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Quietos, calados, mascarados e fechados – Eduardo Sá

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A infância das crianças nunca foi tão “cor de rosa” assim. Até porque — ao contrário daquilo que muitos afirmam hoje, a propósito das regras a que estão sujeitas na escola, por exemplo — elas não se adaptam a tudo. Nunca estão tão distraídas como se vaticina por aí. E são, todas elas, tão sensíveis e tão inteligentes, que não há como passarem “ao lado” de todas as coisas a que são expostas. Que fazem da infância, ao longo dos anos, um lugar com muitas sombras. Que nos leva, à maioria de nós, a tentar consertar, pela vida fora, as “cicatrizes” de uma infância que todos queríamos que tivesse sido mais feliz.

É verdade que se convencionou dizer que a infância das crianças é, “regra geral”, livre e despreocupada. E que parece que, quando a vivemos, a nossa infância se espreguiçava pelo tempo, sem sobressaltos nem dor. Mas raramente a infância duma pessoa se passa assim. A infância é, muitas vezes, muito triste. Tem muitos mais momentos de desamparo do que devia ter. Brincaram connosco e contaram-nos histórias menos do que devia ter acontecido. E sentimo-nos, vezes demais, assustados, atormentados, demasiado pequenos e sozinhos. Aliás, não fosse a nossa infância aquilo que foi e nenhum de nós se teria sentido tão condicionado, em tantos momentos, por tudo aquilo que, por causa dela, acabámos por acumular. Que fez com que os nossos desempenhos, os nossos amores, a forma como nos damos socialmente, as nossas escolhas ou os trilhos que acabámos por percorrer se tivessem enviesado como, muitas vezes, acabou por acontecer com todos nós.

A relação da escola com a infância também não foi, ao longo do tempo, tão cheia de experiências boas como todos teremos desejado. É verdade que o ensino obrigatório resgatou milhões de crianças para a infância a que, doutra forma, não teriam direito. Mas a escola como uma experiência de “recreio” ou de pessoas bondosas que nos levavam pela mão conhecimento adentro não foi bem assim. A nossa escola nunca foi tão livre, tão entusiasmante e tão justa como todos gostaríamos que tivesse sido. Nem teve tantos professores “especiais” como gostaríamos muito que nos tivesse dado. E estigmatizou muitos amigos nossos como se fossem “pouco inteligentes”, sem que os tivesse resgatado para o conhecimento com teria a obrigação de o ter feito.

Por isso mesmo, quando — hoje — os nossos filhos têm de estar na escola quietos, calados, mascarados e fechados reagimos com algum mal-estar, mas com complacência demais. Como se os perigos de que os queremos proteger se sobrepusessem aos custos de um tão inusitado confinamento. E, por isso mesmo, como se aquilo que a escola exige às crianças não justificasse qualquer contraditório da nossa parte. O que não é verdade.

As crianças não ganham se tiverem aulas durante muito tempo. Não aprendem mais. Nem aprendem melhor. O enfado ou o cansaço descentra-as daquilo que lhes é pedido. Desconcentra-as. Distrai-as. Inquieta-as. Logo, quanto mais as aulas se prolongam menos elas aprendem.

As crianças não ganham se não tiverem recreios. Tê-las quietas, caladas e fechadas obriga-nos a dar-lhes recreios mais generosos. Muito acima dos 5 minutos que muitas escolas, a pretexto do coronavírus, entenderam atribuir-lhes. E acima dos 10 minutos de recreio do “antigamente”, que lhes dava 3 minutos para irem à casa de banho, 3 minutos para comerem o pão e 4 minutos para brincarem. Escolas que desconsideram o recreio comprometem o aprender.

As crianças não ganham se não se “misturarem” umas com as outras. Se não se socializarem. Se não conviverem com outras crianças de outros grupos e, até, de outras idades, em espaço aberto, sem constrangimentos e sem isolamento. É verdade que um segundo de conversa entre duas elas gera dez microgotículas que podem transportar coronavírus. E que, daí por diante, o risco será sempre a multiplicar. Mas escola e isolamento social não casam tão bem como, por vezes, pode parecer. E se o isolamento social parece “favorecer” as crianças “tímidas”, por exemplo, a prazo, tanto isolamento faz mal ao desenvolvimento de todas as crianças.

