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Queres a verdade? Não interessa o que sabes, interessa a nota que tens…

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A verdadeira essência de ensinar é o professor transmitir algo e o aluno aprendê-lo. A escola sempre teve um ensino vertical, mas surgem cada vez mais vozes a defender um ensino mais horizontal, onde o aluno é o motor e o professor apenas o volante.

Enquanto professor fui formatado para ensinar sendo eu o motor e o volante, é um problema de matriz e dificilmente conseguirei mudar a minha forma de ensinar sem eu próprio ser reformatado. Mas será isso que querem de mim? Por onde anda essa reformatação? Será que ela existe? Será que é suposto abdicar do motor? Não sei… e julgo que sozinho nunca irei saber. Aliás, o tempo que perco em papéis, pouco me resta para pensar, ser e fazer diferente.

Esta reflexão a título pessoal, julgo que pode encaixar em milhares de professores. Não se trata de dizer que a fórmula “A” é a correta e a “B” a incorreta, no final do dia o que interessa é que os nossos alunos aprendam.

Por isso pergunto-vos? Os nossos alunos estão a aprender? Os nossos alunos absorvem os conteúdos? Ou os nossos alunos apenas memorizam para depois “cuspir” numa folha de teste/exame e passado alguns meses já nem se lembram do que aprenderam?

Vivemos a cultura da nota! Pouco interessa o que reténs para o futuro, interessa sim a nota que tens e a média com que ficas…

Eu não gostava da escola, não gostava de estudar, achava tudo uma grande seca e perguntava-me muitas vezes para que é que eu preciso de saber isto? Passado tantos anos, muitos conteúdos foram enviados para a reciclagem, aliás, muitos conteúdos já nem se ensinam na escola…

Claro que hoje tenho uma opinião mais moderada, mas a essência mantém-se… Temos um ensino muito teórico, rígido, pouco autónomo, onde o professor mais não é que um motor e um volante numa estrada de sentido único, sempre com a mesma paisagem e carregadinha de metas, metinhas e exames… muitos exames.

Não gosto de ouvir a minha filha de 8 anos dizer que não gosta da escola, não gosto de ouvi-la dizer que não tem tempo para brincar, para ser criança… Enquanto professor estou cansado do discurso em loop de que a escola é importante, de dizer que tens de estudar para teres uma vida melhor, quando no fundo só me apetece dizer. Isto não é para gostares, é para comeres e calares… Não percebes que ninguém quer saber se gostas ou não gostas? Acorda para a realidade!

Mas será proibido os alunos gostarem da escola? Será que fica tão mal que os alunos se sintam bem na escola? Que gostem de aprender? Se sintam peça importante no processo de ensino?

Afinal, temos medo do quê? Medo de sermos ultrapassados por eles? Medo de não aguentar a pedalada? Medo de fazer diferente? Medo de ser diferente?

Provavelmente temos medo do que não sabemos, temos medo de sair do nosso conforto, do nosso padrão, da nossa rotina, da nossa bolha… Escudamo-nos nas dificuldades da profissão, nos congelamentos, ordenados, indisciplinas e afins, mas na sala de aula quem se lembra dessas coisas? Ou somos uma derrota do cansaço?

Gostava de ver um ensino onde os miúdos fossem felizes, que ansiassem pelo dia seguinte, e que não vibrassem tanto com as férias ou quando o professor falta. Gostava de ver um ensino onde os professores se sentissem felizes e não se sentissem uns trapos, uns meros robôs de políticas educativas ziguezagueantes…

Utopia? Completamente! Demagogia? Só pode! Mas o sonho comanda a vida… e enquanto professor e pai só me resta mesmo o sonho… Até um dia……………….. até esse dia…

Alexandre Henriques

“Devemos conseguir que os alunos aprendam e não apenas prepará-los para os exames”

(Entrevista ao professor César Bona – Observador)

(…)

Criatividade. É um ponto em que insiste bastante. Como se pode estimular a criatividade dos alunos?
Sobretudo escutando, deixando-os falar. Não temos que ver as crianças como um recipiente que temos de encher de conhecimento.

E porque é que há professores que não estimulam essa criatividade? Dá mais trabalho? Falta tempo?
Não creio que seja uma questão de trabalho. Acho que quando nos tornamos adultos, esquecemo-nos de que fomos crianças. E quando trabalhamos com crianças devemos sempre lembrar-nos da criança que fomos. Assim vamos entendê-los melhor e eles entendem-nos melhor também.

Mas optar por um método de ensino em que se deixa a criança falar e em que se estimula a criatividade exige mais trabalho e disponibilidade da parte do professor do que uma aula expositiva. Ou não?
Não creio que dê realmente mais trabalho. Diz isso porque, por norma, a educação tem sido assim, expositiva. Temos vindo a criar metas individuais quando somos seres sociais. Em muitas aulas as mesas e as cadeiras estão voltadas para o quadro. Isso significa que o tipo de interação que queremos é que nos escutem e que repitam. Mas se vamos educar para a sociedade, temos de estimular o diálogo, a reflexão, o respeito.

(…)

4 COMMENTS

  1. Sejam bem vindos ao Mundo-Cor-de-Rosa do professor César Bona… A entrevista publicada no ”Observador” é o que eu chamaria de ”painço para os verdelhões” … Nada melhor que combater os inimigos com as suas próprias armas!

  2. É o ”velho e relho” ”aprender a brincar”… Esta cantiga da ”inovação educativa” já a leio nos velhos catarpácios desde que queimo a pestana…
    Ainda me lembro, já começo a ser a ser de facto muito vetusto… dos meus verdes anos de adolescência… Nesse tempo era aluno de um velho mestre que nos matraqueava as declinações do Latim como se fosse em ferro frio… Nos seus olhos pequeninos , e sábios, no seu modo de velho vate, adivinhava-se um certo desprezo condescendente para com uma turba que bocejava enquanto ele traduzia , admiravelmente, Políbio nas Guerras Púnicas. Hoje percebo como era, ainda sou, terrivelmente ignorante, se comparado o Padre António: sábio! Com ele tantas vezes nos explicou, magalas calaceiros, que o conhecimento era um duro caminho de pedras! Tudo o resto são enganos e vazio… um temível vazio!

    • Não confundir, “brincar” com desleixo, indisciplina ou falta de orientação. Os “velhos do restelo” usam sempre esse argumento como se “brincar” fosse o anti-cristo do ensino…

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