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O regresso de Luís Costa (ex-Bravio) | Os Eucaliptos

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Hoje é um dia especial, quem segue o ComRegras sabe da admiração que tenho pelo Luís Costa, autor do blogue Bravio que teve o seu fim não há muito tempo. Insisti muito para que o Luís não abandonasse a blogosfera, mas o seu espírito livre teimava em manter-se afastado.

Hoje é o dia em que o Luís se junta ao ComRegras, e conforme lhe disse “não é por escreveres no ComRegras que a tua liberdade será condicionada ou irá condicionar terceiros”. Nesta casa cada um escreve por si e só a si o responsabiliza. Liberdade e pluralidade são valores que não abdico e existirão sempre enquanto por aqui andar.

Sê bem vindo Luís 😉


Os Eucaliptos

Muitos são os temas que, por vias diversas, estão a ser colocados na agenda do grande fórum docente. Seja por geração espontânea, seja com intuito pirotécnico, a verdade é que esta surpreendente proliferação temática está a cortinar aquele que, no meu entender, deveria ser o ponto de convergência de todas as atenções: o regime de gestão das escolas.

Paulatinamente, o debate desta questão fulcral tem sofrido uma perigosa simplificação: o almejado regresso à gestão democrática das escolas está a ser reduzido, no verbo e nas intenções, à mera alteração do processo de eleição do Diretor. Uns fá-lo-ão intencionalmente, outros sem intenção, mas, na verdade, todos os que marcam presença nesta ala discursiva estão a contribuir para a perpetuação da dita figura. É a velha e bem conhecida estratégia de mudar o suficiente para que tudo (o que é “essencial”) fique na mesma. Só por ingenuidade ou insídia se pode crer, ou fazer crer, que algo de substancial vai mudar apenas com essa alteração. O instalado halo (de prepotência, de intimidação e de cumplicidades) que os diretores têm anafado só se dissipará com o desaparecimento do cargo, recolocando no seu lugar uma referência com muito mais e melhores conotações democráticas: o Presidente.

Recentemente, alguns dos mais conhecidos paladinos da “diretoria” aproveitaram a onda eufórica da divulgação dos resultados do TIMMS e do PISA para virem a terreiro defender a sua dama, recomendando, a quem de direito, um sensato conservadorismo, um prudente comedimento nas anunciadas reformas… Enfim, quiseram, com a sua típica astúcia, fazer crer que essas aparentes melhorias podem estar umbilicalmente associadas ao atual regime de gestão, ou seja, ao jugo que os diretores representam, ao facto de haver nas escolas a tal figura criada por Maria de Lurdes Rodrigues para “pôr os professores na linha”. A ser assim, ou seja, se devemos endossar aos diretores a boa parcela do que são hoje as escolas portuguesas, então façam lá o favor de receber, por inerência, em correio registado e com aviso de receção, o aumento da indisciplina e até da criminalidade. Também têm de fazer parte dos dividendos, não é verdade?

Em bom abono da verdade, tenho de tirar o chapéu à referida ministra (por ter criado “o milagre”) e aos seus sucessores (por terem sabido alimentá-lo). Depois de vergada a espinha dos professores, depois de cilindrada a sua objeção de consciência e depois de amordaçada a sua livre palavra, tem sido muito fácil a manipulação dos pensamentos, das ações e dos resultados. Tal como um eucalipto, a autoridade do Diretor parece crescer, vigorosa e assombrosamente, à custa da autoridade dos professores, que se esvai de forma inversamente proporcional. E tem sido tão célere este processo de decomposição, que alunos e encarregados de educação (em geral, claro) têm hoje a perceção de que os professores são meros verbos de encher, meros ensinadores e “propositores” de notas condicionadas. E não andam muito longe da verdade: nas escolas reina a desautorização, a demissão, a omissão, o medo. Em todos os órgãos impera a vontade do Diretor. Já não há genuínas discussões, já não há genuínas críticas, já não há verdadeiro contraditório, já não há verdadeiros sufrágios: a discussão é entendida como obstáculo; a crítica é recebida como afronta, como declaração de oposição ao regime; o contraditório é mera “perda de tempo”, pois já todos sabem que tudo está previamente orquestrado e decidido; o mesmo acontece com os sufrágios, que ocorrem quando um diretor se lembra de fingir que não nomeia (prefiro os que assumem a sua própria escolha). Estranhamente, muito estranhamente, a superautoridade dos diretores parece não estar a produzir nem superdisciplina nem superempenho discente. Bem pelo contrário. Porquê?

