Home Editorial Reabrir a escola em segurança: é libertar a sociedade e é urgente!

Reabrir a escola em segurança: é libertar a sociedade e é urgente!

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Se as comunidades escolares não debaterem e não articularem uma visão mais estruturada sobre os seus problemas, a tão propalada autonomia de escola nunca passará de uma fantasia burocrática e nunca será o motor de vida democrática que devia ser.

Ontem, encontrei um amigo de longos anos, engenheiro e empresário, pai de 2 alunos do nosso sistema de ensino, que me resumiu o que pensa sobre a forma como o Governo tem tratado os problemas da educação com o Covid.

Surpreendentemente classificou o comportamento do ministro como criminoso, pela sua negligência e desleixo. E a justificação racional que lançou para o adjetivo pôs-me a pensar. O adjetivo não implica o dolo. O ministro e seus apaniguados não sabem, nem têm independência de espírito para mais. Isso não os desculpa, mas continuarem, fá-los culpados.
São só ineptos. Mas este “só” pode significar efeitos de décadas na destruição da vida de gente que não pode decidir por si. O meu amigo, pessoa ponderada e rigorosa, pôs uma emoção nas palavras que me leva a mostrar-lhe que, nas minhas limitadas possibilidades, não me abstive de provocar o debate sobre como vai ser setembro. Que não me desleixei, nos limites de um “professorzeco”. Admito que achem que exagero, mas este vai ser um daqueles momentos em que as gerações futuras nos vão perguntar como agimos, como os alemães dos anos 60 perguntavam aos pais o que fizeram nos anos 30.Nas escolas, as famílias e os professores não se devem abster de refletir e decidir.

À espera das novas do Ministro… 3 meses atrasadas

Estou a escrever enquanto espero pelas medidas que o ministro vai anunciar para o arranque em Setembro.
Mas a obediência ao que vai anunciar não pode ser acrítica e reverencial.

O ministro e seu grupo pensam mal e pensam pouco.

E, se em cada escola, se pensar localmente, de forma participada, talvez corra melhor. Uma das coisas que o meu amigo, homem de direita, me disse foi que o que se está a passar na forma como se vem gerindo a reação pública à crise tem “um cheiro forte a fascismo”. E a única forma de o cheiro passar na educação é reforçar o debate e a autonomia das escolas.

Não a autonomia dos diretores, mas a autonomia das escolas, das comunidades, baseada na profissionalidade dos professores e no cuidado das famílias pelos seus membros estudantes.
Antes de ter aquela conversa marcante (talvez mais ainda porque foi a primeira conversa presencial com amigos há meses) tinha feito um exercício de reflexão sobre problemas que a todos dizem respeito e que deviam suscitar reflexão estratégica e vontade de pensar soluções futuras.
No silêncio e na recusa da dialética nada muda e pouco se constrói.

O texto foi colocado nas atas de reunião de avaliação de todas as turmas em que sou professor e termina com uma lista de medidas. Porque me disseram que era despropositado para conselhos de turma, embora tenha teimado, chato que sou, em obrigar os meus colegas a conhecê-lo, decidi convertê-lo em moção para provocar o debate nos órgãos da escola. Vai ser debatido no meu Departamento.

E mesmo que seja chumbado (o que me palpita provável) vou tentar usar os mecanismos legais para obrigar os órgãos onde não estou a ler e debater o tema. Não devíamos ir para as merecidas férias, deixando estes assuntos por esclarecer e debater.

Espero não chegar a ter de invocar explicitamente os artigos do Regulamento Interno e das normas legais sobre gestão escolar e carreira docente que obrigam a que uma proposta de um docente deva ser debatida e votada em tempo útil nos órgãos (conselho pedagógico).
Espero que, mesmo aceitando que o texto é fraco, foi feito à pressa e podia ser mais profundo seja um pretexto que não aspira a ser mais que isso: uma provocação ao debate na escola. Deixar estes assuntos nas mãos de gente nula é um perigo. Devemos tomar o destino das nossas escolas, dos nossos alunos e o nosso como coisa prioritária nossa.

