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Ranking Da Demagogia – Raquel Varela

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Deixemo-nos de demagogia, que cresce fértil no país, e será cada vez pior com a promoção da ignorância a que assistimos. Uma escola que está no fim do ranking não fez um bom trabalho porque “pelo menos os alunos comem, e não andam no tráfico de droga”. A escola é um lugar para educar e transmitir o pensamento científico às novas gerações. Não é uma cantina, um depósito de crianças, nem um departamento da assistência social. O professor é um educador, não é um mediador, nem um cuidador, nem um animador cultural. Uma escola com média de 1,7 em 20 é um lugar onde os alunos são analfabetos funcionais. Contra a direita segregadora que defende a lei da selva, uma parte da esquerda, com responsabilidades governativas, resume a sua política cada vez mais à defesa do Estado Assistencial em vez do Estado Social, universal, de qualidade. O direito à educação plena é basilar de uma sociedade democrática. Que andemos a discutir no século XXI que “pelo menos eles comem” não é um sintoma de boas políticas do governo, é a confissão do seu falhanço total. Estas escolas servem para produzir mão de obra para limpar centros comerciais às 4 da manhã por 2 euros e meio à hora e serventes de pedreiro. Há bolsas delas nas periferias e, sempre, não muito longe, de centros comerciais gigantes. É preciso parar para pensar em vez de embarcar em discursos bonitos. Estas crianças têm uma marca de pobreza, que a escola, assim, ajuda a reproduzir, em vez de ajudar a inverter. Discursos de bondade não só não resolvem como ocultam o drama da opção de fazer da escola não o lugar do conhecimento para todos mas a linha de montagem para o mercado de trabalho. A escola pública ou luta por ser de qualidade para todos, universal, ou o pagamento de impostos não tem qualquer retorno justo. Não acho que os rankings são a solução, mas afirmar que uma escola com estas médias, por critérios relativistas acientíficos, estaria no topo dos rankings é pura demagogia.

Raquel Varela

3 COMMENTS

  1. Há muito que a escola foi preterindo a instrução a favor de múltiplas funções. O problema não resultou da necessidade de a escola ter uma palavra em vários domínios, ainda que a multiplicação seja, em muitos casos, asfixiante, mas do facto de a instrução ter deixado de se afirmar como prioridade essencial. A escola é um lugar onde, com sorte, também se aprende!
    Infelizmente, nunca se consolidou na sociedade portuguesa o culto pelo saber e quando emergiu (a famosa geração bem mais preparada de sempre), não durou o tempo suficiente para se consolidar.
    No livro “O Olhar do Outro” [Relógio D’Água,2020], Filomena Mónica apresenta uma excelente compilação, muito bem contextualizada, sobre os estereótipos criados sobre Portugal entre o séc. XVIII e XX. Devo dizer que o meu amargo de boca não resultou da caricatura e das críticas, mas da transversalidade, pertinente, de algumas perceções que atravessam o tempo, e que, uma análise racional, não consegue, ainda hoje, contraditar. Uma delas é a desvalorização da cultura, do saber, que Filomena Mónica nos faz chegar pela voz do cientista Heinrich Friedrich Link, que nos visitou entre 1797 e 1799, e que “Em Coimbra, visitou o Jardim Botânico, tendo elogiado o seu «inspector», Avelar Brotero, que, na Universidade, ensinava a disciplina de Botânica. A propósito defende que, em Portugal, existem homens que são inteligentes, mas que é difícil encontrar gente que cultive as ciências apenas por amor ao estudo.” (p. 95)
    Os pobres continuarão cada vez mais pobres porque a escola lhes continua, em muitos casos, a negar a possibilidade de se apaixonarem pelo saber, os mais ricos e/ou empenhados, estarão “intelectualmente confinados” a lutar pela notas, pelas médias e não pelo saber que os levaria às notas pelo mérito (de uma forma ou de outra
    Nesta tragédia, alimentada pela obsessão pela moda e pelo sucesso a qualquer preço, cresce o universo de potenciais invisíveis, que arrastarão com eles a afirmação do país!

  2. Dos três D’s trazidos pelo 25 de abril, o terceiro D-Desenvolver está por cumprir. O grau de ignorância e subdesenvolvimento trazido do 24 de abril exigia um investimento equivalente em sentido contrário, o que não aconteceu. Sucessivos ME, foram empurrando o problema com a barriga e dourando a pílula com discursos ocos, otimistas e fantasiosos, esperando que o problema se resolvesse por si (os analfabetos faleciam, abandonando as estatísticas e a aprendizagem que circulava graciosa nas escolas acontecia por osmose, naturalmente, sem esforço), sem rombos no orçamento, porque o dinheiro fazia falta, de forma mais urgente e visível noutros sítios e nos bolsos de alguns. Com essas atitudes balofas e inconsequentes mais não fizeram do que alimentar a ignorância transgeracional e por consequência a pobreza transgeracional. O hiato não encolheu, foi alargado. Faltou cumprir abril. A escola apresenta-se como um elevador social avariado, em que já ninguém acredita e respeita, assim como aos seus agentes, os professores, que estão aí para ser espremidos por todos, e assinar certificados, muitas vezes em branco. Os professores já não sabem quem são e o que se espera deles, tão afastados têm sido do seu trabalho real. Nas escolas convivem em contramão diferentes tipos de professores, cada qual tentando salvar o dia e esperando poder olhar-se no espelho com alguma sensação de dever cumprido, dentro dos limites estabelecidos.

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