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Radiografia De Uma Reunião De Professores

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«Os professores, que (supostamente) gostam da escola e de estar com os alunos, não perdem uma oportunidade de conviverem com os adultos, de preferência com outros professores. O final do período revela-se como a ocasião propícia para exercitar o ritual do desabafo e do convívio onde todos estão estranhamente felizes, não sei se por se avizinhar o descanso, ou se por estarem sem alunos. E as reuniões são um dos territórios preferidos para essa confraternização.

Ao entrar pela porta da sala, de entre muitos géneros de sentimentos relativamente às reuniões, pelas expressões do rosto distinguem-se logo 2 grupos: os que estão mortinhos para sair e que, de preferência, se sentam mais perto da porta; e os outros que [não se sabe se resultado das «gotas» que tomaram ontem à noite ou se pelo facto de hoje não as terem tomado] irradiam histéricos sorrisos deixando antever a sua pouca vontade em regressar a casa, preparando-se para fazer a reunião arrastar-se até ao limiar da resistência humana.

A docente de História vem para a sala com o café na mão e ninguém repara, pois a maioria tem o organismo encharcado de combustíveis de reserva para conseguir estar ali com os olhos abertos sem recurso a molas da roupa.

Para quebrar o gelo, o professor de Ciências conta uma anedota e, para fazer o jeito, todos riem sem ninguém conseguir entender onde estava a graça.

Aproveitando a deixa, a professora de Moral oferece-se para interpretar um cântico de Natal, e todos enaltecem os seus dotes vocais, [mentem com todos os dentes que têm na boca para a calarem] mas pedem-lhe encarecidamente que poupe a garganta para a ceia de Natal onde, [já se sabe] ninguém a voltará a deixar cantar.

Os homens, em vias de extinção nas escolas, esfregam as mãos confidenciando que hoje o dia despertou vestido de frio. Eis quando senão, a colega de Educação Musical começa a abrir todas as janelas, perguntando se alguém se importa, pois está abafado. Num corpo docente maioritariamente na menopausa, todas manifestam concordância sob o olhar incrédulo dos colegas que, solidários com elas, anuem com a cabeça ao mesmo tempo que em simultâneo fecham os casacos até ao nariz e arrumam as mãos nos bolsos.

Quando todas as notas já estão lançadas, o professor de Ciências Naturais lembra-se de subir a nota ao Toninho. “E, já que subo a este, subo também aos outros 2”, remata. O professor de Matemática deita cá para fora algo que vai muito para além das notas, parecendo o casamento malsucedido da crise existencial com a crise de meia idade e massacra-nos com um algoritmo que desemboca no maquiavélico número 49% que irá dar pano para mangas. Desenrola-se um argumentário romanceado sobre a razão de ser ou não ser melhor dar um 3, eis a questão! A DT anota “Houston we have a problem! O Xico tem 7 negativas. É possível fazer alguma coisa, ou vamos preencher os 19 documentos para o plano dele? A colega de Português expõe “Bem, ele escreve o nome completo sem erros… e nunca faltou aos testes, isso reconheço. Por isso subo-lhe a nota para o motivar. O congénere de Matemática acrescenta “No outro dia acusaram-no de ter dado 5 bofetadas ao João e à Bia e ele, prontamente, desmentiu-os revelando grande agilidade no cálculo mental afirmando, palavras dele, “Mentirosos do c…, foram só 4, 2 bofatadas a cada um, não dei mais nada!”. Numa altura em que não há aluno que saiba a tabuada, tenho de valorizar o seu raciocínio lógico-abstrato expedito. A Cidadania, a professora partilha que quando o aluno foi injustiçado, defendeu-se de forma exemplar com argumentos justos, fazendo questão de o citar: “Juro pel’alminha da minha avó, qu’ainda na morreu (embora mê pai goste tanto dela, a quem chama carinhosamente de “Sogrinha”, que já lhe reservou um cantinho no São Mitério), que só tirei 5 aérios, só a eles os 2, ao Pedro e à Joana. Por isso, é mentira o que eles todos dizem de mim, porque aos outros nã tirei dinheiro nenhum, que na tinham nada na carteira. Eu próprio confirmei com estes olhos ca terra há de comer!”. Ela acrescenta “Não haja dúvidas que em Cidadania terei de lhe dar positiva, pois o sentido de justiça do miúdo é apurado e, além do mais, preocupa-se com a avó demonstrando valores, afeto familiar e respeito pelos idosos acima da média. Pensando bem, vou subi-lo para o nível 4.” Depois de mais alguma reflexão e acertos, eis quando o professor de Educação Visual, que há já algum tempo transpirava abundantemente, desabafa que, perante o panorama geral, também ele irá subir a nota do Xico, uma vez que a taxa de sucesso definida pela escola para a disciplina se cifra nos 99%, o que correspondia a meio aluno com negativa, e ainda não se havia decidido por qual das partes deste teria de anotar como não tendo sucesso, se os membros, ou o tronco e a cabeça. Juntam-se mais alguns professores à reflexão e, pouco depois, a pauta provisória da DT mais parece um tabuleiro de batalha naval, com a diferença que neste os navios afundados ressuscitam dos mortos e voltam a flutuar. No fim, não se sabe bem como, quase não há negativas, afinal é Natal e reina o espírito solidário e a amizade com todos, incluindo com as criancinhas, algumas das quais não pegaram num livro todo o período. Mas, desde que tenham comparecido às aulas e feito um ”X” no sítio destinado a assinarem o nome, já demonstraram interesse suficiente para a positiva em vários parâmetros e vão ao encontro da proposta do ministério de acabar com os «chumbos» por não serem favoráveis, nem aos alunos, nem aos cofres do Estado.