Muito importante é que as escolas tenham estratégia própria e não naveguem à bolina o vento revolto que sopra do Ministério da Educação. Por isso. As propostas finais, singelas, mas que, mesmo simplórias, são mais consistentes que a vacuidade que nos chega de Lisboa. Quem se cansar de ler os considerandos pode ir direto a elas.

E, se repararem, verão que não falo deliberadamente de segurança sanitária. A esta altura, esse assunto já devia estar resolvido pelos especialistas, com modelos de funcionamento seguros e com pés e cabeça. Se não está, que quem sabe disso, estude e os arranje e nos convença que são seguros.

Vamos fazer debater, refletir e fazer a autonomia de escola funcionar e não nos queixarmos só do centralismo?

Texto da proposta/moção

Considerações sobre a forma de funcionamento da Educação à distância no período de Março a Junho

O signatário considera e, desde sempre o disse, que as possibilidades do ensino à distância são muito entusiasmantes e abrem imensas possibilidades, mas tem de ser integradas na vida da escola e não ser olhadas de forma parcial ou desenquadradas do contexto geral de atividade.
1. Os mecanismos de suprimento do ensino, postos em prática, nestes meses, através de uma plataforma de educação à distância, foram um remédio provisório, frágil, paliativo, mal adaptado e cheio de constrangimentos técnicos e humanos.
2. Não foram um real e efetivo substituto do ensino presencial em sala de aula com contacto social e humano, mas sim um mero processo de adaptação parcial à emergência.
3. Houve vários constrangimentos que dificultam um balanço:
a. Verificou-se que a geração tecnológica, a que os nossos alunos pertencem, tem em número elevado graves dificuldades no uso um pouco mais profissional das tecnologias e adaptação à mudança e uso de novas ferramentas. É necessário reforçar o ensino do uso da tecnologia, quer nas disciplinas (e não só TIC), quer em tempo de apoio que, em vez de centenas de horas de “mais do mesmo”, podia passar a ter momentos para aquisição de competências de uso de tecnologia de acesso ao conhecimento (o que pode ser feito ao nível de escola e não precisa das sacrossantas orientações do Ministério).
b. O facto de aos alunos estarem em casa condicionou a forma de trabalho com indistinção entre trabalho escolar e vida doméstica;
c. Houve, em vários momentos, interferência dos pais e encarregados de educação, sendo patente, em muitos casos, que alguns trabalhos tem grande investimento de tempo e esforço dos encarregados de educação. Tal facto, dificulta a avaliação pois essa “ajuda” não é assumida, a sua menção gera conflitos e é insuscetível de prova.
d. Do mesmo modo, o plágio revelou-se um problema grave. Foi, por isso, muito avisado ter prescindido dos quadros de mérito, quer por a medida ser estruturalmente antipedagógica, quer porque seria ainda mais injusta nesta situação.
e. A situação reforçou as desigualdades no processo de aprendizagem, nomeadamente de acesso à tecnologia e de condições de vida e ainda os problemas de dificuldades de aprendizagem.
f. O sistema esteve dependente da boa vontade e disponibilização de equipamento por parte de professores e famílias, situação que se entende num contexto emergencial, mas não pode funcionar como rotina. Mesmo que se opte para futuro por soluções do tipo BYOD (Bring your own device, em que se use o computador ou outro equipamento pessoal) as questões de segurança, custos e manutenção tem de ser reguladas e não podem depender de boas vontades individuais sem coordenação.
4. Os próprios alunos dizem de forma esmagadora em questionários que a “Educação à distância” é pior que as aulas na escola, mesmo, e não é contraditório, que registem como muito positivo o esforço de apoio da escola e professores e aceitando que aprenderam alguma coisa neste período.
5. Têm, mesmo assim de ser reforçados mecanismos de controle no âmbito das plataformas com a sensibilização e colaboração dos pais (ex: os casos de alunos que estavam em chat ou telemóvel durante as aulas sem os docentes terem meios de os detetar).
6. Para futuro, os conhecimentos e práticas adquiridos não devem recuar, mas, mesmo em setembro, esta comunidade educativa deve ponderar que, sendo até desejável que existam formas de trabalho escolar à distância, deve haver uma enfase prioritária no regresso às salas de aula para todos os anos e ciclos. (….)
7. No respeitante à recuperação do que foi perdido nestes meses, quando questionado sobre “cumprimento de planificações”, no âmbito das reuniões do 3º período, declarou que, nas disciplinas que lecionou a esta e outras turmas, a planificação foi cumprida até ao momento em que ocorreu o confinamento (meados de março de 2020).
8. Nessa ocasião, além das adaptações técnicas e operativas, a atividade de ensino/aprendizagem sofreu adaptações nos conteúdos por redução (até porque houve recomendações para isso e era resultado da chamada força normativa dos factos, enfrentando a maior vaga de doença dos últimos 100 anos).
9. Manteve-se a lecionação, mas com adaptações ao nível dos conteúdos, resultantes das adaptações ao nível dos processos, que até lhe foram impostas (com redução de número de aulas com contacto obrigatório com alunos, contacto que manteve por agendamento permanente, mesmo durante as impropriamente chamadas aulas assíncronas).
10. Por isso, considerou bastante estranho que (…) se use a expressão “incumprimento” ou “justificação”, visto que nem é preciso apurar ao detalhe o que se passou para entender (basta ter vivido estes dias e conhecer o efeito generalizado da pandemia).
11. Em termos simples, não foi cumprido com a eficácia prevista na planificação o que estivesse planificado para o 3º período (mesmo que se aparente cumprimento parcial).
12. Assim, considera um ritual burocrático inútil (para mais, não se sabendo como vai ser o modelo educativo no novo ano) propor alunos para os apoios tradicionais. Aliás, se as aulas não funcionam na plenitude, não vale a pena desviar energias de pensamento e organização para suplementos de apoio de modelo tradicional, em nome da rotina burocrática. Indicar alunos para apoios é redundante: todos precisarão.

