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Professores: Uma “Espécie” Em Vias De Extinção | Crianças Fazem Vídeo A Pedir Professores

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A falta de professores está apenas a dar os primeiros passos em Portugal, mas noutros países essa é uma realidade bem presente e em alguns casos chega a ser dramática.

A lista que se segue indica os países onde a escassez de professores é maior, chegando ao ponto de na Tanzânia existir 1 professor para 218 alunos.

Fonte: https://www.worldatlas.com/articles/countries-with-teacher-shortages.html

 

Os motivos não são difíceis de compreender, estamos a falar de países de 3º mundo, onde as dificuldades são extremas a todos os níveis.

Por que há uma escassez de professores?
Em muitos países, a falta de educação acessível significa que muitos alunos nunca terão a oportunidade de se formar para serem professores. Além disso, os salários são muito baixos em muitos países para o pessoal docente, especialmente quando comparados com outros meios, o que significa que muitos futuros educadores não se podem dar ao luxo de abraçar a profissão.

Porém, nos países industrializados a escassez de professores é também uma realidade, nomeadamente nos Estados Unidos onde a valorização e o afeto da sociedade para com estes está bem presente, algo que difere bastante no nosso país. Os motivos são, tal como cá, financeiros, mas não se restringem aos dólares que caem na conta. No artigo que se segue, vão reparar que a afinidade com os problemas nacionais é bastante evidente…


A falta de professores é real e está prestes a ficar muito pior.

(…)

De acordo com pesquisas do Instituto de Política Econômica (EPI), a falta de professores pode chegar a 200.000 em 2025, contra 110.000 em 2018. Esta escassez de trabalhadores deve-se a uma série de factores. Entre eles estão a remuneração, as condições de trabalho, a falta de apoio, a falta de autonomia e a mudança de currículo.

(…)

De acordo com o Dr. Richard Ingersoll da Universidade da Pensilvânia, a rotação de professores é, na sua maioria, motivada pela insatisfação. A Ingersoll diz que esta insatisfação é o resultado da falta de liberdade. Os professores são microgeridos. Enquanto lhes é dito para se diferenciarem e adaptarem a cada criança específica, eles também têm de se cingir a um currículo programado. Ao mesmo tempo, eles não têm voz nas decisões de toda a escola.

As pesquisas constatam que a autonomia dos professores está positivamente associada à sua satisfação no trabalho e à sua retenção. Os professores que percebem que têm menos autonomia são mais propensos a abandonar as suas posições, seja mudando de uma escola para outra ou deixando a profissão por completo.

(…)

Além disso, os professores raramente são consultados sobre mudanças administrativas, talvez porque estão entre os mais baixos da hierarquia educacional depois de ensinar os assistentes. No entanto, é por causa desse fato que muitos professores se sentem desinteressados e impotentes.

Há também o caso do controle dentro da sala de aula. Em geral, os professores americanos relatam pouco controle sobre duas áreas: “seleccionar livros e outros materiais de sala de aula” e “seleccionar conteúdo, tópicos e competências a serem ensinados”.

A falta de autonomia pode ser rastreada até a padronização do sistema educacional. A tendência atual para a padronização de currículos de aprendizagem e rotinas prescritas de gestão de sala de aula – está prejudicando os educadores em todo o país e desencorajando indivíduos talentosos de ingressar no campo.

Fonte: https://www.epi.org/publication/the-teacher-shortage-is-real-large-and-growing-and-worse-than-we-thought-the-first-report-in-the-perfect-storm-in-the-teacher-labor-market-series/

O que deve ser feito?
É evidente que há um controle excessivo sobre os professores. Por que contratar alguém apenas para que você possa dizer-lhes o que fazer? Nós temos robôs para isso. Os professores são seres vivos e pensantes. Eles podem acrescentar valor e criar ambientes de aprendizagem significativos, adequados à sua classe. O caminho para a padronização tem que parar, e a Finlândia nos mostra os benefícios de tomar um caminho diferente.