É nesta altura que, para bem das irrealistas metas dos resultados escolares e para que ninguém venha a ter reclamação das notas dos papás que afirmam ter uns filhos que são uns génios (deve ser só em casa, porque por aqui ainda ninguém se deu conta disso), fazemos uma introspeção e nos questionamos “Preenchemos tanto papel para quê e andamos em grandes enredos numa interminável novela de burocracia se no fim passa toda a gente e todos vivem felizes para sempre?!”

A professora de Educação Especial chega apressada vinda de outra reunião e começa a ler o relatório do aluno que acompanha. Chega-se à conclusão que o aluno com medidas seletivas é o que menos precisa delas, pois todos os outros deveriam ser encaminhados, embora a todos eles só lhes falte empenho e responsabilidade. Apercebendo-se que se continuar na reunião por muito mais tempo lhe será atribuída uma lista interminável de alunos para acompanhar, a professora depressa nos deseja boas festas e despede-se.

Há muito esgotados os 15 minutos de concentração, já todos estão à volta dos telemóveis enquanto outros se perdem em conversas paralelas.

Este é o momento em que não te admiravas nada de, no meio da confusão, saltarem uns pregões “Ó freguesa, hoje o chicharro está ao preço da chuva!”, “É de aproveitar. Por 2 patacos, paga 1 e leva 3 pares de peúgas e ainda oferecemos umas cuecas!”. Nesta ocasião, em que – fruto de preencher papeladas até de madrugada – passaste uns instantes pelas brasas, ao abrires os olhos, por momentos ficas na dúvida se estás na reunião ou na feira da ladra. A Diretora de Turma pensa “E estes são os professores que passaram metade da reunião a queixarem-se do comportamento dos alunos durante as aulas!”

É a altura estratégica de a DT sorrir e tirar do saco o bolo que fez ainda de madrugada, depois de acabar de preparar a ata. A presidente da reunião acelera a velocidade a debitar palavras por segundo, mas já ninguém a está a ouvir. Sol de pouca dura. A professora de Inglês verbalizou que o bolo está uma maravilha e logo todos querem a receita. Neste ponto da ordem de carga de trabalhos a DT já se arrependeu de não ter posto no bolo laxante em vez de açúcar para ninguém a interromper com questões colaterais.

