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Quem é que manda?

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Hoje abandono pontualmente o meu registo de “contadora de histórias” para discorrer um pouco sobre o tema que é a pedra basilar deste blog: a disciplina. Vem esta conversa a propósito do feedback simpático que vou recebendo por parte de generosos leitores das minhas historietas, tanto aqui no Comregras, como lá no meu estaminé.

Mr-Gray-is-the-best-teacherPor diversas ocasiões, colegas professores têm tido a gentileza de sair do pacato anonimato que a blogosfera providencia para “conversar” comigo, via email, acerca dos assuntos que vou trazendo. Alguns elogiam a empatia e o entendimento que encontram nas minhas palavras e calculam-me uma professora compreensiva e paciente, sempre disposta a considerar as circunstâncias por detrás das pessoas. Dizem-me também que, mesmo vendo aquilo que eu vejo (não vemos todos?), muitas vezes já não têm disponibilidade mental para serem tolerantes por conta das conjunturas disfuncionais que os jovens arrastam consigo.

No que me diz respeito, esta leitura não podia estar mais longe da verdade. Não sou uma pessoa tolerante e paciente face aos comportamentos incorrectos. O facto de estar atenta às vidas complicadas que muitas vezes se escondem por trás de atitudes desabridas não acrescenta qualquer empatia da minha parte face a essas condutas. Nunca compreendi que benefícios podem derivar de “compreender” faltas de educação.

Pelo contrário, esse tipo de “benevolência condescendente” que durante muitos anos grassou em certas correntes da educação e que preconiza(va) uma ajuda de cariz paternalista aos mais desfavorecidos coitadinhos foi coisa que sempre me buliu com os nervos. Tolerar condutas incorrectas com base em disfunções do tecido familiar irá tão-somente perpetuar a ausência de competências sociais que os jovens não puderam interiorizar junto do seu núcleo restrito (como idealmente deveria ter acontecido). E aí sim, eternizar e acentuar desvantagens e clivagens sociais.

Sou uma professora autoritária e taxativa: o respeito pelo outro é tão importante como o oxigénio dentro da sala de aula e, como tal, as normas do trato social não são negociáveis. Também não tenho muito o hábito de perder-me em justificações da minha exigência: os “mas porquê?” (sobretudo os mais petulantes) são frequentemente agraciados com a mesma resposta sucinta: “porque eu disse / quero”. Os reparos estudantis acerca da minha inflexibilidade / severidade / prepotência / escassez de democracia partilhada / gélida malvadez costumam ser sumariamente arquivados em “aqui sou eu que mando”.

Nada disto é novo para quem ensina. Não é receita para ninguém. É apenas a crueza o meu kit de sobrevivência, eventualmente ao arrepio de todas as correntes pedagógicas modernas e progressistas, gizadas com rigor científico por grandes filósofos da educação. É o manual de manutenção (possível) da minha sanidade mental ao longo de tantos anos de ensino. Poderá ser bolorento e retrógrado, mas funciona para mim.

MC

2 COMMENTS

  1. Educar não é fácil .Ter alunos disciplinados ainda é mais difícil . E esta assunto é tão complexo que atinge uma série de intervenientes com formação diferentes, com idades diferentes, alunos com as chamadas” condições sociais ( detesto estes palavrões), diferentes, desvantajosas …etc etc. Tudo e todos opinam. Uns tomam em consideração os fatores condicionantes da indisciplina , como o cansaço dos alunos face a programas demasiado extensos e intensos , outros acusam os professores porque não estao suficientemente atentos ao que se passa indiciando indisciplina e portanto esta é disso resultante , ou seja , tem corrido muita tinta e “bué” de ações aparentemente com pouco êxito . Então estaremos perante assunto que não tem solução?
    Não vou dar mais uma opinião. Sou uma pediatra que há mais de 40 anos vê , ouve e procura ajudar essencialmente pais e alunos . e está consciente de que cada situação deve ser abordada e tratada sem imitar ou seguir um modelo ! Quantas vezes nos enganámos no nosso diagnóstico e no “tratamento” ? Quantas vezes casos que à partida pareciam dificeis acabaram bem ?
    Obviamente que as equipas multidisciplinares são importantíssimas mas garantidamente todos os que mais de perto lidam e conhecem estas situações devem ter uma palavra a dizer e o” direito” a ser escutados. .

  2. YES, YES, YES:

    Tolerar condutas incorrectas com base em disfunções do tecido familiar irá tão-somente perpetuar a ausência de competências sociais que os jovens não puderam interiorizar junto do seu núcleo restrito (como idealmente deveria ter acontecido). E aí sim, eternizar e acentuar desvantagens e clivagens sociais.
    …o respeito pelo outro é tão importante como o oxigénio dentro da sala de aula e, como tal, as normas do trato social não são negociáveis.
    …eventualmente ao arrepio de todas as correntes pedagógicas modernas e progressistas, gizadas com rigor científico por grandes filósofos da educação.
    Augusto Küttner de Magalhães

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