Na Finlândia, os professores são altamente qualificados e têm um alto nível de autonomia. Não existem testes padronizados, nem currículos rigorosos, nem inspecções gerais. O currículo é deliberadamente amplo, concentrando-se na melhoria individual e não na avaliação coletiva.

O sistema finlandês funciona em torno das crianças e não o contrário. Ao adaptar as aulas aos interesses da turma, os resultados são apresentados a seguir. Os alunos estão mais envolvidos e, portanto, aceitam mais.

Ao mesmo tempo, isto requer uma força de trabalho bem educada. No entanto, não se pode criar uma se potenciais professores não quiserem ingressar na profissão. Ao criar uma força de trabalho stressada e ansiosa, os outros inevitavelmente não estão dispostos a segui-la.

Deve-se dizer que o salário também é um fator que contribui, e embora o salário mais alto também ajude, capacitar os professores terá os resultados mais benéficos. Portanto, a fim de melhorar a qualidade dos professores, devemos em primeiro lugar dar poder aos que já temos. Só então os outros seguirão, como também permanecerão dentro da profissão.

* artigo traduzido de The Teacher Shortage Is Real and about to Get Much Worse. Here’s Why


E podia continuar: no Brasil o número de jovens que optaram pelas licenciaturas caiu 10% entre 2010 e 2016; na Austrália, as licenciaturas na Universidade de Queensland tiveram uma redução de 44%; na Suécia 49% dos professores têm 50 ou mais anos de idade; na Alemanha faltam 26 mil professores primários; na Nova Zelândia o desinteresse é cada vez maior; na Escócia em 2017, o governo escocês começou a oferecer bolsas de 20 mil libras para novos professores; e como é óbvio não nos podemos esquecer da conhecida Inglaterra, onde…

As escolas inglesas estão a enfrentar uma “grave carência” de professores, com turmas maiores e mais matérias ensinadas por funcionários sem um diploma relevante, diz o Education Policy Institute (EPI).

Na Inglaterra, a EPI sugere que o governo ofereça suplementos salariais de 30 mil libras (cerca de R$ 150 mil) por ano aos professores de cursos com maior escassez. O país começa a estudar saídas para mitigar a falta de docentes em algumas regiões. A revista especializada Tes estima que a Inglaterra necessitará de 47 mil novos professores de ensino secundário e 8 mil de educação primária até 2024 para acompanhar o crescimento da procura. Até aqui, os britânicos têm tido trabalho para bater essa meta. Os índices de recrutamento do governo estão bem abaixo do projetado. Em física, por exemplo, o número de profissionais inscritos nos cursos de formação chegou a apenas 19% do objetivo, caindo para 16% em matemática. 

Não é por isso de estranhar que um pouco por todo o mundo surjam notícias sobre a falta de professores e curiosamente, após a leitura de vários artigos internacionais, as soluções apresentadas andam todas elas à volta do mesmo:

  • valorização das carreiras
  • melhores condições de trabalho (infraestruturas, nº de alunos, carga laboral)
  • maior autonomia pedagógica

A questão que se coloca é se os Governos dos respetivos países estão a dar a devida importância ao que se está a passar. Os professores estão a diminuir a olhos vistos e sem ninguém para transmitir o conhecimento, como é que esses países vão manter o seu nível de desenvolvimento ou potenciá-lo? A aposta na Educação deveria ser prioritária a nível mundial, o conhecimento é a maior alavanca social, económica e porque não dizê-lo pois está em cima da mesa, ambiental.

Em Portugal existe um desprezo pela valorização das carreiras e imagem do professor, e as condições de trabalho estão aos olhos de cada um… Mas verdade seja dita que nos últimos anos tem existido uma tentativa para pelo menos no discurso atribuir uma maior autonomia aos professores, mesmo que se aponte o dedo ao facilitismo…

Não estamos por isso sozinhos e a crise que virá já está bem presente em muitos países, o rumo para combater esta debandada não é difícil de perceber, a questão que se coloca é se existe discernimento para fazer algo, ou melhor ainda, se há dinheiro para apostar na Educação, nos professores, direi mesmo no futuro do país.

Crianças holandesas fazem apelo a pedir professores.

Fonte: The Guardian

Alexandre Henriques

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