Propostas de reflexão para os órgãos da escola

Crê-se fundamental que, passada a reação inicial à emergência (ou à sua fase mais inicial), os órgãos da escola debatam com abertura a situação verificada e retirem lições aprendidas para futuro, quer ao nível organizacional, quer ao nível pedagógico.

Medidas estratégicas propostas

1. Reforçar o ensino das tecnologias, quer no currículo, quer com recurso a atividades extracurriculares escolares e apoios, a planear de forma objetiva e com tempo atribuído, sem recurso a conceitos vagos como “articulação” ou “transversalidade”
2. Definir normativamente no Regulamento Interno, em debate alargado, os processos de organização do ensino à distância, de forma a enquadrar melhor o ensino à distância como “teletrabalho para estudantes”, com consagração de fronteiras mais nítidas à intervenção familiar nos trabalhos escolares e aulas (criar limites mais nítidos nas normas entre a “escola em casa” e a vida doméstica);
3. Criar critérios normativos sobre plágio e trabalhos realizados por outros que não os alunos, de forma a resolver de forma justa a presunção de inocência que se teve de aplicar a situações que, na prática, são de fraude (mas que é difícil provar de forma objetiva, sem outros critérios);
4. Criar de raiz critérios de avaliação justos, eficazes e adequados à realidade de ensino à distância;
5. Coordenar com o Município e outras entidades, num âmbito planificado, as medidas de combate à desigualdade geradas pela aplicação de ensino à distância (e não de forma esparsa, pontual e até assistencialista);
6. Resolver de forma legal e justa o problema da disponibilização de equipamentos e acesso à internet para professores e alunos (e existir uma visão da escola sobre isso como posição de princípio);
7. Garantir de forma operativa (e até recorrendo aos meios de ensino à distância), e sem paralisar o planeamento por falta de orientações governamentais, que os alunos devem todos beneficiar de um plano de recuperação generalizado, organizado como projeto global e sistemático da escola e num grau muito diferente de realidades esparsas e pouco integradas como apoios ao estudo/CAA (ou outras designações em soluções de organização precária e confusa, para lá de eficácia discutível). Esse projeto pode ser dimensionado para todos num período inicial do novo ano em modelo presencial (e/ou ser complementar às aulas ao longo do ano, eventualmente em ensino à distância).


Viana do Castelo, 30.06.2020

Luís Sottomaior Braga
Docente do Grupo de Recrutamento 200 deste agrupamento

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