Home Rubricas “Qual a nota que a colega propõe para o aluno?” | “Prof.:...

“Qual a nota que a colega propõe para o aluno?” | “Prof.: 2” | Vozes: “OH, coleeeega, dooooois?”

39386
6

Relativo aos alunos com medidas universais, seletivas e/ou adicionais… Reconhecem???


Simule-se, então, uma potencial situação, entre muitas outras similares, nas reuniões de avaliação de uma qualquer turma de 8.º ano:

1ª Reunião de avaliação:

DT- Qual a nota que a colega propõe para o aluno?
Prof. da disciplina X: 2
Vozes: OH, coleeeega,dooooois ?
Prof. da disciplina X: Sim, Mandei-o estar atento -em vão; mandei-o passar o trabalho para o caderno – em vão; mandei-o vir às aulas com assiduidade e pontualidade – em vão; mandei-o estudar em casa – em vão,… 2
Vozes: a colega mannnndou??? Tem que o cativar, motivar e se necessário faça o pino para ele lhe achar graça e criar, assim uma relação emocional – e, vai ter que aplicar medidas universais ao aluno, patati, patata…

2ª Reunião de avaliação:

DT- Qual a nota que a colega propõe para o aluno?
Prof. da disciplina X: 2
Vozes: OH, coleeeega,dooooois? Então que medidas universais adoptou?- tem que ficar na acta e se não chegarem tem que passar às medidas selectivas e, caso não chegue às adicionais!
Prof. da disciplina X: centrei-me nas suas necessidade e interesses – Mudei-o de lugar, comprei-lhe uma cadeira almofadada, coloquei marcadores na mesa, fiz-lhe setas para se virar para o quadro, resolvi-lhe alguns exercícios no caderno, dei-lhe reforços positivos, valorizei a duplicar cada aula a que foi, valorizei a triplicar quando pelo menos levava (e ainda que apenas isso) uma folhinha; deixei de colocar questões difíceis, treinei o pino até conseguir praticá-lo na aula, adequei (simplifiquei)os critérios de avaliação,… e 2!

Reunião do 3.º Período:

DT- Qual a nota que a colega propõe para o aluno?
Prof. da disciplina X: 3
Vozes: OH, coleeeega, 3??? Tem a certeza???
Prof. da disciplina X: Absoluta! Se estão à espera que faça de palhaço, me meta em mais reuniões (outras tantas que não contam nos horários de trabalho, nem são pagas), relatórios, medidas, avaliações de medidas e reformulação de medidas para quem é simplemente preguiçoso e não estuda, estão bem enganados – evidentemente, que isto não fica em acta. Para a acta declaro que revi todo o meu processo de ensino e centrei-me nos interesses do jovem que estão nas antípodas das aulas e do trabalho – O jovem já sabe escrever o nome correctamente, sabe o nome dos jogadores todos de futebol e segue atentamente todas as novelas, usa o telemóvel sem sequer olhar para ele (não usa palavras mas pelo menos usa, com eficiência, uns “likes” e “emojis”; tem competências fantásticas em ludibriar os pais e um gosto estético pela arte da encenação/representação; participa em tudo o que seja projecto de paradigmas transversais e holísticos preferencialmente fora da escola e tem partilhado comigo a linguagem mais obscena que eu, com 30 anos de serviço, inacreditavelmente, desconhecia – tem direito ao sucesso!

E, já agora, se alguém der nível 2, que fiquem registadas todas as medidas universais, selectivas e adicionais que promoveu… e não quero saber se têm 50, 100, 150, 200 ou mais alunos!

Para terminar diria que o antigo 3/2008, reconhecia a existência de crianças, jovens com necessidades educativas especiais… o actual depreende que todos o alunos portugueses têm necessidades educativas especiais… devem ter detectado (e silenciado) algum problema genético nas jovens gerações actuais…

J.F


Comentário retirado do artigo: Medidas Universais de Suporte à Aprendizagem ou Medidas Universais de Sucesso Automático?

6 COMMENTS

  1. Onde está o erro dos pressupostos actuais do ensino???
    Ora pensem e digam comigo… Vejamos:
    Se o professor pratica desporto, o professor poderá vir a ser um bom desportista!
    Se o professor come muito, o professor poderá vir a ser um gordalhão!
    Que esperam???
    Que se o professor trabalha, prepara as aulas e se esforça fazendo até o pino pedagógico com os seus alunos… é o aluno que vai aprender?
    Não será o aluno que tem de comer para engordar, praticar desporto para ser bom desportista, estudar e preparar as lições estudadas para ter bons resultados???
    Ou será que se o médico toma a medicação… o paciente consegue curar-se??
    É que se esperam que seja o professor a trabalhar pelo aluno, a preparar as lições e a praticar cumprindo o receitado pelo professor, o melhor será também esperar que seja o médico a tomar os medicamentos, a cumprir o estipulado nas receitas… para que os filhos se curem!