É este o estado a que chegaram as dinâmicas nas nossas escolas. O caso não seria muito dramático, se se tratasse de fábricas de pregos. Contudo, como é nesses espaços que formamos não só os profissionais mas também os cidadãos, os homens e as mulheres do futuro; como é nesses espaços que ensinamos o respeito ou deixamos crescer na brutalidade; como é nesses viveiros que cultivamos a liberdade ou a submissão; como é nesses ovos que chocamos a democracia ou o veneno que a poderá aniquilar, então o caso muda radicalmente de figura.

É por estas simples miudezas que urge abrir todas as portas, desmantelar todas as gaiolas, estirar as asas, beber pluralismos, enfim, devolver a democracia às nossas escolas, antes que esta silenciosa e cinzenta anemia evolua para leucemia letal.

 

Luís Costa

9 COMMENTS

  1. Nada contra um órgão colegial. Fui presidente (democrático) mais tempo, muito mais, do que sou diretor (autocrático), embora não tenha mudado nada na minha praxis.
    Mas importa não evitar amadorismos, voluntarismos e porreirismos.
    A este propósito, trago aqui a posição de Álvaro Beleza, candidato a Bastonário da Ordem dos Médicos e dirigente (ou ex) do PS sobre esta questão:

    ‘A solução passa por combater o desperdício e promover o mérito. Quero colocar médicos com reconhecida capacidade a gerir todas as unidades de saúde. Claro que estes médicos terão que ter sólidos conhecimentos de gestão, pelo que a Ordem dos Médicos terá que criar condições para que os médicos desenvolvam esta área do conhecimento. Tem que haver planeamento consistente e responsabilização.”‘

  2. A expressão reduzida da divulgação deste post revela a indiferença com que os professores aceitam a sua sorte. Quem esqueceu o espírito democrático não o sabe transmitir. A democracia formal tomou conta do quotidiano. A boca fechada ou as críticas em surdina deram lugar à desistencia.

  3. Para além dos sentidos agradecimentos a quem me dirigiu, direta ou indiretamente, palavras de simpatia e de apreço, quero, como nota final, deixar uma mensagem simples a todos os professores e educadores: podemos transmitir/ensinar muitos conteúdos aos alunos, mas O GRANDE CONTEÚDO SOMOS NÓS. Nós ensinamos muito mais o que somos do que o que sabemos.

    Pensem bem nas consequências desta simples verdade.

  4. Olá Boa Noite Luís Costa
    Talvez eu tenha tido a sorte, de ter sempre bons diretores, a quem posso dizer o que vai na alma. Uns mais ‘Professores’, que outros, uns mais humanos que outros, mas a todos eles devo a oportunidade da minha carreira (sem graxa). Agora falando de quem eles escolhem, para serem ser seus parceiros de direção ou seja ser seus ‘ouvidos’, e confiam plenamente…………….. isso é outra questão, e quando não verificam como pessoas e como professores, tornar-se o diz que diz-se………….aí sim. É a minha palavra, contra a colega/o da direção. Esses se calhar, nunca ninguém pensou mas não deverão ser escolhidos pelo diretor. Porque eu também não escolho os colegas com que vou trabalhar, nem a escolha, apenas o agrupamento. Até o nosso sindicado se contradiz, e eu reclamo e não concordo com tanta coisa, mas os amigos são assim. Democráticos e e com um pensamento livre, dando o nosso melhor dia a dia, e um dia de cada vez. E o que estragou tudo foram as avaliações, atiraram-nos uns contra os outros e só agora e aos bocadinhos, começamos a mostrar a colegas mais desconfiados que todos juntos somos invenciveís.

  5. Ser professor/educador é uma forma de estar na vida, a esses todos vão levar uma medalha de cortiça, trazer o trabalho na cabeça, e não ter reforma porque morrem cedo, e o centeno agradece.

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