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Professores vs Pais ao estilo Rocky Balboa

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Ladies and GentlemensMesdames et MessieursSenhoras e Senhores… Sejam bem-vindos a mais um fantástico combate da Liga Educativa. Desta vez um verdadeiro clássico, um Professor, Diretor de Turma contra um Pai Furioso que vem pedir satisfações…

boxing_gloves_punch-t3Apresentando…

No canto vermelho, com 1 metro e 70 centímetros, cabelo grisalho, óculos da multiopticas, congelado há 10 anos, capaz de num simples golpe chumbar um aluno, um multifunções por excelência,  um camaleão educativo… O PROFESSOOOOORRRRRR (P)!!!!!

No canto azul, com 1 metro e 60 centímetros, barba por fazer, cabelo oleoso, palito entre os dentes, manga caveada, capaz de arrotar durante 20 segundos e um perito em subsídios sociais… O PAI FURIOSO (PF)!!!!

Round 1 – A Entrada na Escola

O Pai Furioso não perde tempo, ainda com a claque de apoio bem próxima (família), tenta a todo o custo entrar na escola sem autorização, um assistente operacional tenta impedi-lo mas não consegue parar um primeiro ataque demolidor…

PF – “Onde é que está o gajo c#$&lho??? Eu vou-lhe aos cornos, ai vou vou!!!”

Vai estrebuchando e ao encontrar o seu adversário dá o primeiro golpe…

P.F – “Foste tu que puseste a minha filha na rua, ó palhaço???”

O Professor foi apanhado desprevenido, não estava à espera de uma entrada tão forte, que estratégia utilizará para contrariar a verborreia e instinto animalesco?

Ding Ding

Round 2 – Aguentar a Ofensiva

O Professor consegue aguentar o primeiro embate, mantendo-se calmo, frio, fruto do seu hábito em permanecer congelado… reage assim com prudência, estudando o seu adversário e optando por usar a sua principal arma – a inteligência…

P – “Peço desculpa, mas não sei do que o senhor está a falar, mas terei todo o gosto em explicar-lhe o sucedido…”

PF – “Explicar??? És uma besta é o que é, a minha filha só estava a ver as horas no telemóvel e puseste-a na rua??? Mas ela não pode ver as horas c#$%lho???

Ui… Mas que golpe!!! Não está fácil a vida para o Professor, conseguirá ele reagir? Esperem, esperem… O Professor tenta responder, levando o seu adversário para o canto (sala de atendimento dos E.Ed.), eliminando assim um dos seus principais trunfos, a “peixeirada”…

P – “Não foi bem assim, mas vamos ali ao meu gabinete pois tenho algo para lhe mostrar, algo que o senhor precisa de ver e que explicará muito do que se passou e está a passar…”

PF – “Eu não quero ver nada pá!!! Esta escola é uma m#rda!!! Vocês não valem nada, têm a mania que sabem tudo…”

P – “Compreendo que esteja irritado, mas tudo se vai esclarecer, venha comigo por favor.”

E o Professor leva o Pai Furioso para o seu gabinete e antes de terminar o segundo round, consegue algo que pode ser determinante para o terceiro, “prender” o Pai Furioso a uma cadeira, reduzindo assim os seus movimentos e velocidade de reação.

Ding Ding

Round 3 – O Contra Ataque

P – “Eu sei que a sua filha é muito importante para si, e percebo que esteja chateado, mas acredite quando lhe digo que nós importamo-nos muito com o seu futuro e estamos aqui para a ajudar a ter uma vida melhor. Certamente que é isso que o senhor pretende…”

PF – “Vocês pegaram-lhe de ponta, essa é que é a verdade… Acha justo ela olhar para o telemóvel e vir para a rua por causa disso?”

P – “Não foi bem assim, ela estava a mandar sms e foi avisada 3 vezes para guardar o telemóvel, mas se não acredita em mim peça-lhe para ver o telemóvel e veja a que horas é que as mensagens foram enviadas e vai verificar que ela nesse momento estava em aula.”

P – “E já agora, fico contente que o senhor tenha vindo à escola, é que andamos a tentar contactá-lo há 3 meses… Tem noção que a sua filha falta frequentemente às aulas?”

PF – “Falta??? Eu acordo-a todos os dias e quando saio de casa ela está a tomar o pequeno almoço e tem a mochila ao lado…”

P – “Pois… mas lamento informá-lo que ela já ultrapassou o limite de faltas a Matemática, Português e Inglês, conforme pode verificar no mapa das faltas.

PF – ……………………………………………………………………(enquanto olha para as 57 faltas)

Ding, Ding

Temos combate, sim senhor, o Professor reagiu muito bem e de forma inesperada lá conseguiu “domar” o animal Pai Furioso, encontrando-se neste momento em posição defensiva.

Round 4 – o Knockout

PF – “Olhe professor, eu já não sei o que lhe hei de fazer, ela não gosta da escola mas prometeu-me que vinha às aulas, apesar dos Professores não gostarem dela…”

P – “Não é verdade… Sabe que a adolescência é uma idade muito complicada e por vezes os alunos faltam à verdade para não desiludirem os Pais. Pais que fazem tantos sacrifícios para que eles possam ter uma vida melhor, uma vida que vocês não puderam ter…

Que classe! Fantástico golpe! Direitinho ao coração do Pai Furioso…

PF – “É verdade professor, trabalho 12 horas por dia, eles não sabem o que a vida custa…” (nota: é trabalho não declarado…)

P – “Pois, só mais tarde é que dão o devido valor, mas depois será tarde…”

PF – “Foi como eu… não quis estudar e agora estou aqui.”