  2. Adorei o texto.
    Partilho da mesma opinião.
    Qual será o próximo Decreto-Lei, se com este ainda houver uma ou outra exceção de alguma retenção?
    Estou curiosa…

  3. Excelente!
    Agora, mais do que nunca, ninguém se importa com o facto de termos turmas de 25 ou 30 alunos! Cada aula tem de ser pensada e preparada de várias formas, tendo em conta os diversos níveis, interesses ou desinteresses dos alunos todos ! Quem está no terreno sabe bem que alguém vai sair prejudicado! É impossível atender devidamente a todos ao mesmo tempo!
    Então, mas afinal agora…quantos níveis vão, na realidade, ser atribuídos a cada professor? Já pensaram?
    Pois se numa turma de oitavo eu tenho um aluno que não sabe a matéria do quinto, nem do sexto nem do sétimo e me dizem que tenho de o recuperar!
    E enquanto estou atenta a esse, o que fazem os outros 25?Dá que pensar!
    O melhor mesmo é decretar o fim dos testes, das provas de aferição e dos exames. Isso é que seria assunto! Transitava tudo por decreto e pronto!Simples.

  4. Na verdade, é simples.
    Quando eu estudei – há cerca de 40 anos, e era aluna no liceu, as turmas tinham 25 ou mais alunos, também. Também havia bons e maus professores. Havia professores que tinham estratégias das quais eu gostava mais ou menos. Havia professores que eram mais ou menos simpáticos. Tive muitos, ao longo da vida, como todos nós. Vejamos, qual é o elemento comum nisto tudo? Eu, certo? A aluna. Era eu que tinha os deveres pra fazer, se não os fizesse sabia que teria consequências. Se os fizesse, teria consequências também. Boas, neste caso. Se o meu comportamento fosse bom – e era – sabia que tinha consequências – sobretudo em casa, porque os meus pais estavam sempre atentos. Este tipo de discurso que está no texto já vem de há décadas, independentemente da legislação do ME. “Os meninos, coitadinhos, não podem ter notas negativas” – ressalvo o “podem”. Podem, pois. E se tivermos, nós professores, que justificar com tudo, pois justifiquemos. Mas que não nos viremos uns contra os outros! Se há classe trabalhadora com mais divergências é a nossa. Questionamo-nos contantemente uns aos outros, o ME tem legislado de forma a que nós somos os nossos próprios “vigilantes” – são os outros professores que nos avaliam, nos questionam, enfim. Felizmente, se tivermos uma boa escola, uma boa rede de apoio, são também os outros professores que nos acarinham, ouvem as nossas dores e são a nossa rede protetora. Há de tudo.

  5. Pura realidade e não muito longe daqui… Qualquer semelhança é pura coincidência.
    E agora damos positiva a todos os meninos ??!! Ou ainda podemos dar uns dois … desde que os meninos não reprovem … caso contrário teremos de repensar nas nossas avaliações e os colegas votarem, contra a nossa vontade, na avaliação dos meninos pois é sempre bom meterem-se nas avaliações dos outros professores!!! Começo a não fazer nada ao longo do ano que o resultado final é o mesmo … passagem administrativa de todos os meninos …

  6. Descrição fantástica! parabéns pelo texto! fartei-me de rir com as ironias! De facto, somos uns serzinhos bastante resilientes, com competências de sobrevivência sobrenaturais… viva a adaptação! Quando esses tais se tornarem adultos, os professores continuarão a evoluir, e eles nem chegarão a professores… o que em última análise submete a profissão para uma espécie em vias de extinção!e sendo assim… ohhh a cadeia alimentar será igualmente destruída… os “doutores e engenheiros” não chegarão a políticos, porque sem professores não poderão progredir para o ensino superior, e sem políticos não há governo. Portanto, vamos lá ver… pois cai o sistema todo, e lá virão outra vez as eras filipinas tomar conta disto tudo… ai Portugal Portugal… o ensino em último lugar e lá se vão os alicerces de um país!

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here