As crianças não ganham se — como alternativa ao brincar, às correrias ou ao falar “pelos cotovelos” — a escola “fechar os olhos” à utilização de telemóveis nos intervalos das aulas. Mesmo que eles decorram na própria sala de aulas. Incentivar a que se virem sobre si ou favorecer que joguem em rede, na sala de aula, não é uma compensação sensata que desvalorize os custos de não terem recreios. Logo, a escola terá de ponderar outras alternativas para os tempos livres de que as crianças necessitam para que, em contrapartida, elas aprendam melhor.

As crianças não ganham se o tempo em que estão na escola se estique, em função da gestão desencontrada de tempos de entrada na escola, dos tempos livres desencontrados e etc. A ideia que a escola favorece as bolhas e que as bolhas protegem o desenvolvimento das crianças não é razoável nem prudente. Sobretudo se ponderarmos em todos os aspectos que o estimulam. E não pensarmos só no coronavírus.

As crianças não ganham se, num contexto tão adverso como aquele em que estão a viver, a escola lhes atribuir muitos trabalhos de casa como forma de as “compensar” dos sobressaltos de um dia a dia escolar muito difícil para todos. Trabalhos de casa “em cima” de actividades extra-curriculares que, por sua vez, surgem em cima de ateliers de tempos livres (que, finalmente, surgem “em cima” das aulas) não ajudam nada a criar uma atmosfera “respirável” diante de todos os obstáculos à liberdade de aprender com que as crianças se deparam, todos os dias.

As crianças não ganham se a comunicação entre elas e as pessoas crescidas tiver sempre uma máscara a separá-las. Concordando que ela possa ser indispensável em contexto de escola, aquilo que se diz com a voz e com os olhos não é acompanhado pela linguagem de todos os músculos do rosto. Logo, a linguagem das máscaras tem demasiadas interferências e sussurros em demasia. E traz muitos mais mal-entendidos. Logo, obriga-nos a ser (ainda) muito mais claros em relação aquilo que dizemos e ao modo como o fazemos. Para que a escola não crie os desencontros que as prejudiquem.

As crianças não ganham se, depois de tanta escola em condições tão pouco amigáveis, tenham todas as actividades extracurriculares que, dantes, tinham. Tanta contenção durante tanto tempo faz com que elas fiquem mais “eléctricas”. Mais “impossíveis”. E mais indisciplinadas, até. Na sala de aula. Como ao chegarem a casa. E, sobretudo, se as “dificuldades de concentração” ou os “défices de atenção” que tantos lhes atribuem – como se nada disso tivesse a ver com o tempo em que as “temos” fechadas, a forma como as empanturramos de conhecimentos e lhes “cortamos” tempos sobre tempos para brincarem – continuarem a ser vividas como uma espécie de epidemia atípica de crianças do que, propriamente, uma consequência da insensatez com que as temos vindo a privar da sua infância.

Em resumo, a  infância das crianças nunca foi tão “cor de rosa” como, tantas vezes, desejámos que fosse. Nem a escola foi sempre tão amiga do desenvolvimento delas todas, ao longo dos tempos, como teria sido a sua obrigação. É verdade que, hoje, lhes damos mais atenção e nos preocupamos, como nunca com a sua educação. Por mais que elas cresçam mais protegidas, crescem, também, mais fechadas, menos autónomas e menos livres. E crescem sempre a desafiar o perigo de deixarmos que “a linha” que separa a escola enquanto direito fundamental da escola enquanto trabalho infantil do século XXI se dilua e se confunda. Fazendo com que a escola se transforme no maior dos obstáculos da infância. O que não seria nem sábio nem justo.

Mas ter as crianças — nos próximos 9 meses! — quietas, caladas, mascaradas e fechadas, sem nos preocuparmos  todos com aquilo que é fundamental para que não se estrague a infância e não se comprometa o seu desenvolvimento não é razoável. Temos, (pais e professores) todos juntos, de encontrar formas de as compensar de todos os exageros a que as estamos a expor. De forma a recuperarmos a infância a que têm direito. Nem que, para tanto, aproveitemos as condições mais difíceis com que todos já vivemos a escola, e todos estes sobressaltos, para podermos reinventar a escola. E, então sim, criarmos as condições para que sejam mais felizes.

Observador via VozProf

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