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Quatro semanas sem escola. É mais do que urgente.

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No primeiro confinamento definiram-se quatro grupos-alvo: “serviços, comércio, restauração e hotelaria”/ “escolas”/ “indústria e construção”/ “produção essencial e exceções”. Parámos os dois primeiros. O impacto foi enorme, mas os números nunca desceram o suficiente para chegarmos ao verão como um país aberto ao turismo. Hoje, com dez mil casos diários, e em cima das piores semanas hospitalares (gripes e pneumonias), arriscamos ainda mais: confinamos apenas o grupo “serviços, comércio e restauração”. Deixamos de fora as “escolas”. Acreditamos em milagres?

Os números indicam que o grupo-alvo “escolas” representa a mobilidade de 2,5 milhões de pessoas. Todos os especialistas na reunião do Infarmed (menos um) consideraram que um confinamento eficaz necessitaria, em absoluto, de boa parte das escolas fechadas. Daí até à decisão política de não fechar as escolas por “opiniões discordantes” foi um salto que só atrasou a resposta ao crescimento exponencial da doença.

Isabel Aldir, infecciologista, disse há dias na SIC Notícias o óbvio: as crianças pequenas têm naturalmente menos cuidados e propagam o vírus em casa. Quem nunca apanhou uma virose dos filhos? A covid-19 é exceção?

Muitos pais questionar-se-ão sobre o sucesso/risco de ficar fechado em casa se a covid pode vir da escola. Prova disso é a subida vertiginosa dos números desta semana. Isto já é mais do que o Natal. É já o regresso às aulas.

Falemos, no entanto, sobre o inultrapassável dano que esta geração escolar sofreria por quatro semanas de confinamento sem aulas presenciais. Elas poderiam ser usadas para ensino à distância e recuperadas, depois, com aulas presenciais nas férias da Páscoa, acrescidas da extensão de mais duas ou três semanas no fim do ano letivo. Obviamente, as crianças que necessitem de apoio presencial poderiam contar com um reduto de apoio das escolas.

Se as vacinas forem eficazes, este será o último inverno de uma crise pandémica tão brutal. Mas perante esta urgência, o governo deveria decretar a suspensão das aulas presenciais a partir de quarta-feira (e até à quarta-feira de Cinzas – quatro semanas).

Mas isto, infelizmente, já não chega. Vamos ter de atuar mais a fundo na economia. Não adianta levar a covid a zero no grupo “serviços, comércio e restauração” e deixá-lo em velocidade cruzeiro no grupo “indústria e construção” (admitindo que não podemos parar a “produção essencial”). Pergunto: porque não baixamos a covid-19 nos operários e suas famílias? Podem ser aqueles 70, 80 ou 90 que morrem sem grande problema?

Um forte abrandamento da covid, devidamente planeado, deveria incluir uma paragem do segmento “indústria e construção” durante, pelo menos, o Carnaval (nove dias, de 13 a 21 de fevereiro). Como são apenas quatro dias úteis, e para não irmos ainda mais à bancarrota, estas empresas deveriam oferecer estes dias ao país porque nunca pararam. Talvez então, após o Carnaval, pudesse haver condições para as crianças e jovens voltarem à escola; e finalmente (haja esperança), o fim do confinamento para o setor “comércio e serviços” e para a vida em geral no fim de fevereiro ou na primeira quinzena de março.

A covid-19 não vai desaparecer e não vale a pena as televisões “acusarem” as pessoas que encontram na rua nem a PSP/GNR esmagar com bloqueios todas as estradas. É show-off. Ao contrário de abril, há máscaras para saídas pontuais. As exceções estão feitas para as pessoas não enlouquecerem. Mas o coração do problema é outro. Definição do que queremos nos grandes grupos. E atuar. O mal maior (Natal à mesa, sem máscaras) aconteceu. Temos de remediar esse erro, já.

Daniel Deusdado

Fonte: DN

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