Quando a hora de terminar se aproxima, começa o muro das lamentações a contar o que acontece na aula de cada um. Já todos sabemos disso! Hello, todos nós temos esses alunos! Momento para a professora de Português brilhar e mostrar que é a melhor pessoa do universo e arredores: “Comigo os alunos não fazem nada disso! As minhas aulas são uma maravilha. As crianças são o melhor que há no mundo. Só temos de fazer assim, assado e grelhado…” e começa um rol de chavões de pedagogia que todos nós já sabemos e implementamos desde a anterior reencarnação. Enquanto ela vai discursando, os presentes já só conseguem escutar “Eu sou boa, os alunos adoram-me, eles amam-me… blá, blá, blá” e todos pensam “está aqui alguém com falta de afeto!”.

A discussão altamente pedagógica acerca dos resultados escolares dos alunos vira novela, e começa a falar-se do pai da aluna e da avó que é vizinha daquela que andou metida com o outro… e neste momento arrependes-te amargamente de não teres trazido para a reunião o teu cesto de roupa suja, pois escusavas de gastar eletricidade a lavá-la em casa.

Enquanto uns estão a hiperventilar, outros a bufar ou com os calores e falta de ar, a precisar de máscaras de oxigénio devido ao adensar do ar na reunião, a colega de Moral volta a investir na tentativa de se fazer ouvir nas lides do canto. O professor de Educação Física que durante toda a reunião se manteve de olhar vidrado a olhar para o vazio sem dar sinal de vida, não aguenta mais e levanta-se e vai lá para fora, enquanto outros vão até à janela e o colega de ET começa a respirar para dentro saco de papel que foi fazendo ao longo da reunião, enquanto conta até dez pausadamente para não desfalecer.

Instantes depois, para satisfação de uns é autorizada a saída enquanto outros permanecem nos lugares a conversarem até serem desalojados. DT e secretário ficam imersos em papéis enquanto todos sorriem de satisfação por mais uma reunião que correu dentro da maior normalidade… momento em que se apercebem que a professora de Educação Especial não assinou a ata e já está em viagem a caminho de casa no outro extremo do país…

O secretário, Carlos Santos»

Texto do colega Carlos Santos

 

10 COMMENTS

  1. Qualquer pessoa que leia isto, percebe que os cartazes que vemos à porta dos nossos filhos a dizer “valorizem os professores” têm de mudar para “valorizem-se, professores”.
    Que pena que os nossos filhos estejam nas vossas mãos.

    • Se fosse assim, a senhora pode tornar-se professora e educar os seus rebentos como acha melhor. Já há falta de professores, espere mais um tempinho, e nem estes que fazem textos humorísticos destes vai haver. Pense antes de cuspir no prato em que come.

  2. Não sei por que motivo tenho NOJO de quem publica coisas assim… sem ter mais nenhum dos presentes nessa reunião a corroborar… Ou seja, fala de uma REUNIÃO imaginária… aquela que NUNCA existiu (a não ser na mente do redactor!)… E, ainda que tenha presenciado algo que se possa caricaturar dessa mneira, tenho as minhas sérias dúvidas que possa ser tão caricata…! Aliás, se é professor, esse tal colega, daria um óptimo secretário… mas da Assembleia da República! Mas há algo de que não tenho dúvida e que esta (pseudo)ata deixa transparecer: de factos, pouco ou quase nada; de imaginação: fértil, seguramente; de relato que se digne de constar numa ata… ZERO…! Lamentável.

  3. É lamentável que um professor escreva coisas deste calibre.
    A classe anda desprestigiada? Pudera, com textos destes não consegue reabilitar-se.
    Lamento a perda de tempo, Professor Carlos Santos.

  4. É lamentável ler isto. Nunca vivi esta situação nem me revejo nesta descrição triste e doentia de alguém que admite que só possui 15 minutos de concentração, mas deve exigir muito mais dos seus alunos.
    Depois admiramo-nos que digam de nós o que não gostamos de ouvir e ler.
    Sugiro que retirem esta publicação.

  5. Eu acho o texto fantástico. Uma peça de humor. Cada um que interprete com o seus preconceitos, ou não. Pegar em palavras que são escritas com um estilo a que já referência é completamete estupido e fútil… revela uma cultura abaixo da média… muito abaixo.

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