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Quando nos pedem para arrebitar…

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No outro dia li pelas redes sociais que os professores estão amorfos, presos por uma letargia que assombra diariamente as escolas deste país. Têm de reagir, tem de se mexer! Uni-vos e lutem, dizem-me várias vezes quem de fora vê tão pouca união. A classe docente tem de arrebitar, dizem entre paredes da sala de professores ou entre lábios quando deambulam pelos corredores a caminho de mais uma aula. Arrebitar! É disso que a classe precisa. Mas na realidade alguém sabe de onde vêm esta palavra?

Será que a classe precisa de arrebitar ou de uns rebites para nos unir?

Será que os professores não terão também culpa pelo estado a que a escola pública chegou?

Afinal de que forma é que o “funcionário” pode contribuir para que a empresa não entre em falência?

Já ninguém tem dúvidas que os governantes, mesmo aqueles que dizem o contrário, dão pouca relevância à educação. Mas também é certo que os professores como atores do sistema terão com certeza alguma culpa. Quando se opta por adotar a postura do “deixa andar”, “mandam, eu faço” estamos a entregar o leme a quem muitas vezes percebe pouco de “navegação”.

Os últimos dois governos têm sido o epiteto do desinvestimento que assombra desde há muitas décadas a educação.

O Governo dos últimos quatro anos investiu na Educação foi sempre menos que o pior ano da troika, em 2012, onde o investimento foi de 3,9% do PIB.

Nos anos da Geringonça, o investimento foi ao nível dos anos 90: 3,7% do PIB. Mas no entanto a mensagem que sempre quiseram que passasse foi a de que o governo investiu muito em educação. Anuncia-se números gordos para a educação e nunca se verifica a execução ou não desse orçamento, que pelos vistos fica sempre aquém.

Talvez haja aqui algo que nos possa estar a escapar, uma vez que seria de esperar mais de um governo socialista apoiado pela esquerda parlamentar.

Não vos parece legítimo que todos possamos exigir uma escola estatal de qualidade? Não é para isso que pagamos impostos?

Porque é que o governo insiste em anunciar verbas quando sabe perfeitamente que raramente cumprirá? É esta demagogia popularucha que nos deixa confusos.

Os números são claros, o governo da Geringonça investiu menos que o Governo “da troika”. Factual, mas nunca ninguém tocou na ferida! Por que razão?

Nós que estamos todos os dias nas escolas vemos com os nossos próprios olhos que a degradação é contínua, o nivelar por baixo é de bradar aos céus e o mérito e o esforço ficaram de uma vez por todas fora dos portões escolares. A burocracia aumenta como que a certificar se realmente os professores trabalham, o registo da evidência tornou-se mais importante que a própria ação. Não interessa se fizeste ou não, tens é de preencher a grelha a dizer que sim, fizeste! O pessoal docente arrasta-se de cansaço pelos corredores das escolas, a idade da reforma não chega, pelo contrário aumenta de dia para dia…

É por isto que a Escola Estatal deixou de servir todos, porque todos aqueles que se apercebem o que lá se passa e podem, fogem! Claro que há excelentes exemplos de boas escolas públicas, mas infelizmente são cada vez menos!

Com isto o papel principal da Escola Estatal que seria a de servir de elevador social a todos os cidadãos, oferecendo as mesmas oportunidades, diluindo assim a reprodução social, deixou de o ser. A escola deixou de servir os mais carenciados.

O que temos vindo a assistir é uma constante degradação da escola estatal, mesmo que alguns digam que a têm no coração! Nós enquanto profissionais da educação deveremos fazer alguma coisa.

Qualquer que seja a estratégia que adotemos para melhorar a situação, ela não melhorará sem que haja um efetivo pacto político e social de longo prazo, a 30 anos por exemplos, onde todas as forças políticas, sociedade civil e restantes intervenientes educativos se comprometam a cuidar da educação, através da Escola Pública.

Se formos observar os estudos da OCDE sobre a mobilidade social nos diferentes países, incluindo Portugal, vemos que em Portugal ela não existe. Ou seja os alunos de meios sociais mais desfavorecidos estão destinados à nascença, ou pelo menos não poderão contar com a Escola Estatal para os ajudar no desígnio de “subir na vida”.

É este papel que a escola perdeu e deve recuperar o mais rapidamente possível por forma a que as desigualdades não sejam cada vez mais evidentes, mas sim que sejam cada vez menos. E isso não se consegue baixando a fasquia. É dar as mesmas oportunidades a uns e a outros para que todos tenham a possibilidade de aproveitá-las e com elas poderem sonhar com algo diferente dos seus pais.

Apesar de o mesmo estudo indicar que o fator que mais influencia o sucesso profissional em Portugal não ser a educação nem as capacidades pessoais, mas sim a herança. O que torna tudo mais difícil, nas não impossível.

Recuperar o papel da Escola Estatal, que deverá ser em primeiríssimo lugar o de proporcionar a todos os estudantes que a frequentem a possibilidade de estarem em igualdade de circunstâncias e oportunidades, independentemente das origens sócio económicas. Obviamente isso não acontece. Ainda!

Que rumo poderemos seguir para inverter esta situação?

Desde logo a forma como se orçamenta e educação. Dando uma maior fatia do orçamento a esta área e sobretudo certificar-se de que ela é cumprida. Olhar para a educação como o pilar base de qualquer sociedade que ser quer moderna e de progresso. Sem este novo olhar sobre a educação nada se poderá fazer!

Depois, acreditar que a autonomia responsável de cada escola seria o caminho certo para que cada uma delas se adaptasse ao meio populacional e ao núcleo de alunos que “serve”.

O facto de não haver verdadeira autonomia faz com que, por exemplo, num TEIP , com tudo o que esta sigla traz, as turmas tenham o mesmo número de alunos que uma escola não TEIP situada numa zona nobre de uma qualquer cidade do país.

Uma TEIP, com reforço verdadeiro de recursos e adaptando práticas, sem baixar fasquia, poderia ficar em pé de igualdade com qualquer outra escolas vista como sendo de elite.

É isto que todos nós, pais, professores, alunos e restante sociedade temos de exigir! Porque é que quem pode coloca os filhos no ensino privado, muitas vezes com enormes sacrifícios, para fugir a estas situações e não por opção real considerando o Projeto educativo, por exemplo.

Temos de nos deixar de demagogias e investir seriamente na educação estatal, para que a escolha de escola seja mais fácil, nivelando por cima e não por baixo apenas porque se quer poupar uns trocos.

Será justo quem tem mais ter sempre mais e quem tem menos ter sempre menos e assistirmos a esta situação sem que nada se faça?

É urgente acabar com este modelo de Escola Estatal que não faz mais do que reproduzir socialmente todas as classes sem que consiga elevar a expectativa de quem a frequenta.

A discussão sobre a escola estatal deverá ser este. O que fazer para que seja um real elevador social e permite que qualquer aluno que a frequente possa sonhar com uma vida melhor, por um lado, mas que não obrigue os outros a terem de recorrer aos privados por verem defraudadas as suas expectativas.

Se não o fizermos, já, corremos o risco de cavar ainda mais o fosso entre os “ricos” e os “pobres”.

A qualidade da Escola Estatal só se consegue com um pacto alargado, o mais consensual possível e com dinheiro orçamentado e executado.

 

 

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