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Quem me dera deixar de berrar com o meu filho!

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Oficina de PsicologiaSabemos que educar um filho não é fácil. Não há receitas mágicas nem manuais de instruções. A partir dos resultados estudo ComRegras “(In)disciplina na família” foi possível apurar que os pais recorrem a estratégias muito diversificadas aquando dos comportamentos desadequados dos filhos.

Foi notável a elevada percentagem de progenitores que recorrem à elevação excessiva de tom de voz para educar. Certamente prefeririam não ter de o fazer, mas gritam porque estão irritados, frustrados, impacientes e não sabem o que fazer para alterar o comportamento da criança no momento. As dificuldades em fazer-se ouvir pelas crianças, em lidar com as emoções que isso lhes provoca e recorrer aos berros provoca desgaste em si próprio (com sentimento de culpa e arrependimento), com efeitos negativos no ambiente familiar e principalmente na criança.

A sua irritação pode ser justificada, mas a forma como a expressa não, e não traz qualquer benefício construtivo. Pelo contrário! Na realidade, nenhum pai tem mesmo a necessidade de berrar para ser ouvido. Já ralhar e comunicar de forma firme e coerente faz parte da tarefa de qualquer pai. Neste sentido, o ato de gritar não é uma estratégia de educação parental, mas sim um descontrolo e explosão emocional dos pais.

É comum os pais pensarem: “Mas só quando grito com o meu filho é que ele me ouve e obedece…”. Porém, não será por muito tempo e na realidade a criança só pára o que está fazer quando ouve os pais berrarem não por compreender a situação, mas por temer uma reação mais agressiva do adulto. Além disso, a criança estará mais atenta à forma como está a falar com ela (aos gritos) do que ao conteúdo da sua comunicação (o que lhe diz) e, para piorar a situação, a sua atitude provocará uma reação mais agressiva por parte da criança.

Esta está a aprender a comunicar consigo também a berrar e rapidamente se instalará um ciclo vicioso. Para além disso, facilmente este comportamento se pode generalizar para outros contextos, como a escola, por exemplo.

Como é suposto a criança compreender e obedecer quando lhe é pedido “não grites”, se vê as pessoas mais significativas para ela a fazer o mesmo? De que forma isso a ajuda a melhorar o comportamento no futuro? Berrar está a ajudá-la a aprender a lidar com as suas emoções desagradáveis? Ou a ensinar-lhe empatia e capacidade de resolução de problemas, ou desrespeito e falta de controlo?

Apresentamos algumas dicas para ajudar. Não terão um efeito imediato, mas com esforço e dedicação verificará mudanças no seu comportamento, e por sua vez, no comportamento do seu filho e na vossa relação.

– Analise o problema. Identifique quais situações da sua rotina com os seus filhos em que costuma gritar com mais frequência. Na hora dos trabalhos de casa? Nos desentendimentos entre irmãos? Quando não cooperam? O que o faz berrar com o seu filho?

– Abandone a crença “o meu filho só me ouve quando eu berro com ele”. Como vimos anteriormente, gritar é contraproducente e não eficaz a longo prazo. Reflita e procure alternativas educativas mais eficazes para ajudar a lidar com o problema sem precisar elevar excessivamente o tom de voz.

– Impor regras e limites é indispensável, mas para serem cumpridos têm de ser claros, coerentes e consistentes. Aplique consequências imediatas perante o comportamento inadequado da criança, ao invés de lhe berrar naquele momento. As consequências devem estar associadas ao comportamento desadequado para que ajudem a criança a responsabilizar-se e a reparar a situação.

– Recorra ao reforço positivo, ou seja, uma recompensa por algo que a criança fez com sucesso. Poderá ser um elogio ou demonstração de carinho, ou uma atividade que goste. Isto implica que esteja atento e valorize o que o seu filho fez bem e é mais positivo e eficaz para que a criança se sinta motivada para repetir o comportamento adequado.

– Ouça o seu filho e recorra ao diálogo. Quantas vezes não deu sequer oportunidade ao seu filho para explicar o que sente antes de berrar com ele? Ao ouvi-lo atentamente e ao conversarem será possível refletir sobre problema.

– O autocontrolo dos pais é essencial. Quando não conseguimos lidar com as emoções, um tom de voz alterado costuma fazer-se acompanhar de palavras cruéis e injustas e até de agressividade física. Na relação pai-filho é expectável que seja o adulto a ser capaz de gerir as suas emoções e a ensinar a criança a fazê-lo.

– Aprenda a acalmar-se. Contar até 10 e respirar fundo ajudá-lo-á a acalmar-se, reduzindo a possibilidade de agir por impulso e gritar.

– Cuide melhor de si mesmo. Reconheça as suas necessidades pessoais e o seu estado emocional. O cansaço, a fome, o stress acumulado contribuem para maiores alterações de humor. Perceba se os gritos constantes serão reflexo de mau estar psicológico. Se se sentir melhor consigo mesmo, terá mais capacidade para lidar com os desafios parentais.

– Não leve a peito. É comum os pais interpretarem como desafiadores determinados comportamentos dos filhos, porém eles não fazem de propósito para o provocar.

– Relativize o problema. Quando estiver prestes a gritar com o seu filho avalie a importância que aquela situação-problema tem na sua vida e avalie a intensidade da irritação que está a sentir e as consequências da mesma. Provavelmente vai reparar que o que o seu filho fez não justifica uma reação tão intensa da sua parte.

– Peça desculpa. Se perdeu a paciência e berrou com o seu filho, engula o orgulho e peça-lhe desculpas. Vai sentir-se melhor e estará a ensinar uma importante competência à criança.

– Procure ajuda. Se os gritos são a principal forma de comunicar com os seus filhos e não consegue encontrar alternativas para tal, procure ajuda profissional. Um psicólogo poderá ajudar a implementar estratégias parentais mais eficazes e adaptadas à sua dinâmica familiar.

Alterar comportamentos não é fácil, mas é possível! Regular as suas emoções, controlar o impulso de berrar e educar pelo lado positivo ajudará a desenvolver uma relação forte e saudável com os seus filhos.

Raquel Carvalho

Psicóloga Clínica

Equipa Mindkiddo – Oficina de Psicologia

1 COMMENT

  1. De facto ” o berro” é um grande drama, nas sociedades ocidentais e até já há livros sobre o assunto… Até acho que deviam escrever uma enciclopédia sobre o tema… e os traumas que a a juventude apanha ( peço desculpa pelo verbo…) com a voz em altos decibéis. Ui!
    Enquanto o ”Mundo” vive na dura realidade, e como é dura a realidade para a maior parte do Mundo, a Europa rebola-se no onirismo da sua decadência… Isto não vai acabar bem!

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