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Quero Deixar De Ser Professora

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Um dia eu tive um sonho. Um sonho lindo que sonhei e corri atrás. Vivi intensamente esse sonho onde me realizei pessoal e profissionalmente. Passadas mais de três décadas este já não é o meu sonho. É um pesadelo diário de centenas de papéis, de burocracias inúteis que me impedem de fazer e ser a única coisa que fazia parte desse sonho – ser professora e fazer crescer em plenitude os meus alunos. Já não me sinto parte desta escola, não encontro a mística que me movia a fazer sempre melhor. Hoje quero urgentemente deixar este caminhar doloroso numa história onde não me revejo. Estou cansada. Posso até partilhar da minha experiência de 30 anos de professora por esse país fora. Mas esta não é de todo a escola do meu sonho e que vivi durante largos anos, como aluna e como professora.

Perdi as palavras pelo caminho e tinha sempre as mãos e os bolsos cheios de palavras. Palavras menos geométricas, livres, menos gramaticais, mais etéreas. Palavras que ninguém queria dizer pois ficavam para lá dos pontos finais e de interrogações, das reticências e dos pontos e vírgulas. Rasguei com as palavras todas as pontuações e os silêncios covardes. Nesse tempo nenhum pensamento morria por falta de ar porque nenhuma raiva ou ternura ficava por dizer e as palavras exclamavam sentimentos e desatavam os nós das gargantas onde tudo tinha significado, razão, linguagem. Pedaços de vida em palavras onde nenhum brado, paixão ou razão virava invertebrado, porque gritados saiam do peito. Em bandos as palavras saiam das gaiolas para cantar ao sol, ao céu, ao sonho.

Agora nas minhas mãos já não tenho palavras em bolas de sabão, nem ideias sem eira nem beira, não tenho palavras meias redondas ou de algodão. Devo cumprir a receita, ditar o que está no imposto para manter viva a existência seca sem mundos que se inventam quando se ensina a sonhar.

Gostava de voltar a ensinar com as condições necessárias para tal e adaptadas às exigências dos alunos e deste século. É impossível um ensino de qualidade com turmas de 28 alunos. É inviável a esta altura ter 7 turmas com este número de alunos e ser directora de turma efectivamente, mergulhada numa montanha de papéis. Pretendo ver contabilizado o tempo que foi prestado, todo. Pretendo que considerem a redução da idade da reforma com urgência. Somos efectivamente uma profissão de desgaste rápido.

Um docente com 30 anos de serviço está, neste momento, completamente exausto. Tenho assistido a situações dramáticas de colegas a colapsar. O modelo de gestão das escolas é um modelo de ditadura onde se humilham, ameaçam e chantageiam professores. Isto é inadmissível. Claro que tudo advém do modelo de avaliação dos docentes e directores que matou o companheirismo, a colaboração e cooperação entre colegas.

Como não considero que uma escola possa sobreviver sendo vista como uma empresa ou fábrica de peças não posso aceitar este instigar da competição ao invés da alma colegial que vivi e sei que sempre teve melhores resultados.

Pretendo que as pessoas, alunos, docentes e não docentes sejam muito mais importantes que infinitos relatórios, dossiers muito bem organizados e gráficos de todas as cores. Quero que se ressuscite a alma das escolas, porque só assim poderemos ter uma escola com alunos e professores felizes. É  na felicidade e nos afectos que crescem relações que permitem ensinar conhecimentos, ensinar a crescer, ensinar a ser e soltar novamente as palavras que estão presas nas mordaças do politicamente correcto… E eu não consigo viver num mundo de poemas quadrados.

Maria do Rosário

Professora do 2º ciclo do Ensino Básico

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6 COMENTÁRIOS

  1. Comungo da reflexão e do desabafo da nossa colega. Neste mesmo blogue há quem defenda uma ADD ainda mais tirânica, ainda mais exclusiva, que separa, que convida à emulação, que desperta o que de pior há em cada um de nós. Quem tal defende deveria tentar ser empresário, não professor. Se a escola quer contribuir para mudar a sociedade, não deve incorporar nos seus processos o que a sociedade tem de errado, reproduzi-los ao invés de transformá-los. Se queremos uma sociedade altruísta e de cooperação entre pessoas e instituições, então estamos a fazer tudo ao contrário ao querer seguir o modelo das empresas que procuram comer-se umas às outras.

  2. Belíssimo texto!! Aliás, antes de visitar o blog, tinha iniciado a redação de um texto exprimindo desânimo idêntico, mas com o objetivo de enviá-lo ao Marcelo. Ele tem de saber quão mal nos sentimos e injustiçados somos. Faço minhas as suas palavras, colega.

  3. Esperem quando estiverem anos a fio à espera de vaga para os acessos aos 5º e 7º escalões e serem ultrapassados,qual via verde, por alguém bem mais novo. Enfim…

  4. É um sentimento comum a muitos professores atualmente e infelizmente nao se ve uma saida parabens um lindo texto com imenso significado,partilho integralmente.

  5. tal como a colega, ao fim de 33 anos de serviço, quero deixar de ser professora. Exaustão, frustração, humilhação…são algumas das palavras que definem o meu atual estado de espírito. Cada vez mais, eu que nunca fui de faltar, tento arranjar argumentos para não ter que pôr os pés na escola. Os alunos são cada vez piores, não querem aprender e só se sentem bem ao boicotar as aulas (não importa a forma). A palavra Respeito desapareceu do dicionário dos nossos alunos e, tal como a colega refere e bem, dos Diretores que não perdem uma única oportunidade para fazer valer a sua prepotência atrás da qual escondem toda uma incapacidade para dar aulas ou assumirem uma Direção de Turma. É urgente mudar. Tudo está invertido: polícias são presos; professores são agredidos; Enc. de Educação ameaçam e desmentem professores. E o que fazem os nossos políticos? Lançam os professores às feras fazendo deles a pior espécie profissional que alguma vez existiu. Deixem-se de idealismos, venham ao terreno ver como são as coisas…Só me interrogo: como seremos governados no futuro?

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