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Quem Ainda Consegue Ter Alma De Professor?

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«A minha profissão está a perder alma. A escola está a perder alma. Eu estou a perder alma. Cada novo diploma legal (e são tantos) acrescenta mais um tanto de burocracia à profissão, com o argumento do rigor.
Escolhi a minha profissão. Escolhi ser professora. E escolhi assim porque encontrei alma nesta profissão, na relação com os alunos, na relação com as famílias e também na relação com os outros professores. Olhar para cada criança ou jovem como um ser único e estabelecer com ela(e) uma relação que vai para além do vocabulário e das estruturas gramaticais da Língua Portuguesa ou da História que ensino, mas que é fundamental para a sua aprendizagem. Ser procurada pelos alunos, particularmente nos seus momentos piores, nos seus problemas, relacionados ou não com a escola, quando se conquistou a confiança deles. Ajudá-los a resolver os problemas quando é possível, ouvi-los, pelo menos, quando mais não se pode fazer. Estabelecer uma relação com as famílias como directora de turma. Conhecer, assim, melhor, cada aluno, e conquistar a confiança e criar laços com os pais, fazendo com que haja clima para analisar os problemas dos seus educandos e encontrar estratégias de resolução em que a família, os alunos e os professores entrem, cada um de acordo com as suas responsabilidades e o seu papel. Atendimentos, reuniões de pais e alunos, projetos desenvolvidos para além do horário, da remuneração e do reconhecimento de quem não as/os vive(u), nas horas de alma e com alma. Fazer de cada turma uma família com alunos, mas também com pais e professores, em que a escola é, de facto, uma segunda casa, não apenas nem sobretudo pela quantidade de tempo que se lá passa, mas pela sua qualidade.
Ser professor é ter uma profissão eminentemente relacional, que se constrói na vivência da relação. Não estou a esquecer-me da necessidade do conhecimento científico do professor e da necessidade de ele saber trabalhar esse conhecimento do ponto de vista pedagógico, para que os alunos possam aprender. Estou apenas e tão só a salientar a importância da dimensão humana e relacional do processo de ensino/aprendizagem e, consequentemente, da profissão docente.
A minha profissão está a perder alma. A escola está a perder alma. Eu estou a perder alma. Cada novo diploma legal (e são tantos) acrescenta mais um tanto de burocracia à profissão, com o argumento do rigor. São fichas e papéis para tudo e… para nada: para as faltas dos alunos, contadas das mais diversas formas e nos mais variados documentos; para informar os pais sobre tudo e mais alguma coisa, com prazos reduzidíssimos; para justificar cada negativa que se dá; para fazer planos de recuperação de cada negativa que se dá; para tomar medidas disciplinares; para as justificar; para…; para…; para… São reuniões atrás de reuniões para tratar de mais burocracias, em que o tempo é sempre mais longo do que o previsto (mas não
remunerado) e os assuntos que verdadeiramente interessam, aqueles que têm ALMA, já não têm tempo de ser abordados. Convencemos os pais dos alunos de que devem passar tempo com os seus filhos, após a escola, e nela permanecemos nós, depois do horário das aulas, em reuniões sem fim, com os filhos e/ou os maridos à espera, sozinhos, ou também eles atarefados com outras coisas… Essas, aquelas em que eu encontro alma, vão perdendo espaço e valor. Entra-se numa sala de professores e só se ouve: “Já não tenho tempo para preparar aulas como gostava. Agora, reutilizo as coisas que fui fazendo ao longo dos anos.”,
“Já não consigo tempo para ir às livrarias e nem sequer para ler.”, “Não consigo nem um bocadinho para pesquisar coisas novas na net ou em qualquer outro sítio.”, “Não tenho tempo para a família e nem para mim.” E logo depois, também se ouve: “Não foi para isto que vim para professor.” Olha-se à volta e vêem-se colegas de profissão, um pouco mais velhos, sempre dedicados ao trabalho, de corpo e alma, respeitados na escola e a ela fazendo
imensa falta, calculando o que perdem com uma reforma antecipada. Querem ir embora enquanto a burocracia não lhes rói a alma e acabam por o fazer, de lágrimas nos olhos, enquanto muitos outros já partiram, mesmo.
Por mim, tenho vindo a procurar não perder a alma, aguentando o tal trabalho relacional, invisível, não reconhecido nem remunerado, acumulando-o com o obrigatório, cada vez mais burocrático. Também eu penso, digo e repito cada uma das
frases que ouço aos outros. E, por incrível que pareça, até já me apanhei a pensar “Quem me dera ser mais velha!”. Na verdade, nunca me quis imaginar na reforma, como muitos destes dedicados professores também não. Mas entre a alma/saúde
mental e esta burocratização crescente da escola, então há que salvar o principal.
Vejo os meus colegas partirem ou prepararem-se para a partida. Quando tal acontecia, em tempos não muito remotos, todos se sentiam nostálgicos e a partida era discreta. Hoje há efusivos parabéns a quem conseguiu e uma inveja (mal) calada de quem tem que ficar. Estas palavras são as lágrimas que não choro e que transcrevo para a solidão do papel
para que ajudem a fortalecer a ALMA de uma professora que luta por si própria, pela sua sobrevivência, e pela Alma verdadeira que, espera, poder (re)encontrar, na velha escola onde, mais uma vez, o sempre novo ano letivo se iniciará amanhã…»

Texto da colega Gabriela Lobo

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