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Regresso às aulas sem teste negativo à covid-19. Já há pais preocupados

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Assim que foi tornado público que os doentes assintomáticos ou com sintomas ligeiros da covid-19 podem regressar à comunidade ao fim de dez dias de quarentena, mediante determinadas condições, e sem a realização de um novo teste no final desse período, que os telefones da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP) começaram a tocar. Do outro lado, estavam pais preocupados com a nova realidade. “Os pais dizem que, se for assim, o filho que tenha covid-19 não vai à escola no fim desse período. Têm medo do estigma”, diz o presidente da associação, Filinto Lima, reclamando mais explicações sobre a medida.

Filinto Lima não está contra a actualização da norma n.º 004/2020 da Direcção-Geral da Saúde (DGS), da passada quarta-feira, mas lamenta que não tenha havido uma maior explicação para esta mudança nas regras. “Temo que isto possa causar algum alvoroço nas escolas, quando alguma criança que teve a doença regressar e os outros pais perceberem que ela não foi testada antes do regresso. Sabemos que são regras com base científica e que a situação evolui, mas é uma mudança substancial nos procedimentos, e deveria haver uma explicação cabal da tutela. Se isto não for explicado, irá sobrar para nós. Os pais o que querem é que se faça o teste, mesmo que seja mais um factor psicológico”, diz.

Manuel Pereira, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE), diz não ter recebido qualquer contacto relacionado com este tema, mas concorda que uma mudança de regras deveria ser acompanhada de melhor informação e percebe que se possa gerar alguma preocupação adicional num período já atípico para a actividade lectiva. “No caso das escolas, acho que todos os casos [de doença] só deviam regressar com um teste negativo, julgo que isso é que faria sentido”, diz.

Sem sinal de queixas sobre esta matéria está também Jorge Ascenção, presidente do conselho executivo da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), embora também ele perceba que a mudança possa causar alguma preocupação acrescida. “Perante uma situação em que há um certo alarme generalizado, obviamente que quanto mais relaxadas forem as medidas de segurança, mas os pais ficam desconfiados e um pouco na expectativa. Mas creio que temos de confiar nos especialistas e já tínhamos ouvido falar na redução do período de quarentena noutros países antes de ser aplicado cá. Acredito que a actualização está a ser feita com base no que se vai sabendo sobre a doença, e sabemos que o conhecimento vai evoluindo e as medidas vão sendo adequadas”, disse.

E foi exactamente isso que a directora-geral da Saúde, Graça Freitas, explicou na conferência de imprensa desta sexta-feira sobre a situação da pandemia. Questionada sobre se a actualização da norma da DGS se sobrepunha ao referencial para as escolas, que obrigava à existência de um teste negativo antes do regresso às aulas, Graça Freitas não foi taxativa, mas deu a entender que assim será. “A ciência, e o que se aprendeu, já permite saber que a pessoa [com covid-19] é infecciosa 48 horas antes de evidenciar sintomas. E sabemos que, nos doentes ligeiros, a capacidade de infectar vai diminuindo com o tempo, e que se não tiver febre nem sintomas, ao fim do décimo dia praticamente já não contagia ninguém. Daí ter alta clínica, poder sair para a comunidade e não precisar de um teste. Vamos aprendendo”, disse.

O período de quarentena de dez dias, sem necessidade de novo teste no final, só se aplica a casos ligeiros ou assintomáticos de covid-19 e quando os pacientes estejam, pelo menos, há três dias antes do final desse período sem febre (nem tomar medicação que possa mascarar essa febre) e com uma melhoria consistente dos sintomas. O isolamento profiláctico de pessoas que tenham tido contacto com um doente positivo mantém-se por um período de 14 dias, precisamente porque a período de incubação da covid-19 pode ir dos dois aos 14 dias, o que obriga a que estas pessoas continuem isoladas durante mais tempo, a fim de prevenir qualquer contágio, no caso de desenvolverem a doença.

Escolas sem grandes mudanças

As últimas semanas têm revelado um aumento de casos positivos em Portugal – esta sexta-feira, a DGS deu conta de 2608 novas infecções e 21 mortas nas últimas 24 horas -, mas os representantes da comunidade escolar são unânimes em dizer que, nas escolas, a situação está “controlada” e que o ano lectivo tem corrido sem grandes sobressaltos.

Filinto Lima e Manuel Pereira dizem não ter conhecimento de grandes alterações às regras de funcionamento impostas pelas escolas no início deste ano lectivo, embora reconheçam que possam existir alguns ajustes, decorrentes da situação específicas das escolas. Como aconteceu esta quinta-feira no Agrupamento de Escolas Rainha Dona Leonor, em Lisboa, com a introdução de uma norma que impede os alunos de saírem das instalações escolares durante os intervalos, com excepção da hora do almoço. Os alunos foram também informados “que não podem permanecer no passeio” quando deixam escola, por causa da proibição de ajuntamentos de mais de cinco pessoas, em vigor com a actual situação de calamidade, decretada esta semana para todo o país.

“As coisas estão a correr bem, acima das expectativas. No início de Setembro estava tudo a criticar, a dizer que as aulas não deviam ser presenciais, mas está a correr bem”, garante Filinto Lima. Manuel Pereira tem uma opinião similar, embora admita que há problemas de comunicação, nomeadamente entre as autoridades locais de Saúde e as escolas, que era preciso ultrapassar. “Está a correr muito bem e no essencial não há qualquer indicação para agirmos de forma diferente. As escolas estão a fazer tudo o que podem e, apesar do aumento dos casos de contágios, não é nas escolas que eles estão a acontecer”, diz.

A mesma opinião tem Jorge Ascenção e o representante dos pais até admite que gostava que se começasse a olhar com mais atenção para outros aspectos do ano lectivo. “As escolas não foram o factor primordial para o boom de casos que estamos a viver e percebo que ainda estejamos todos muito centrados nas medidas de segurança e em garantir que a informação circula. Mas estamos todos muito focados na questão da pandemia e o que ainda não sabemos é como estão a correr as aprendizagens, nomeadamente as recuperações do ano passado, que foi um ano perdido”, diz.

Fonte: Público

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