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Queque

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Os corredores do hipermercado fervilham na azáfama de sexta-feira à tarde. As pessoas circulam apressadas e alheias à presença dos outros, a deitar contas de cabeça ao muito que ainda têm de fazer, o cansaço de uma semana de trabalho a vergar os braços que empurram os carros. As filas das caixas alongam-se como carreiros inconsistentes de formigas, as pessoas enervam-se com a demora, a impaciência percebe-se nos olhos e nos gestos.

fila supermercadoA fila mais curta é a da caixa prioritária, onde algumas pessoas arriscam a espera, lançando de quando em vez olhadelas furtivas por trás do ombro, pesando a eventualidade de alguém vir a usufruir do privilégio de passar à frente. Uma senhora abeira-se do início da fila e declara, num tom desnecessariamente alto: “desculpem, mas esta caixa é prioritária e eu tenho o direito de passar primeiro, porque trago uma criança!” As pessoas olham para ela, num misto de aborrecimento e resignação que rapidamente se transforma em surpresa. A senhora é alta, jovem e vistosa. No braço traz uma graciosa carteira de onde espreita a ponta de uma revista, na mão o telemóvel de capa cor-de-rosa. De compras, nem sinal; criança, muito menos.

Alguns metros atrás, vem o carrinho das compras, uma pequenita sentada na cadeirinha meneia-se rapidamente para um lado e para o outro, agitando uma nuvem de caracolinhos loiros que voam em todas as direcções como pequenas molas douradas, o homem a empurrar, meio escondido atrás da miudita, talvez encavacado com o despudor da senhora.

As pessoas olham para ela, embaçadas com o espavento da situação, uma senhora ainda repara: “mas a menina já é crescida… e nem está ao colo”, mas já a outra puxou o carrinho para a sua beira, já estabeleceu um perímetro só seu na frente da passadeira rolante, escudada na postura defensiva da anca, já abalroou o respeitável público com o seu arrojo justiceiro. Absolutamente indiferente aos olhares fuzilantes, às respirações ruidosas e iradas, ao bater recriminador dos pezinhos, a senhora continua a distribuir as compras no tapete rolante, até que a pequenita perguntou: “mamã, onde está o meu queque?”

A senhora interrompe a tarefa para oferecer à menina um sorriso tranquilizador: “deve estar aqui no meio das compras, querida. A mamã já dá.”

“Quero agora”, reivindica a garota, “quero agora, tenho fome”. A senhora deita ao homem um olhar interrogativo e dirige-se-lhe pela primeira vez desde que estão ali: “Ó Artur, que é do queque da menina?” O Artur encolhe os ombros, embaraçado, e meneia discretamente a cabeça para um lado e para o outro. Ela devolve-lhe um olhar inquisitivo, sobrancelhas franzidas de insatisfação, e murmura: “Não trouxeste…?”

Ao que ele repete o movimento negativo da cabeça. “Então tu não viste a fila para a padaria? Mais de trinta números à nossa frente!” justifica-se, corado. E acrescenta, abrindo muito os olhos, como quem quer fundamentar a sua razão: “E tu estavas cheia de pressa, não estavas?”

“Ó Artur, deixa-te de desculpas! Parece impossível! Sabes bem que a miúda quer aquele bolo sempre que vimos aqui! Ela está farta de o pedir, desde que entrámos! Valhamedeus, Artur! Era só o que faltava!”, metralha, a irritação a serrar-lhe os dentes. “Anda, mexe-te!”, instiga-o. O Artur olha-a aturdido e um “quê?” sumido e raquítico solta-se dos lábios secos.

“Vai lá buscar a treta do bolo!” berrou-lhe, abespinhada – e virou-lhe as costas para ensacar os últimos artigos. A menina da caixa, aturdida, ensaia o discurso da sensatez: “a senhora desculpe, mas isto não pode ser… a senhora passou à frente dos outros clientes que já estavam na fila e agora não é correcto ficarmos aqui todos à espera do senhor… quer dizer… do queque… não é?”, terminou, a voz a sumir-se-lhe na garganta à medida que a senhora endurecia o olhar e a postura, os ombros levantados e o corpo empertigado em posição de guerrilha.

“É que nem pense! Era o que faltava! Eu tenho os meus direitos, ouviu? E não vou permitir que ninguém os ponha em causa, ouviu bem? Nem a senhora nem ninguém, percebeu? Não querem lá ver? O seu patrão não lhe ensinou que o cliente é que tem razão? Não sabe que eu posso pedir o livro de reclamações? Ora essa! O respeitinho é muito bonito!” E ali ficou, no palco improvisado do átrio do hipermercado, a plateia embasbacada e dormente perante a pobreza crua da comédia inesperada.

MC

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