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Qualquer dia somos todos iguais e ninguém dá por nada

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interruptorDormimos acordados. Cada vez mais tenho a noção de que actualmente as pessoas vivem anestesiadas pela evolução e ritmo do mundo. A visão que temos é cada vez mais estreita, vemos apenas uma fresta do todo em que estamos inseridos. Como se o mundo fosse o nosso quintal.

Depois de um dia intensivo de trabalho, de exaustão, a Vanda chega a casa e liga a televisão para relaxar. Momentaneamente, ela vai deixar de pensar no que a incomodou nesse dia ou nessa semana, mas não vai relaxar. Vai dar continuação a um processo de absorção de publicidade que tem vindo e vai continuar a moldar, inconscientemente. Numa hora inofensiva de televisão, enquanto vemos a nossa série preferida, os nossos olhos e cérebro são inundados por anúncios, cores e palavras-chave que fazem de nós verdadeiras cobaias das grandes empresas. Mesmo que não estejamos a dar por isso estamos a captar cada centímetro da informação que recebemos, processamo-la e de uma forma ou outra aquela há-de manifestar-se. Voltando à Vanda, mãe de uma grande família, pode dizer que a sua segunda casa é o supermercado. E coitadinha da Vanda, que vem sempre chateada no regresso a casa porque “comprou sempre mais do que o previsto” e “coisas que nem fazem falta”. E é precisamente esta manipulação dissimulada que está em causa.

Acontece outra coisa engraçada em casa da nossa amiga. A moradia que fica num bairro dos subúrbios tem dois andares. A Vanda costuma estar no rés-do-chão. Ora a sua filha tem o quarto no primeiro andar. Mas que enorme maçada ter de descer as escadas só para beber um copo de água. Muito mais fácil será enviar uma SMS à mãe para que esta lho dê. Simples, eficaz e nem precisam de trocar uma palavra. Aplicando este exemplo a uma escala mais global, não será a Internet um meio de afastar progressivamente as pessoas? O Presidente da República não se manifeste em público, gosta mais de fazer anúncios nacionais pelo Facebook.

Qualquer dia despoleta uma Terceira Guerra Mundial e quem não viu o e-mail de manhã não sabe. Qualquer dia não é preciso ir à China, porque se pode ver a China numa simulação 3D. Qualquer dia somos todos iguais e ninguém dá por nada. Qualquer dia não se é gente de verdade, se não se for gente virtual.

Então não há que ter medo?

A Vanda foi de férias na semana passada, e voltou a dizer que nunca tinha descansado tão bem. Deixou o telemóvel em casa, não havia televisão. Aos serões jogava Monopólio com os filhos, andava pelo paredão, contavam histórias. Esqueceu as dietas e as modas e deixou-se ir pela sua própria cabeça. E descansou. Mas…há que voltar ao mundo real.

Mas é aí que quero chegar! A Vanda não é uma, somos todos nós, que somos consumidos pela sociedade consumista. Não acho que tenhamos de abdicar do progresso tecnológico. Acho fantásticas certas conquistas que o Homem conseguiu alcançar. Mas, efectivamente, há que reflectir sobre o caminho que estamos a tomar e o no que estamos a tornar as nossas cabeças e o nosso mundo. Mas penso, na minha humilde condição, que seria bom voltar um pouco “ às origens”. Conhecer o que verdadeiramente nos rodeia. Não aceitar passivamente tudo o que nos vem parar às mãos. E, principalmente, não parar de questionar o progresso, porque nem sempre é bom. Porque será que gostamos tanto quando nos desligamos do mundo? Não será, em parte, porque nos reaproximamos das pessoas e tiramos tempo para pensar em nós? E porque não aplicar este conceito de férias no nosso quotidiano?

A meu ver um dos maiores problemas do século XXI, é a solidão. As pessoas estão ligadas/desligadas do mundo. Estão sozinhas.

Sou a Maria Costa, tenho 16 anos e sou de Évora. O meu mundo é a arte, seja a fazer música, a dançar, a pintar ou a escrever, é aqui que me encontro.

Maria Costa (2015). “Qualquer dia somos todos iguais e ninguém dá por nada” http://lifestyle.publico.pt/ 1 de junho
Imagem retirada de http://cdn.clickplus.pt/

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