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Que Não Haja Terceiro Período Presencial – Alberto Veronesi

Sem querer desmoralizar, o terceiro período não vai ser igual para todos. António Costa aponta o dia 4 de maio como sendo o limite para o reinício da escola de forma presencial apenas para alunos do secundário, 10.º, 11.º e 12.º anos, com contingências específicas. Esta ideia de ser só o secundário, que nasce por causa das médias e dos exames de acesso ao ensino superior, até pode parecer ponderada e exequível. Mas não é!

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Estamos perante uma pandemia que jamais imaginámos que, primeiro chegaria à Europa, segundo pararia a Europa, colocando milhões de pessoas confinadas às próprias casas.

É uma situação inesperada para todos, mas que nos obriga e mudar paradigmas sociais, nomeadamente, na Educação.

Eu, que acompanho de perto a situação italiana, por questões familiares, vinha alertando para a possível hecatombe social se as escolas não fechassem rapidamente, como escrevi aqui. Ainda assim, as escolas mantiveram-se abertas até dia 13 de março, praticamente 11 dias depois do primeiro caso de covid-19.

Este fecho generalizado acontece depois de alguns colégios, por iniciativa própria, e algumas escolas públicas, por indicação dos respetivos delegados de saúde, terem fechado. Com isso começou-se a generalizar o medo de deixar os alunos nas escolas. Na última semana de escola aberta sentiu-se uma enorme quebra de presença de alunos. As escolas acabariam por fechar, por decreto, a 16 de março.

Os estabelecimentos de ensino, como é do conhecimento de todos, seriam um foco muito grande de propagação do vírus, até porque, com o conhecimento que temos, as crianças são muitas vezes portadoras assintomáticas.

Acabou-se por colocar mais de um milhão de alunos em casa, sem que existisse um plano para que continuasse a ser acompanhado. Os professores tentaram, de todas as formas possíveis e imaginárias, colmatar esta emergência para que o segundo período, agora à distância, fosse concluído com êxito. E foi, na grande maioria dos casos, foi!

Durante as últimas duas semanas de aulas generalizou-se uma preocupação na classe docente: Como será o terceiro período? Sabemos que terá de acontecer, mas como?

Os agrupamentos de escolas, depois de reuniões com a tutela e da leitura atenta dos documentos elaborados, têm feito um enorme esforço para tentar perceber a realidade, ao pormenor, da sua população discente de maneira a conseguir chegar a toda.

Sem querer desmoralizar, o terceiro período não vai ser igual para todos. António Costa aponta o dia 4 de maio como sendo o limite para o reinício da escola de forma presencial apenas para alunos do secundário, 10.º, 11.º e 12.º anos, com contingências específicas. Esta ideia de ser só o secundário, que nasce por causa das médias e dos exames de acesso ao ensino superior, até pode parecer ponderada e exequível. Mas não é!

Em primeiro lugar porque as rotinas de higiene, que até dia 13 de março eram umas, sofreram uma enorme alteração: lavagem constante de mãos em meio escolar é uma utopia; distanciamento social em meio escolar, seja entre pares seja com os professores, é outra utopia; logo, rapidamente estes alunos se podem tornar armas químicas — todos sabemos que esses alunos, à volta dos 350 mil (segundo dados do Pordata), não vivem sozinhos, mas com pais, irmãos, alguns até com avós, pois os agregados familiares portugueses são muito variados.

Reabrir as escolas em maio, altura em que poderemos estar a entrar no pico do surto poderá significar um atraso significativo na descida ou mesmo um regresso à subida exponencial. Queremos arriscar?

O que está em causa são os exames nacionais, dir-me-ão vocês, pelo que apenas os alunos do 11.º e 12.º anos devem frequentar! Não concordo, por tudo aquilo que disse anteriormente e acrescento que esses alunos, que têm uma média de idades de 18 anos, não têm maturidade suficiente para carregar esta responsabilidade de serem os únicos a frequentar as escolas.

Todos já tivemos 18 anos, aos 18 somos todos imortais! Os professores do secundário e os próprios pais já vieram dizer que estão a favor de um adiamento de exames, porque já perceberam que a prioridade é a saúde pública.

O primeiro-ministro quer mesmo deitar a perder estes dois meses de quarentena social em troca de uns exames?

Alberto Veronesi, in Público, 06-04-2020

1 COMMENT

  1. É obvio que o que está em causa é a realização de exames para se concretizar o acesso ao ensino superior. 4 pontos a considerar:
    1. Nessa altura não vamos estar longe de ter passado o pico da gripe. Não tem nada que saber. Não é viável.
    2. Existem professores que são grupo de risco e não são poucos. A grande parte está nos 60 anos e com vários problemas de saúde que os assusta. Há até professores doentes oncológicos bem novos que não irão querer expor-se e com toda a razão (nem os deixarão).
    3. Mas também há alunos com problemas de saúde grandes que não se poderão expor. Então, voltamos à questão de oportunidades iguais para todos, os problemas constitucionais de igualdade de oportunidades.
    4. As disciplinas com exame nacional no ensino secundário são todas bienais e trienais. Não há exames com programas anuais! Então porque não elaborar provas com os programas já terminados no ou nos anos letivos passados (e talvez um pouco mais)?

    Então, recomeçar a 4 de maio não vai resultar. Irão faltar professores e alunos em demasia.
    É mais fácil refazer as provas do que pôr o mundo a girar em torno delas.

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