P – “Pronto, fique com o mapa das faltas, fale com a sua filha e se os dois trabalharmos em conjunto talvez consigamos dar a volta a isto… O que ela não pode sentir é que o senhor está contra a escola,  ela assim faz-lhe a “cabeça” e depois acontecem coisas como a de  hoje. Sempre que precisar pode vir cá e falamos calmamente, mas peço-lhe para atender o telefone quando lhe ligamos. Pode ser?”

PF – “Pode pode… e desculpe lá o que aconteceu, sei que exagerei mas estava mesmo chateado…”

P – “Pronto deixe lá, só lhe peço para que não volte a repetir, foram vários os alunos que assistiram e é desagradável e um mau exemplo enquanto pai. O senhor tem de acreditar mais em nós, tem de acreditar mais na escola…”

PF – “Sim, sim, tem razão, peço desculpa…”

Ding Ding

Senhoras e senhores, por knockout, o Professor derrota um dos adversários mais difíceis da época, o Pai furioso. No próximo combate, teremos outro clássico aliciante, o Professor vs Turma Vocacional.

Nem sempre é assim pois não? Nem sempre o desfecho é tão positivo… Muitas vezes a conversa é tão “sumarenta” que não resta outra opção que não seja chamar as autoridades.

Fiz este artigo com dois objetivos, o primeiro para mostrar um pouco da realidade, o segundo para mostrar a estratégia que utilizo quando estou perante pais muito difíceis. Ouvir/ Estabelecer pontes de concordância/ Tornar o Enc. Educação um aliado da escola. Qual é o segredo? A empatia e tem funcionado na maioria dos casos…

Se o nosso “adversário” sentir que estamos contra ele, vai apenas provar tudo o que o seu educando disse, mesmo que esteja carregadinho de mentiras. Tudo será dito, sem floreados e paninhos quentes, e as pessoas são colocadas no seu verdadeiro lugar, mas tudo tem o seu momento e o timing é tudo. Não se trata de ser calculista, trata-se de ter do nosso lado alguém que ajudará (pelo menos em teoria) a dar a volta a um aluno que está na iminência de se perder.

Professores e Pais são os pilares educativos dos nossos jovens e das nossas crianças. E nós professores, que vivemos na constante adversidade temos de ser capazes de os ter do nosso lado, se não for por eles, que seja pelo futuro dos nossos alunos. Não é um sinal de fraqueza é um sinal de inteligência e de dever cívico, um trabalho de bastidor que não é mediático mas diz muito da nobreza do nosso espírito, um espírito de devoção e compromisso pela educação.

Não vamos salvar todos, mas podemos sempre salvar alguns, não podemos é deixar de tentar…

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5 COMENTÁRIOS

  1. Será necessário as ESCOLAS fazerem testes aos PAIS E Mães, para se perceber sem dúvidas………, algumas…que estes e estas não sabem mandar nos FILHINHOS; FILHINHAS………

    E que estes FILHINHOS; FILHINHAS…….só.. têm direitos e nenhuns deveres……

    E batem nos pais e mães…..

  2. Texto excelente! A rir, a rir, encontrei lá muito daquilo que pôs muita gente a chorar ao longo dos anos… Nem todos podem ser Rocky…

  3. Excelente descrição, tal e qual! Será necessário às escolas terem equipas de técnicos que trabalhem com os pais/encarregados de educação do pré-escolar e 1º ciclo ( “de pequenino é que se torce o penino!”) para serem orientados nas diversas situações do dia a dia em casa e na escola. Devem aprender a ouvir os outros, nomeadamente os professores. Penso que, na realidade, os pais/ encarregados de educação confiam nos professores, porque diariamente deixam os seus filhos na escola, mas as frustrações são tantas ( relações humanas, profissionais, de ordem económica, entre outros) que acabam por “descarregar” nas pessoas que mais tempo passam com os seus filhos, como se fossem perigosos, o que é uma grande contradição… Na realidade, penso que há aqui superproteção: os jovens não podem cair, não podem ser contrariados, não podem ser orientados, porque não o são em casa, junto da família. Estes jovens são os melhores do mundo para cada pai/ encarregado de educação e são, de facto, eu também sou mãe, porém é preciso não esquecer que os comportamentos mudam, dependendo de inúmeras variáveis, mas fundamental é o trabalho colaborativo e de franca honestidade entre escola e família, sendo o diálogo aberto uma condição imprescindível para a preparação destes jovens para o futuro. É um trabalho desgastante? Sim! É difícil? Sim! Por vezes, parece quase impossível? Sim, mas é preciso nunca desistir!
    Por fim, gostaria de acrescentar que se já vivi situações como a que é descrita neste excelente texto, também tenho alunos e encarregados de educação excecionais, que sabem pefeitamente desempenhar as suas funções e que fazem um bom trabalho colaborativo com os professores. Nem tudo é mau, mas não é fácil e é preciso encontrar caminhos…

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