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qualificações e competências

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sucessoPraticamente desde o início do ano letivo, tenho desenvolvido um trabalho onde o principal olhar recai sobre grupos do vocacional. Turmas tão complicadas quanto complexas, arrastam consigo um sem número de questões que despertam em mim, no mínimo, curiosidade e interesse. Curiosidade sobre os percursos pessoais e escolares, como ali se chega, como se olha e considera a escola, o regular, as retenções, o vocacional, os docentes entre muitas outras variáveis. No centro da minha atenção estão sempre os comportamentos e os processos de gestão, nomeadamente entre o aluno e o cidadão, entre o que se tem e o que se pretende.

No meio deste trabalho e muito por força de alguns comentários de alunos, dei comigo a questionar-me sobre a alteração das qualificações docentes. De que forma esta alteração implica na análise que se faz perante contextos concretos de ação, como se equacionam os problemas, que elementos são para esse efeito mobilizados e como se pensam soluções, com que recursos, com que objetivos.

No meio das muitas conversas que tenho desenvolvido com os dois grupos/turmas de vocacional há um tema que se insurge de forma recorrente e como ponto crítico, o professor. Tanto no regular, aqui visto e considerado como marca essencial da exigência, do rigor e do trabalho escolar, como e já no contexto do vocacional, enquanto elementos facilitadores, flexíveis, mobilizadores do aluno e do seu trabalho.

Espero que um destes dias o trabalho veja a luz do olhar de quem o lê.

Até lá uma nota por estas bandas relativo à reconfiguração da formação docente. É certo que os números são o que são e valem o que valem, mas podem ser interessantes para mostrar aquilo que pretendo. E pretendo mostrar como perspetivas e olhares docentes se alteram e reconfiguram e, com eles, se reconfiguram dimensões e ideias de aluno, de escola, da relação em sala de aula e do que, na relação entre eles, comporta esta reconfiguração.

Então considere-se. Mediante uma rápida consulta ao sítio da direção geral de estatísticas da educação, em termos comparativos, entre os anos letivos de 2007/2008 e o de 2013/2014, o número de educadores e docentes dos ensinos básico e secundário desceu em mais de 26%. Contudo e em sentido contrário, os educadores e docentes detentores da habilitação de mestre ou doutor, quase que triplicaram no mesmo período de tempo. Neste período mestres e doutores passaram de 3,91% para 9,3% face ao total considerado (dados relativos ao perfil docente entre os anos letivos de 2007/08 e 2013/14 disponível em http://www.dgeec.mec.pt/np4/98/, consulta em 4 de março de 2016).

Perante os números tenho de reconhecer alguma curiosidade e algumas questões que com ela se me colocam. Não sei que repercussões terá tido esta subida de valores em trabalhos apresentados, em artigos ou comunicações sobre o quotidiano escolar e educativo nas suas múltiplas e variadas situações. Não conheço também, será campo a explorar, quais as implicações deste crescendo de habilitações ao nível da organização, das vivências, das práticas e das relações na escola, desde a sala de aula aos níveis de decisão pedagógico.

No entanto e perante os valores considerados não errarei muito se pensar que pelo menos terão mudado perspetivas, olhares, ideias, modos de ver, estar e sentir a escola, o aluno, o trabalho docente. Que terão mudado (até que ponto e em que medida?) as relações que se tecem e definem em contexto escolar e de sala de aula, de definir e circunscrever problemas como o de equacionar soluções (ou propostas disso).

Se acrescentarmos a esta alteração das qualificações docentes a progressão as próprias qualificações da generalidade da sociedade portuguesa (ver pordata, consulta em 28 de março), então teremos de equacionar que os olhares e os processos de análise têm todas as razões para se alterarem e reconfigurarem.

Pergunto eu agora, que implicações terão estas alterações na gestão dos comportamentos dos alunos? Nesta questão ter-se-á inclusivamente de equacionar os conceitos de (in)disciplina, de relação pedagógica e, não menos importante, de aluno. Perante estas alterações, docentes e endógenas ao sistema educativo como exógenas mas com repercussões nos olhares e nas perspetivas criadas sobre a escola, como é visto hoje o docente e o trabalho docente? Ao nível docente e da organização escolar que problemas se (re)definem e que propostas se (re)configuram?

Perante estas alterações não podemos nem devemos considerar que a escola pública portuguesa permanece inalterada, que a tradição é o que era, que o «hábito» faz o monge. Se assim for corre-se o sério risco de se tapar o sol com a peneira e se desbaratarem recursos, condições e possibilidades.

Manuel Dinis P. Cabeça

3 de abril de 2016

1 COMMENT

  1. Caro Manuel. E quantos mestrados e doutoramentos foram fugas para a frente em virtude do desemprego e que nem sequer estão a lecionar?

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