecutivos a soldo mínimo.

O primo Manel, sabendo das dificuldades, dispôs-se a levá-lo consigo para a Suíça. ‘Aquilo sim, é um País’. Lá não falta trabalho para quem quer trabalhar. As ruas são limpas, os bairros são calmos, as competências florescem. O rapaz não descrê, não senhor. Há-de ser tudo isso: um mundo maravilhoso de oportunidades, de maneiras civilizadas e hábitos progressistas. Já o industriou o primo Manel que nem sequer se pode puxar o autoclismo a partir da dez da noite, para não incomodar os vizinhos com barulhos escatológicos.

Tal excentricidade não apoquenta o rapaz. Ocorre-lhe, no entanto, que será provavelmente no silêncio normalizado da noite helvética que o atacarão à sorrelfa as saudades do torvelinho barulhento e desregrado da sua rua.

MC

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here